O mar 'sumiu'? Entenda o recuo das águas potencializado pelo ciclone

Como a intensidade do vento é moderada e a duração do vento é longa sobre a superfície, ele gera um efeito de transporte chamado Ekman
Nas redes sociais, internautas ficaram surpresos com o cenário (AFP/AFP)
Nas redes sociais, internautas ficaram surpresos com o cenário (AFP/AFP)
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Estadão ConteúdoPublicado em 15/08/2022 às 16:54.

No último fim de semana, um trecho do litoral paulista, principalmente perto da Ponte Pênsil, que divide São Vicente e Praia Grande, ficou com as águas bastante recuadas, o que provocou o encalhe de algumas embarcações e chamou a atenção dos frequentadores. Segundo a meteorologista da Climatempo Fabiene Casamento, esse recuo do mar se deve à posição de uma área de alta pressão atmosférica no Oceano Atlântico, próximo à costa de São Paulo, e foi potencializado pelo ciclone extratropical que atingiu a região. Este sistema meteorológico é comum e faz com que os ventos se movimentem no sentido anti-horário e de cima para baixo, em espiral, e, por consequência, empurra as águas do oceano em direção ao mar aberto e pode comprometer a navegação em canais de acesso a baías e portos.

"Como a intensidade do vento é moderada e a duração do vento é longa sobre a superfície, ele gera um efeito de transporte chamado Ekman. Esse transporte Ekman gera um empilhamento das águas, uma inclinação, e tem a influência da força de Coriolis, que só é sentida em massas que estão em movimento girantes, um movimento que ocorre distante do Equador e acontece através da rotação da Terra, tendo seu efeito máximo nos polos", explica a meteorologista.

Nas redes sociais, internautas ficaram surpresos com o cenário. Era possível ver pessoas caminhando sobre uma imensa faixa de areia formada pelo recuo do mar e alguns barcos encalhados.

Mas, se é tão comum, por que causou espanto na população? Normalmente esse recuo é menor, poucos metros, mas desta vez uma grande área da praia ficou aparente.

Segundo a meteorologista, quando uma frente fria de forte intensidade passa pela costa brasileira esse recuo do mar se torna bem mais acentuado, devido à magnitude dos ventos que acompanham o sistema. Foi o caso da semana passada, quando um ciclone extratropical (que é uma frente fria de forte intensidade) se formou entre a noite de terça-feira, 9, e a madrugada de quarta-feira, 10, provocando quedas nas temperaturas, chuvas fortes e rajadas de ventos de até 100 km/h nos Estados do Sul e do Sudeste do País.

Ainda conforme Fabiene, essa força atua perpendicularmente à direção do movimento, desviando-o para a esquerda, no Hemisfério Sul, e para a direita, no Hemisfério Norte. Vale lembrar que no Equador o efeito de Coriolis é nulo.

Outro fator que também influencia para o recuo do mar é a fase da Lua, que desde quinta-feira, 11, encontra-se cheia.

"Essa fase também mexe com as marés, que deve ser alta, conhecida como maré sizígia. Que é quando o Sol, a Lua e a Terra estão na mesma linha, ou seja estão alinhadas, nessa fase da Lua. E a força gravitacional que a Lua exerce sobre a Terra afeta o movimento da água do mar", diz a meteorologista da Climatempo.

Desta forma, a atração gravitacional exercida pelos dois astros sobre os oceanos se soma, gerando correntes marítimas que causam uma elevação máxima do nível do mar na direção dessa linha (marés máximas ou de sizígia). "Assim, se tiver ressaca, acaba intensificando-a, e se tiver recuo, também o intensifica", acrescenta Fabiene.

A meteorologista afirma que o fenômeno já aconteceu em outros momentos na região, mais precisamente em 22 de julho de 2020. Além disso, o recuo do mar, pode ocorrer entre uma a três vezes por ano. Em agosto de 2017, também foi registrado um recuo de mar no Brasil, desde o litoral sul do País até o litoral paulista. Não existindo a possibilidade de ocorrer um tsunami, como alguns internautas chegaram a cogitar.

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