O cachorro está cada vez mais humano, diz estudo

Os cachorros imitam as atividades dos seres humanos e são capazes de aprender, reter na memória e lembrar ações ensinadas por pessoas

A convivência entre humanos e cães gera laços afetivos fazendo com que muitos donos tratem seus animais como se fossem seus companheiros, e que os cachorros se comportem, em alguns casos, de forma similar às pessoas, mostrando uma inteligência e memória notáveis.

Segundo os cientistas Claudia Fugazza e Ádám Miklósi, autores de uma pesquisa para a Universidade Eötvös Loránd de Budapeste, na Hungria, publicada na revista “Animal Cognition”, os cachorros domésticos são particularmente receptivos aos gestos e comunicações humanas, aprendem porque observam atentamente as pessoas, e percebem facilmente a influência humana em situações de aprendizagem.

“A capacidade canina de imitar uma ação nova após uma demora, de até um minuto, durante o qual o animal é distraído, incentivando-o a participar de outras atividades, sugere a presença de um tipo específico de memória a longo prazo ou ‘retentiva declarativa’, a que se refere a memórias que podem ser recordadas conscientemente”, explicaram os pesquisadores.

Por outra parte, e segundo a Primeira Análise do Observatório Fundación Affinity sobre o Vínculo entre Pessoas e Animais de Companhia, existe um forte vínculo emocional entre os donos e seus animais, até o ponto que 63% deles afirmam contar a seu cachorro coisas que não compartilham com mais ninguém.

Este estudo pioneiro na Europa e no qual participou a Cátedra Fundación Affinity Animais e Saúde da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB), na Espanha, destaca que muitas pessoas têm fortes laços afetivos com os animais de estimação com os quais compartilham sua vida.

Esta pesquisa revelou que nove de cada dez pessoas afirmam que seu cachorro sempre está com eles quando precisam de consolo, carinho, segurança ou motivação, e têm a certeza que continuariam sempre a seu lado de forma incondicional.

MUITO MAIS QUE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO

Pelo menos 70% das pessoas interrogadas afirma que seu cachorro lhes oferece companhia constante, e a grande maioria reconhece dar-lhe diariamente demonstrações de carinho como abraços (85%) e até beijos (76%), segundo este estudo (http://www.fundacion-affinity.org).

Globalmente, o vínculo entre a pessoa e o animal é tão forte que “oito de cada dez indagados afirma que seu cachorro é um motivo para se levantar a cada dia”, segundo este relatório.

De acordo com a Fundação Affinity, 54% das pessoas leva seu cachorro para visitar seus amigos pelo menos uma vez por semana, enquanto 84% brinca com ele todos os dias e 90% assiste televisão acompanhado de seu animal de estimação.

A conexão em nível emocional também é especialmente forte no caso dos mais novos, já que o estudo revela que oito em cada dez crianças, de entre 9 e 12 anos, preferem brincar com seu gato ou seu cachorro do que jogar videogames.

Além disso, os laços afetivos com o animal são os que melhor lhes fazem superar a sensação de medo ou tristeza, pois a criança recorre habitualmente a seu bicho de estimação para abraçá-lo e encontrar alívio nestas situações, e o procura como fonte de consolo “na mesma medida que a seus pais” quando têm algum problema, segundo o estudo.

Segundo explicou à Agência Efe Jaume Fatjó, diretor da Cátedra Fundación Affinity Animais e Saúde da UAB, “os cachorros passam a fazer parte da rede social de seus donos. Assim, um cachorro proporciona, não só companhia, mas também apoio emocional nos momentos de dificuldade”.

Um mulher com seu cachorro se banha em uma área de praia para animais de estimação no município de El Campello (Espanha). EFE/Manuel Lorenzo.

Segundo Fatjó, o cachorro apresenta duas características muito atrativas: disponibilidade e confidencialidade. “Sua disponibilidade é sempre total e isso encaixa com a frase que tantas vezes ouvimos de donos de cachorros de “sempre está ali quando preciso”, e isto é particularmente importante para aqueles donos com uma rede social comprometida, como muitos idosos. Sua confidencialidade é, em todo caso, obrigada, mas aparentemente efetiva”, explicou este especialista.

Em respeito à ideia de que com a passagem dos anos e a convivência, alguns cachorros adotam condutas ou características próprias de seus donos, para Fatjó “existe muita lenda urbana ao redor desta questão e a pesquisa sobre este tema é limitada”.

OS HUMANOS INFLUENCIAM SEUS ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO?

“Alguns estudos cientistas sugerem que alguns traços temperamentais do dono podem influenciar no comportamento de seu cachorro, indicaram há alguns anos os especialistas da Universidade de Cambridge (Reino Unido)”, disse Fatjó.

“No entanto, isso não significa que a conduta do cachorro se pareça à do dono”, comentou este doutor em veterinária e especialista europeu certificado em medicina do comportamento de animais de estimação.

“No entanto, outro estudo feito há apenas um ano coloca a possibilidade de alguns traços de personalidade do dono possam se refletir em traços de temperamento similares em seu cachorro, por isso será necessária mais investigação para responder de forma adequada a esta questão”, declarou Fatjó à Efe.

Fatjó acredita que o contato contínuo de um cachorro com as pessoas ou seu dono possa de alguma forma “humanizar” este animal, já que “na convivência com o ser humano, um cachorro conserva os traços fundamentais de comportamento de sua espécie”.

No entanto – explica o diretor da cátedra Animais e Saúde  – “é certo que muitos aspectos do comportamento do cachorro coincidem com nossa forma de ser e, por isso, supomos que a relação é tão intensa”.

“Da mesma forma que nós, os cães gostam de viver em grupo e formam vínculos emocionais muito fortes e duráveis com quem convivem”, acrescentou este veterinário.

Consultado sobre o recente estudo da universidade húngara Eötvös Loránd, que indica que os cachorros podem aprender e imitam as ações dos humanos, Fatjó afirmou que “a complexidade do cérebro segue o mesmo princípio de continuidade entre espécies que observamos em outros aspectos da evolução biológica. Assim, muitas de nossas habilidades cognitivas existem já em outras espécies de mamíferos”.

“Depois dos grandes símios, os cachorros são considerados uma espécie de uma complexidade cognitiva notável. Por exemplo, um cachorro é capaz de utilizar mapas mentais para orientar-se, de se reconciliar após um conflito e até de detectar uma situação de desigualdade entre ele e outro cachorro”, ressaltou Fatjó.

“Além disso, o processo de domesticação potencializou a capacidade do cachorro para ler a linguagem corporal humano e inclusive imitá-la, como sugerem algumas pesquisas recentes”, concluiu este pesquisador.

Ricardo Segura.
Efe Reportagens.

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