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Nascido de um erro, Kevlar completa 50 anos

Quando foi inventado, o Kevlar, que hoje está em coletes à prova de balas, pneus e até cadarços, quase foi para o lixo

Fibras de Kevlar: o "erro" era uma fibra mais leve do que o aço, mas cinco vezes mais forte do que o metal (Henry Heatly/Wikimedia Commons)

Fibras de Kevlar: o "erro" era uma fibra mais leve do que o aço, mas cinco vezes mais forte do que o metal (Henry Heatly/Wikimedia Commons)

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Gabriel Garcia

15 de maio de 2015, 22h40

A vida das pessoas é repleta de objetos cobertos ou construídos com Kevlar: de coletes à prova de balas até pneus e cadarços, uma lista inesgotável de objetos é revestida ou fabricada com a fórmula [-CO-C6H4-CO-NH-C6H4-NH-]n.

Mas quando foi inventado, há exatos 50 anos, o material não parecia ter um futuro tão promissor. Na verdade, ele quase foi para o lixo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a equipe de pesquisa e desenvolvimento da DuPont começou a desenvolver materiais para novas versões de diferentes equipamentos antecipando uma possível crise mundial no fornecimento de materiais como metais e borracha.

Um desses objetos foi o capacete usado pelos soldados do Exército americano. As Forças Armadas queriam substituir o velho, pesado e desconfortável capacete de ferro por algo mais leve e, obviamente, seguro.

A missão da equipe de pesquisa da DuPont era criar uma espécie de teia de aranha sintética: um material extremamente leve e muito resistente.

Em 1965, a cientista Stephanie Kwolek se deparou com uma fibra inédita enquanto testava algumas aplicações químicas para polímeros. A pesquisadora percebeu que havia encontrado cadeias de moléculas extremamente resistentes, chamadas de polímeros líquidos cristalinos.

O problema era que eles se quebravam com muita facilidade. Mas Kwolek sabia que havia encontrado algo diferente ali.

Depois de muita pesquisa, Kwolek desenvolveu um solvente capaz de estabilizar as longas cadeias de carbono.

Mas o material final era uma solução opaca e sem viscosidade, com a consistência de um leite e que geralmente era jogada no lixo após as experiências.

Mas a cientista convenceu o técnico que a acompanhava a testar as propriedades daquela maçaroca: descobriu-se que o "erro" era uma fibra mais leve do que o aço, mas cinco vezes mais forte do que o metal.

Em 1971, um militar chamado Nick Montanarelli ouviu falar sobre a fibra ultrarresistente que o Exército estava testando em pneus, o Kevlar. Ele ligou para Lester Shubin, diretor do Instituto Nacional de Justiça e sugeriu usar esse novo material em coletes e roupas.

Para testar sua teoria, revestiu uma lista telefônica em Kevlar e deu alguns disparos com um revólver. As balas ricochetearam.

O Instituto Nacional de Justiça decidiu saber se o impacto causava algum trauma no corpo, mesmo com as balas não atravessando o material. O teste foi feito com cabras, já que cadaveres e bonecos não serviam por não terem órgãos que pudessem ser impactados.

Em 1978, os Exército dos Estados Unidos encomendou a DuPont jaquetas e capacetes revestidos por Kevlar.

Cinquenta anos depois de ser inventado, o material está presente desde solas de sapato até no robô Curiosity, que atualmente investiga o planeta Marte. Felizmente, Kwolek viveu para ver sua invenção dominar o mundo. A cientista morreu aos 90 anos, em junho do ano passado.