Jovens ou idosos: quem vacinar primeiro para acabar com a covid-19?

Até o momento mais de 7,7 bilhões de pessoas já foram vacinadas contra o novo coronavírus. Vacinar idosos primeiro é a melhor estratégia?

As campanhas de vacinação no mundo todo já estão a todo vapor. Até o momento mais de 7,7 bilhões de pessoas já foram vacinadas contra o novo coronavírus nos 54 países que já aprovaram imunizantes para o uso emergencial – com vacinas como a da Pfizer/BioNTech, da Moderna, da Sinovac e do Instituto Gamaleya.

Ao todo, 131 milhões de doses foram aplicadas. Na maioria dos países, a orientação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de diversos especialistas da área da saúde prevalece: primeiro é essencial vacinar os idosos, em seguida outros grupos de risco. Mas seria essa a estratégia mais correta?

Para a Indonésia, não. O país, que chegou a 1,5 milhão de casos confirmados e 31,3 mil mortes pela covid-19, decidiu não começar a campanha de vacinação pelos grupos de risco e sim em pessoas de 18 a 59 anos, com o intuito de priorizar aqueles que "movem a economia da região". A Indonésia quer vacinar cerca de 67% de sua população (aproximadamente 180 milhões de pessoas), para provavelmente atingir a imunidade coletiva.

O fator cultural também influencia na decisão dos agentes governamentais. Na Indonésia, é comum que idosos dividam a casa com seus filhos e netos, portanto, não há garantia que aqueles que saem para trabalhar possam se isolar de seus familiares mais velhos.

A lógica do ministério da Saúde indonésio é que, ao vacinar aqueles que saem para trabalhar, há uma garantia que o vírus não chegará em quem mora com eles. Mas os próprios dados do governo mostram que não foi bem isso que aconteceu: 39% das mortes por covid-19 no país são de idosos, mesmo eles representando apenas 10% da população.

Os porta-vozes do ministério da Saúde da Indonésia também afirmam que a vacina da CoronaVac, que representa mais da metade das doses encomendadas pelo país, não foi testada em maiores de 60 anos durante a fase 3 dos testes clínicos e, portanto, não pode ser aplicada com garantia de segurança.

Este problema é similar ao da Alemanha. No país europeu, o que aconteceu pode ter sido um mal-entendido – segundo o governo alemão, “é provável que o jornal que noticiou o fato de que a vacina era somente 8% eficaz em idosos tenha misturado os dados” e que de “cerca de 8% dos voluntários testados no estudo tinham entre 56 e 69 anos de idade”. “Não se pode deduzir de que a eficácia da vacina é de apenas 8% em pessoas mais velhas por conta disso”, disse o ministério em um comunicado. Mesmo assim, o governo alemão não está vacinando pessoas acima de 65 anos devido à falta de dados sobre a eficácia da vacina da AstraZeneca com a Universidade de Oxford em pessoas mais velhas.

O Brasil, bem como o Reino Unido e os Estados Unidos, segue o mesmo padrão: os mais velhos estão sendo vacinados primeiro e pode levar um bom tempo até toda a população ser vacinada. A estratégia levanta dúvidas. Mas, para a neurologista Mellanie Fontes-Dutra, optar por vacinar os mais jovens primeiros seria um erro. "Se vacinarmos jovens primeiro, vamos reduzir a transmissão do vírus, mas ainda vamos ter uma população de risco muito suscetível que, caso peguem a doença, correm mais riscos de desenvolver casos graves", afirma. "Se começássemos por pessoas que não são do grupo de risco, a gente ainda veria os hospitais cheios, porque até impactar na transmissão do vírus, seria preciso vacinar muita gente", diz.

Um estudo publicado recentemente corrobora com a afirmação de Fontes-Dutra. A pesquisa, feita pela Associação Americana para o Avanço da Ciência, apontou que vacinar pessoas acima de 60 anos é a forma mais eficaz de mitigar a mortalidade da covid-19 – o que deveria ser o foco no momento, segundo os especialistas. "Apesar de a vacinação de pessoas mais jovens ter a capacidade de reduzir a incidência da doença, vacinar adultos mais velhos vai reduzir as mortes de forma mais eficaz", diz a pesquisa. O impacto da cobertura vacinal foi feito com base em um modelo matemático, priorizando estratégias com base na incidência cumulativa da doença. Diversos cenários foram analisados.

Em um deles, a vacinação de adultos de 20 a 49 anos foi priorizada, o que diminuiu a incidência da doença consideravelmente. No entanto, em todas as simulações que priorizavam adultos acima de 60, a taxa de mortalidade passava por uma redução ainda maior. Isso, segundo os cientistas, indica que priorizar indivíduos mais velhos traz mais benefícios do que os jovens. A situação só muda, para os pesquisadores, se a vacina for menos eficaz em idosos.

A situação não muda nem em casos de pessoas que moram com idosos, como adolescentes e crianças que voltaram para as escolas ou adultos que voltaram a trabalhar presencialmente. "Se um adolescente mora com os avós, por exemplo, o certo é vacinar os avós e ele ficar quieto em casa", diz Fontes-Dutra. Para a médica, é essencial seguir as recomendações para evitar a doença, como o distanciamento social e o uso de máscaras.

Também é importante conscientizar os mais velhos de que não é porque eles receberam a primeira dose da vacina que estão totalmente imunes ao vírus – ainda não se sabe ao certo quão eficazes os imunizantes são na defesa contra as novas variantes, como a encontrada no Reino Unido e a da África do Sul. "Não é porque você foi vacinado que você tem carta branca para fazer tudo o que você quiser, você não vai estar 100% seguro até que uma boa parte da população esteja vacinada. O vírus vai continuar na população, com isso vamos ver variantes, que acumulam mutações e algumas delas, daqui a pouco, podem se tornar mais perigosas. Enquanto não houver imunidade de grupo, ninguém vai estar seguro."

O que é a imunidade de grupo (ou de rebanho)

A teoria da imunidade consiste no efeito de proteção que surge nas pessoas quando grande parte se vacinou contra uma doença — assim, mesmo quem não tomou a vacina fica protegido. Muitos acreditam que o indivíduo, ao contrair a SARS-CoV-2, se torna imune a ela. Assim, quanto mais gente for infectada, maior a chance de todos se tornarem imunes. É daí que vem o termo “imunidade de rebanho”. Com ela, todos estariam protegidos. No caso da covid-19, fica difícil imaginar que a situação possa ser resolvida dessa forma, já que ainda não existe uma vacina.

Nenhum estudo comprovou ainda se a imunidade após o contágio do novo coronavírus realmente acontece. Mesmo se acontecer, em outras variações do vírus (como a OC43 e a HKU1), as pessoas ficam imunes por um período determinado de tempo. A imunidade só dura até que surja uma nova cepa do vírus, uma vez que a mutação é inerente a ele. É o que nos faz pegar gripe mais de uma vez, por exemplo.

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