Futuro de computadores é como a mente de uma criança pequena

Os principais pesquisadores estão repensando a forma como as máquinas armazenam informação e recorrendo à neurociência, o que causa uma corrida entre empresas

As máquinas possuem todo o conhecimento humano, mas com o senso comum de um recém-nascido.

O problema é que os computadores não são capazes de agir nem como crianças pequenas.

Yann LeCun, diretor de pesquisa em inteligência artificial do Facebook, demonstra isso apoiando uma caneta na vertical, sobre a mesa, e depois segurando o telefone em frente a ela.

Ele faz um passe de mágica e quando levanta o telefone -- puf, a caneta desapareceu --. Eis um truque que provocará suspiros em qualquer criança de um ano, mas os softwares de inteligência artificial de ponta de hoje -- e a maioria dos bebês com apenas alguns meses de idade -- não são capazes de avaliar que a desaparição da caneta não é normal.

“Antes de eles completarem alguns meses de idade, você faz esse truque e eles não se importam”, diz LeCun, que tem 54 anos e três filhos.

“Após alguns meses, eles percebem que isso não é normal”.

Um motivo para amar os computadores é que, diferentemente de muitas crianças, eles fazem o que lhe mandam fazer.

Praticamente tudo o que os computadores são capazes de fazer foi ensinado por uma pessoa e em raras oportunidades eles puderam descobrir novas técnicas ou aprender por conta própria.

Em vez disso, os computadores confiam em cenários criados por programadores de software: se isso acontecer, faça aquilo.

A menos que seja dito explicitamente a ele que as canetas não devem desaparecer no ar, o computador simplesmente verá isso como algo natural.

A grande peça que falta na cruzada rumo às máquinas pensantes é dar aos computadores uma memória que funcione como a massa cinzenta nas nossas cabeças.

Uma IA com algo que lembre a memória do cérebro seria capaz de discernir os principais pontos daquilo que vê e usar a informação para moldar sua compreensão a respeito das coisas com o passar do tempo.

Para isso, os principais pesquisadores do mundo estão repensando a forma como as máquinas armazenam informação e recorrendo à neurociência em busca de inspiração.

Essa mudança na compreensão provocou uma corrida às armas dentro da IA entre empresas de tecnologia como Facebook, Google e a chinesa Baidu.

Elas estão investindo bilhões de dólares para criar máquinas que poderão um dia possuir senso comum e para ajudar a criar um software que responda mais naturalmente às perguntas dos usuários e exija menos instruções.

Uma cópia da memória biológica, segundo essa teoria, deveria permitir que a IA não apenas visualizasse padrões no mundo, mas raciocinasse a respeito deles com a lógica que nós associamos às crianças pequenas.

Estas empresas estão conseguindo isso unindo informações de softwares que imitam o cérebro, conhecidos como redes neurais, com a capacidade de armazenar sequências mais longas de informação, inspirada no componente de memória de longo prazo do nosso cérebro chamado hipocampo.

Essa combinação permite que uma compreensão implícita do mundo seja embebida nos padrões que os computadores detectam a cada momento, diz Jason Weston, pesquisador de IA no Facebook.

Nesta semana, o Facebook planeja publicar um trabalho de pesquisa detalhando um sistema que pode mastigar vários milhões de pedaços de informações, lembrar os pontos principais e responder a perguntas complicadas a respeito deles.

Um sistema desse tipo poderia permitir que uma pessoa algum dia peça que o Facebook encontre fotos dela usando uma roupa rosa na festa de aniversário de um amigo ou faça perguntas mais amplas e confusas, como, por exemplo, se ela parecia mais feliz que o normal no ano passado ou se parecia ter passado mais tempo entre amigos.

Investimentos se multiplicam

Embora a IA há muito seja uma área de interesse de Hollywood e dos romancistas, as empresas não prestavam muita atenção nela até cerca de cinco anos atrás.

Foi quando instituições de pesquisa e acadêmicos, auxiliados por novas técnicas de processamento de grandes quantidades de dados, começaram a quebrar recordes no reconhecimento de voz e na análise de imagens a uma taxa inesperada.

Os capitalistas de risco se deram conta e investiram US$ 309,2 milhões em startups de IA no ano passado, 20 vezes mais que em 2010, segundo a firma de pesquisa CB Insights. Algumas dessas startups estão ajudando a abrir novos caminhos.

Uma do Vale do Silício, chamada MetaMind, desenvolveu melhorias na compreensão dos computadores em relação ao discurso cotidiano.

A Clarifai, uma startup de IA de Nova York, está realizando uma complexa análise de vídeo e vendendo o serviço para empresas.

Apesar de o dinheiro para a tecnologia ter impulsionado a IA nos últimos anos, os computadores ainda são muito burros.

Ao conversar com amigos em um bar barulhento, você entende o que eles estão dizendo, com base no contexto e no que você lembra a respeito de seus interesses, mesmo que não possa escutar todas as palavras.

Os computadores não são capazes disso. “A memória é fundamental para a cognição”, diz Olshausen.

O cérebro humano não armazena um registro completo dos acontecimentos de cada dia; ele compila um resumo e traz os destaques à tona quando necessário, diz ele. Ou pelo menos é nisso que os cientistas acreditam.

O problema de tentar criar IA à nossa imagem e semelhança é que nós não compreendemos plenamente como nossas mentes funcionam.

“Sob a perspectiva da neurociência, o lugar onde estamos em termos de compreensão do nosso cérebro -- e em relação ao que é necessário para construir um sistema inteligente -- é uma espécie de era pré-Newton”, diz Olshausen.

“Se você está na Física na era pré-Newton, você não está nada perto de construir um foguete”.

Jetsons ou Exterminador

Se uma máquina capaz de conversar, aprender e pensar soa um pouco aterrorizante para você, você não é o único. “Com a inteligência artificial estamos evocando o demônio”, disse Elon Musk, no ano passado.

O CEO da Tesla Motors tem uma equipe trabalhando em IA para fazer com que seus carros elétricos trafeguem de forma autônoma. Musk também investe em uma startup de IA chamada Vicarious.

Após uma aparente autorreflexão, Musk doou US$ 10 milhões para o Future of Life Institute, uma organização criada pelo professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Max Tegmark, e por sua esposa, Meia, para incentivar as discussões a respeito das possibilidades e dos riscos associados à IA.

A organização reúne os principais acadêmicos, pesquisadores e especialistas em Economia, Direito, Ética e IA do mundo para discutir formas de desenvolver computadores pensantes para nos dar um futuro mais parecido ao desenho animado Os Jetsons e menos ao filme O Exterminador do Futuro.

“Muito pouca pesquisa séria foi dedicada a esses assuntos fora de alguns poucos pequenos institutos sem fins lucrativos. Felizmente, isso agora está mudando”, disse Stephen Hawking, que faz parte do conselho consultivo do instituto, em um evento do Google, em maio.

“A saudável cultura da avaliação de risco e a percepção das implicações sociais está começando a criar raízes na comunidade da IA”.

Para ilustrar como as pessoas utilizam a memória para reagir a um acontecimento, LeCun pega sua caneta mágica do início da reportagem e a joga para um colega. Uma máquina sem uma memória ou uma compreensão do tempo não sabe como prever onde um objeto cairá ou como responder a isso.

As pessoas, por outro lado, usam a memória e o senso comum para, quase instintivamente, pegar ou abrir caminho para o que está vindo em direção a elas.

Weston, o pesquisador de IA do Facebook, vê a caneta fazer um arco no ar e atingi-lo no braço. “Ele é horrível para pegar as coisas”, diz LeCun, rindo, “mas ele é capaz de prever!”. Weston o tranquiliza: “Eu sabia que ela ia me acertar”.

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