Desafios da vacina: dar a 1ª dose para o maior número de pessoas ou organizar aplicação da 2ª?

Com muitas pessoas e poucas doses, oficiais de saúde nos países que já começaram a vacinar decidem táticas para imunizar população
Vacinas: países debatem se é melhor imunizar o maior número de pessoas ou seguir o calendário das doses (AFP/AFP)
Vacinas: países debatem se é melhor imunizar o maior número de pessoas ou seguir o calendário das doses (AFP/AFP)
Por Thiago LavadoPublicado em 04/01/2021 12:39 | Última atualização em 04/01/2021 12:39Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Com a vacina começando a ser aplicada em muitos países, surgem dúvidas sobre quais estratégias adotar para imunizar a população. As táticas debatidas por médicos e cientistas são pertinentes diante do fato de que as vacinas aprovadas até agora nos principais países do mundo dependem de duas doses.

Em países muito populosos, como os Estados Unidos, onde até agora foram aprovadas as vacinas das farmacêuticas Pfizer e Moderna, o problema é ainda mais central. Com uma população de cerca de 330 milhões de pessoas, seriam necessárias pelo menos 660 milhões de doses para uma vacinação completa.

Como há relativamente poucas doses disponíveis atualmente, a vacinação enfrenta gargalos. De acordo com o The New York Times, há reclamação em diferentes partes dos EUA sobre a lentidão na aplicação das vacinas: amostras acabando ainda amanhã em algumas cidades, linhas telefônicas lotadas e prefeitos queixando-se da demora enquanto veem leitos lotados com pacientes de covid-19.

Com a pandemia a todo vapor no país e no Reino Unido, onde uma nova variante do coronavírus tem causado preocupação, a discussão principal é se vale a pena aplicar a primeira dose e atrasar a segunda, que deveria ser semanas depois da primeira.

Essa tática foi defendida por médicos no Reino Unido e também nos EUA. Dois médicos assinaram um artigo de opinião no jornal The Washington Post afirmando que é melhor dar a primeira dose agora, deixando a segunda somente para quando houver maior disponibilidade de imunizantes.

“Como Mike Tyson disse, ‘todo mundo tem um plano até levar um soco na boca’. Quando se trata da covid-19 nós tomamos soco atrás de soco na boca. É hora de mudar o plano; leia-se, nós devemos dar às pessoas uma dose da vacinação agora e adiar a segunda até que mais doses estejam disponíveis”, afirmaram Robert M. Wachter, diretor do departamento de medicina na Universidade da Califórnia em São Francisco, e Ashish K. Jha, reitor da escola de Saúde Pública na Universidade Brown.

Duas doses das vacinas aprovadas até o momento são importantes para garantir a imunização total. A primeira injeção ensina o sistema imune a reconhecer um patógeno novo, apresentando algumas características do vírus. Depois que o corpo já teve tempo de assimilar essas informações, a segunda dose vem para garantir um “reforço no ensino”, ajudando o sistema imune a memorizar uma reação.

No caso da vacina da Pfizer, por exemplo, especialistas acreditam que a imunidade ao vírus aparece somente entre oito e dez dias após a primeira dose — com cerca de 50% de eficácia. A segunda dose, então, é essencial para garantir uma taxa de imunidade mais alta, e é administrada depois de 21 dias da primeira.

Nesse sentido, uma só dose pode garantir menor chance de contrair o vírus, ou mesmo preparar o corpo para lutar melhor contra um caso grave da doença, mas ainda exige que medidas como distanciamento e uso de máscaras sejam adotadas, para evitar riscos.

Oficiais americanos, no entanto, não planejam mudar os planos. “Eu não seria a favor disso”, disse Anthony Fauci, o principal especialsita em doenças infecciosas nos EUA, em entrevista à rede de TV CNN. “Vamos continuar fazer o que estamos fazendo”.

Enquanto isso, no Reino Unido médicos têm atrasado a aplicação da segunda dose para garantir a primeira a um número maior de pessoas. Durante o primeiro final de semana do ano, houve até uma contradição entre oficiais, que inicialmente afirmaram que estudavam dar doses de diferentes vacinas para um mesmo paciente. O caso foi abordado depois pela chefe de imunizações da Public Health England (PHE), Mary Ramsay, que afirmou que misturar diferentes vacinas contra a covid-19 não é recomendável, e que a primeira opção deve ser sempre a de ministrar doses da mesma vacina para um mesmo paciente. 

Apesar disso, há um problema maior, segundo especialistas: ter maior número de doses para um maior número de pessoas não soluciona o problema de distribuição e de conseguir aplicar injeções em um número maior de pessoas. “Dobrar o número de doses não dobra sua capacidade de ministrar doses”, disse Saad Omer, um expert em vacinas ao The New York Times.

Embora tenhamos desenvolvido a vacina em tempo recorde, esse tipo de desafio deve continuar no decorrer dos primeiros meses de 2021, enquanto ainda luta-se contra a pandemia de covid-19.