Jane Austen: as descrições deixadas pela escritora sobre febres, dores e mudanças na pele ainda são a principal base para tentar identificar sua doença. (Public Domain/Wikimedia Commons)
Repórter
Publicado em 14 de agosto de 2026 às 11h36.
Última atualização em 14 de agosto de 2026 às 11h41.
Mais de dois séculos após a morte de Jane Austen, aos 41 anos, pesquisadores ainda não sabem qual doença provocou o declínio de saúde da autora de “Orgulho e Preconceito”. Hipóteses formuladas ao longo das últimas décadas incluem doença de Addison, câncer, tuberculose, linfoma e, mais recentemente, lúpus. Nenhuma delas, porém, pôde ser comprovada.
A discussão ganha espaço no ano que marca os 250 anos do nascimento da escritora, em 16 de dezembro de 1775. Sem prontuários médicos conhecidos ou uma causa oficial de morte, pesquisadores recorrem principalmente às cartas de Jane Austen para reconstruir os sintomas apresentados antes de sua morte, em 18 de julho de 1817.
A autora passou suas últimas oito semanas no número 8 da College Street, em Winchester, na Inglaterra, onde buscava tratamento. Sua correspondência registra episódios de fadiga, febre, dores nas costas e nos joelhos e alterações na pele do rosto. Os sintomas apresentavam períodos de melhora antes de retornarem.
Uma das hipóteses mais recentes aponta que Austen poderia ter sofrido de lúpus eritematoso sistêmico (LES), doença autoimune que pode afetar articulações, pele e diferentes órgãos. A possibilidade foi apresentada pelos médicos Michael D. Sanders e Elizabeth Graham em um estudo publicado na revista científica Lupus, em 2021.
Os pesquisadores analisaram as cartas da escritora e identificaram uma combinação de dores articulares, febres, alterações na pele e períodos de remissão. Segundo eles, esse conjunto de sintomas não se encaixaria integralmente em algumas das explicações propostas anteriormente.
A tentativa de identificar a doença de Austen ganhou força, em 1964, quando Zachary Cope propôs que a escritora poderia ter morrido em decorrência da doença de Addison, condição na qual as glândulas suprarrenais não produzem determinados hormônios em quantidade suficiente.
Outras hipóteses incluíram câncer de estômago, tuberculose e linfoma de Hodgkin. Sanders e Graham, no entanto, apontaram diferenças entre os sintomas registrados nas cartas e os sinais normalmente associados a essas doenças.
No caso da doença de Addison, por exemplo, a alteração na pigmentação tende a ser persistente e atingir diferentes regiões do corpo. Austen descreveu mudanças temporárias na coloração do rosto. Já a ausência de registros de problemas pulmonares e de linfonodos aumentados também foi considerada na análise das hipóteses de tuberculose e linfoma.
A falta de registros médicos e de evidências biológicas capazes de confirmar um diagnóstico faz com que a causa da morte de Austen permaneça indeterminada.A saúde de Austen piorou entre junho e julho de 1817. Ela passou a apresentar pulso fraco e dormia durante períodos maiores. Em 17 de julho, sofreu uma convulsão e perdeu a consciência. Morreu enquanto dormia, às 4h30 do dia seguinte, na companhia da irmã, Cassandra Austen.
A possibilidade de utilizar amostras de cabelo preservadas pela Jane Austen’s House também foi considerada. Testes realizados anteriormente, contudo, identificaram contaminação em duas das três amostras mantidas pelo museu. A terceira apresentou níveis considerados normais para a maior parte dos elementos analisados.
A ausência de material adequado limita a possibilidade de aplicar métodos semelhantes aos utilizados em estudos recentes sobre Ludwig van Beethoven. Análises genéticas de cabelos atribuídos ao compositor identificaram fatores de risco para doenças hepáticas e evidências de infecção por hepatite B, enquanto outra pesquisa encontrou níveis elevados de chumbo, arsênio e mercúrio.
As discussões sobre a saúde da escritora também abriram uma frente de pesquisa sobre seus últimos trabalhos. Doenças e lesões aparecem em “Persuasão”, enquanto “Sanditon”, romance que permaneceu inacabado, aborda um balneário procurado por pessoas em busca de tratamentos.
Austen começou a escrever “Sanditon”, em janeiro de 1817, durante um período de melhora de sua saúde, mas interrompeu o trabalho, em março daquele ano. Ela morreu quatro meses depois.
Para pesquisadores, as cartas continuam sendo a principal fonte disponível para reconstruir o último ano de vida da escritora. Sem registros clínicos ou evidências físicas capazes de confirmar uma das hipóteses, o diagnóstico permanece em aberto.