Como um geninho das pesquisas previu a vitória de Obama

Mesmo quando se dizia que Romney estava na frente, Nate Silver insistia que as chances de Obama eram muito maiores. Ele acertou o resultado em 100% dos estados

São Paulo — O guru das pesquisas eleitorais Nate Silver deve ter comemorado com emoção a reeleição de Barack Obama nesta última terça-feira. Silver previu corretamente quem ganharia em cada um dos 50 estados americanos e no distrito de Colúmbia, onde fica a capital. Mesmo quando muita gente dizia que Romney estava na frente, ele sempre avaliou as chances de Obama em mais de 60%. Perto das eleições, sua estimativa matemática ficava por volta de 80%.

Silver, que tem 34 anos e é formado em economia, é o mais famoso representante da atual geração de matemáticos que se dedicam à psefologia, a análise estatística de eleições. Ele não foi o único a antecipar os resultados. Drew Linzer, da universidade Emory, em Atlanta, e Sam Wang, da universidade Princeton, por exemplo, também vinham prevendo a vitória de Obama havia meses.

Mas esses estudiosos de universidades são relativamente pouco conhecidos e suas previsões têm pouca influência fora do ambiente acadêmico. Silver é diferente. Seu blog FiveThirtyEight (538 é o total de votos no colégio eleitoral) é publicado pelo New York Times e é lido por milhões de pessoas.

Uma reportagem de The New Republic chama Silver de “máquina de gerar tráfego” na internet. Nesta semana, o blog atraiu 20% das visitas ao site do jornal nova-iorquino. De acordo com o serviço online Alexa, “538” foi o termo de pesquisa que mais levou gente ao site do New York Times nos últimos dias. O New Republic cita Margaret Sullivan, editora do jornal, dizendo que Silver é, provavelmente, o autor em maior evidência na publicação no momento.

Silver vem comprando brigas com institutos de pesquisa como o Gallup, que manteve, até o último minuto, a afirmação de que Romney ganharia. Sua previsão da vitória de Obama irritou os republicanos. Ele sempre argumentou que seu trabalho é pura matemática. Mas os adeptos de Romney viam militância em seus números.

O que ocorre é que, para prever o vencedor de uma eleição presidencial americana, não basta ir às ruas e perguntar aos eleitores. Como a eleição é indireta, um candidato pode até ter a preferência da maioria das pessoas e, ainda assim, perder no colégio eleitoral (algo que não aconteceu com Obama, que deve ganhar também no voto popular).


Para antecipar o resultado, é preciso avaliar a tendência do eleitorado em cada estado, com especial foco em menos de uma dezena de estados-chave que oscilam entre os dois partidos, os chamados “swing states”. São eles, na prática, que decidem a eleição.

A isso, junta-se o fato de que qualquer pesquisa de opinião pode ser influenciada pela escolha da amostra e pelo método empregado na captação dos dados. Uma sondagem feita por telefone tende a levar a resultados diferentes de outra feita via internet ou por meio de entrevistas pessoais. A principal razão para isso, é claro, é que os entrevistados não serão exatamente os mesmos nos três casos.

Para reduzir a influência da amostra e do método de captação, Silver e sua turma agregam resultados de centenas dessas sondagens, que são divulgadas diariamente quando uma eleição se aproxima. Há tanto pesquisas estaduais como nacionais. Há sondagens feitas por jornais, sites da web e programas de TV, e também outras mais bizarras (as lojas 7-Eleven, por exemplo, oferecem copos com os nomes dos candidatos e, depois, contam quantos de cada tipo foram usados pelos clientes).

A ideia é que, se uma pesquisa pende para um lado, quando ela é agregada a outras, esse desvio é compensado por aquelas que pendem para o lado oposto. Logo, quanto mais pesquisas são agregadas, mais confiáveis são os resultados. Naturalmente, como essas sondagens tem escopos e métodos diferentes, é preciso cruzar cada uma delas com dados demográficos específicos, o que torna as contas complicadas. Os dados são volumosos e exigem bastante processamento em computadores.

Mesmo que, em determinados momentos, a maioria das pesquisas indicassem Romney como ganhador, o resultado agregado de toda elas ainda apontava uma vitória de Obama. O presidente americano estava na frente nas sondagens que, pela abrangência demográfica e pelo foco, eram mais significativas. 

A vitória de Silver e seus colegas praticamente validou o método da agregação de pesquisas, que deve ser mais usado de agora em diante. Em 2008, Silver havia acertado os resultados em 49 dos 50 estados. Talvez ele tenha aperfeiçoado suas ferramentas nesses quatro anos. Ou talvez tenha tido mais sorte nesta vez. Mas não importa. O acerto de 100% calou os críticos e transformou Silver na única celebridade da psefologia de que se tem notícia.

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