Ciência

Cientistas descobrem por que gripe aviária H5N1 se espalhou em vacas

Achado ajuda a explicar o surto que surpreendeu veterinários e pode antecipar futuras adaptações do vírus

Vacas leiteiras: comportamento incomum do H5N1 foi esclarecido por análise molecular (	Jpr03/Getty Images)

Vacas leiteiras: comportamento incomum do H5N1 foi esclarecido por análise molecular ( Jpr03/Getty Images)

Publicado em 5 de julho de 2026 às 06h46.

Tudo sobreGripe aviária
Saiba mais

A gripe aviária H5N1 surpreendeu cientistas ao adotar um comportamento incomum durante o surto registrado em vacas leiteiras nos Estados Unidos. Diferentemente do que costuma ocorrer em aves e outros mamíferos, a infecção não se concentrava nos pulmões, mas nas glândulas mamárias das vacas.

Pesquisadores da Universidade de Pittsburgh afirmam ter encontrado a explicação biológica para esse fenômeno. O estudo, publicado na revista Science Advances, identificou características específicas do tecido mamário bovino que ajudam a explicar por que o vírus encontrou nesse local um ambiente favorável para se multiplicar.

A descoberta pode ajudar cientistas a entender melhor como o H5N1 se adapta a diferentes espécies e a prever futuros surtos da doença.

O surto que surpreendeu veterinários

Os primeiros casos foram registrados em vacas leiteiras no Texas. Os animais apresentavam mastite necrosante, uma inflamação grave das glândulas mamárias que afeta a produção de leite e pode causar danos permanentes ao tecido.

Inicialmente, veterinários investigaram causas mais comuns, como infecções bacterianas. A identificação do vírus H5N1 como responsável pelo surto surpreendeu os especialistas, já que o gado não era considerado um hospedeiro relevante para a gripe aviária.

Segundo os pesquisadores, a demora para reconhecer o vírus contribuiu para sua disseminação entre diferentes rebanhos.

Por que o H5N1 não atacou os pulmões?

Para entender o comportamento incomum do vírus, a equipe analisou os chamados glicanos, moléculas presentes na superfície das células que funcionam como pontos de ligação para os vírus influenza.

Os cientistas descobriram que o H5N1 depende de um subtipo específico de receptor, conhecido como receptor de ácido siálico ligado a N, para conseguir invadir as células. A análise mostrou que esses receptores estão amplamente distribuídos nas glândulas mamárias das vacas, mas aparecem em quantidade muito menor nos tecidos das vias respiratórias.

Na prática, isso significa que o tecido mamário oferece condições muito mais favoráveis para a infecção e multiplicação do vírus do que os pulmões. Segundo os autores, essa característica explica por que as vacas desenvolveram mastite severa enquanto apresentavam poucos sinais respiratórios.

Leite contaminado pode concentrar grandes quantidades do vírus

Os pesquisadores também destacam que vacas infectadas liberam grandes quantidades do vírus no leite. Esse cenário gerou preocupações sobre a exposição ocupacional de trabalhadores rurais e sobre o consumo de leite cru por pessoas e animais.

O estudo reforça, porém, que a pasteurização continua sendo eficaz para eliminar o H5N1 e reduzir os riscos de transmissão.

Casos anteriores analisados pela equipe já haviam mostrado que gatos alimentados com leite cru proveniente de animais infectados desenvolveram a doença.

Descoberta pode ajudar a prever futuros surtos

Além de explicar o comportamento observado nos rebanhos leiteiros, os pesquisadores acreditam que a nova abordagem pode ajudar a antecipar como o vírus poderá agir em outras espécies.

Ao mapear a distribuição dos receptores utilizados pelo H5N1 em diferentes tecidos e animais, cientistas poderão identificar previamente quais órgãos são mais vulneráveis à infecção. Isso permitiria prever se futuras infecções tendem a provocar sintomas respiratórios, neurológicos ou outros quadros clínicos específicos.

Segundo os autores, compreender como o vírus interage com diferentes receptores celulares é fundamental para melhorar a vigilância epidemiológica e reduzir o risco de novas surpresas.

A pesquisa mostra que a adaptação do H5N1 a mamíferos pode ocorrer de formas inesperadas e reforça a importância de monitorar não apenas aves, mas também outras espécies potencialmente suscetíveis.

Acompanhe tudo sobre:Pesquisas científicasGripe aviária

Mais de Ciência

Navio pirata em Santos? Entenda a origem da embarcação que encalhou há 130 anos

Por que a maioria das pessoas é destra? Animal do tamanho de um polegar pode explicar

Por que nossos dedos têm tamanhos diferentes? A resposta está na evolução

Odisseu existiu? Descoberta em Ítaca reacende mistério por trás da 'Odisseia'