Casamento entre ciência e setor privado no Brasil é impossível, diz economista

Para o economista Paulo Feldmann, proibição de parcerias entre universidades públicas e o setor privado prejudica a ciência e a economia

Quem veio primeiro: a falta de investimento em ciência e tecnologia por parte do governo e do setor privado ou a baixa inovação encontrada nas companhias brasileiras? Como o paradoxo do ovo e da galinha, ninguém sabe a resposta exata – o que se sabe, com certeza, é que nos últimos anos o Brasil vem investindo cada vez menos no desenvolvimento científico e que os frutos disso (mais do que para a pesquisas) também são econômicos.

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Em 2017, o Brasil destinava apenas 0,8% do produto interno bruto (PIB) — na época na casa dos 2 trilhões de dólares — para pesquisa e desenvolvimento. Nos Estados Unidos, um dos países que lideram o ranking mundial, o investimento representou 2,8% dos 19,4 trilhões de dólares do PIB no mesmo ano.

"O Brasil teve vários problemas fiscais de 2016 para cá e entramos em uma recessão – e a ciência foi a área que os governos decidiram cortar, o que é um erro grave, porque, na hora da crise, é onde mais se precisa de verba", explica o economista Paulo Feldmann, professor associado na Faculdade de Economia e Administração da USP e pesquisador na Universidade Fudan, na China, em entrevista à EXAME.

Mesmo num ano de pandemia, dados do MCTI mostram que em 2020 foi investido 1,4 bilhão de reais na subárea de desenvolvimento científico (que engloba auxílio estudantil e apoio financeiro a pesquisadores, por meio da Capes e do CNPq, programas que tiveram cortes nos últimos anos). O número representa apenas 16% dos 8,6 bilhões de reais investidos pelo ministério em 2014.

Desenvolver uma vacina brasileira nesse cenário não é fácil, mas isso não significa que os cientistas não estão tentando. Na pior das hipóteses, segundo os pesquisadores ouvidos pela EXAME para a edição deste mês da revista, fica a tecnologia para futuras pandemias – e a certeza de que a ciência precisa ser mais valorizada.  

Por que vemos tão pouco investimento em ciência no Brasil? 

Temos várias explicações para a falta de investimento na ciência. Primeiro, ele nunca foi muito grande, mas, há dez anos atrás, ele chegou a ser de 1,3% do PIB brasileiro, algo mais ou menos alto quando a gente compara com os nossos vizinhos da América Latina.

Mas, o grande problema do Brasil, é que em outros países onde o investimento é muito maior, como na Alemanha, China e Estados Unidos. Por lá, o investimento é feito sobretudo pelas empresas privadas, aqui temos um problema sério nessa questão porque o investimento em ciência e tecnologia no Brasil fica centralizado somente no governo, então as empresas não contribuem para isso.

Quando você compara os números do Brasil com o de outros países, você vê que só no Brasil e na Índia o governo tem uma grande participação nos investimentos em ciência. Isso deveria mudar. Essa parcela do governo vem caindo anualmente – e bastante. Esses são os dois maiores problemas: primeiro, só o governo investe e, segundo, o país está diminuindo os valores. Isso é muito ruim, mas acontece justamente porque o governo não dá prioridade para essa área.

O Brasil teve vários problemas fiscais de 2016 para cá e entramos em uma recessão – e a ciência foi a área que os governos decidiram cortar, o que é um erro grave, porque, na hora da crise, é onde mais se precisa de verba.

Em relação ao investimento privado, por que ele não acontece?

Quando vemos quem são as empresas que investem em ciência em outros países, sabemos que são empresas muito grandes,. Você tem o Google, a Boeing, a Pfizer... as gigantes que investem em ciência. Empresas pequenas não costumam fazer esse tipo de investimento.

Aí temos mais um empecilho. Quais são as grandes empresas brasileiras? Temos a Natura, a Vale, a Petrobras, a Braskem… mas é um número baixo. Elas até investem em ciência, embora não muito. Resumindo, o problema é que o Brasil não tem empresas com porte mundial. Para a empresa participar da arena global, ela tem que ser muito inovadora, então ela precisa investir muito em tecnologia e ciência.

As empresas que não participam do cenário mundial, que são a grande maioria das empresas brasileiras, não fazem esse tipo de investimento porque a competição não é tão violenta. As companhias não precisam ser tão inovadoras porque não competem com gigantes internacionais.

E por que participamos tão pouco do cenário mundial?

Temos uma participação tão ínfima justamente porque não temos as empresas de dimensão mundial. Por exemplo, quem investe são as grandes empresas privadas, mas principalmente industriais, como montadoras de automóveis. Nós não temos nenhuma empresa brasileira fabricante de automóveis. Outras grandes investidoras são as farmacêuticas – e não temos companhias de relevância mundial nessa área. Em tecnologia, a mesma coisa. 

Isso é um problema. Temos uma grande empresa brasileira no setor da mineração, que é a Vale, ou até a Petrobras, no petróleo (que, por acaso, é a que mais investe em tecnologia), mas o setor da Vale é um que investe pouco em tecnologia.

O Brasil precisa ter empresas para a indústria de manufatura, mas, infelizmente, não temos – tínhamos há 30 anos, mas passamos por um processo de desindustrialização muito grande.

No final dos anos 80, você pegava o PIB brasileiro e quase ⅓ vinha da indústria de manufatura. Éramos uma potência industrial no final dos anos 80. Hoje, esse número de 32% caiu para 9%, e em 2020 tende a ser menor ainda. A indústria morreu. O Brasil matou a sua indústria e foi um dos países que mais sofreu pela desindustrialização no mundo.

É por isso tudo que não investimos em ciência e tecnologia. A China é um país que fez um modelo de desenvolvimento nos últimos 30 anos todo centrado na indústria, eles cresceram muito nessa área e são um dos países que mais investem em tecnologia e ciência – e, novamente, eles têm grandes empresas.

Quem não dá bola para a indústria, que é o nosso caso, acaba não tendo ciência e tecnologia também. É claro que o governo também tem a sua culpa, mas já era hora, em 2021, de o Brasil ter um comportamento como o dos outros países – onde quem investe é a empresa privada.

Tem coisas muito importantes que são muito ruins no Brasil. Tem aí uma questão do ovo e da galinha. Por que nenhuma empresa investe em tecnologia no Brasil? Porque elas não são grandes. E por que elas não são grandes? Porque não investiram em inovação. E por que nunca investiram em inovação? Porque não existe incentivo fiscal para isso. 

Falta um estímulo melhor para as empresas investirem em pesquisa. E é por isso que as empresas investem, porque sabem que vão abater seus gastos no ano seguinte. O Brasil é muito cruel com as empresas que investem em pesquisa. Para virar uma empresa grande, é preciso investir em pesquisa – e é aí que o governo brasileiro falha muito.

E quais são os impactos disso para o país?

O Brasil acaba sofrendo muito porque você acaba não tendo pesquisa em quase nenhuma área. O que acaba acontecendo é que, na medida que o governo corta, as universidades – principais centros de conhecimento – são profundamente afetadas, porque quem mais produz em ciência e tecnologia no Brasil são as universidades públicas, como a USP, que sofreu muito com os cortes.

Vários alunos meus que estavam fazendo pesquisas importantes financiados pela Fapesp, pela Capes ou pelo CNPQ tiveram seus financiamentos cortados, então tiveram de dar um jeito na vida. A bolsa ajudava o pesquisador a sobreviver. Com o fim delas, o pesquisador teve de arrumar outro emprego.

A minha área, da economia, não é tão importante para pesquisas, mas tinham estudos que foram simplesmente eliminados com o fim dos financiamentos e das bolsas governamentais. Isso aconteceu em todas as universidades, então alguns setores que faziam muita pesquisa para a indústria – como as escolas de engenharia – foram muito prejudicadas, e isso acaba repercutindo no país como um todo.

Sem pesquisa, o país passa a ser menos inovador, uma vez que o grande objetivo dos estudos é descobrir coisas novas para oferecer mais proatividade. Por isso que o Brasil tem uma produtividade tão baixa: porque não inova. Estamos nessa situação horrível.

Vemos em outros países uma união entre uma universidade e uma companhia privada – como o caso da Universidade de Oxford e da AstraZeneca. Por que esse tipo de situação não acontece por aqui?

Todas as universidades dos EUA, por exemplo, têm relações íntimas com as empresas americanas porque recebem dinheiro para fazer pesquisa. No Brasil, isso é proibido – uma coisa que tem que acabar. As universidades públicas brasileiras não podem receber investimento do setor privado.

São regras que foram criadas há 80 anos quando o mundo era completamente diferente. Naquela época, achavam que se uma empresa privada colocasse dinheiro na universidade, elas iam direcionar as pesquisas, mas hoje isso não é mais verdade. No mundo inteiro existe uma relação íntima entre universidades e empresas privadas – que é fundamental.

"A indústria morreu. O Brasil matou a sua indústria e foi um dos países que mais sofreu no mundo."

Todo mundo conhece o iPod da Apple, que é uma empresa privada americana. Pois bem, o iPod foi feito dentro de uma universidade americana, com uma pesquisa universitária apoiada pela Apple. As empresas americanas fizeram suas inovações com o apoio do governo americano e com o investimento em universidades.

Não existe relação entre empresa privada e universidade no Brasil. É pífio. Oxford com AstraZeneca: um casamento impossível no Brasil. 

E em relação ao apoio da indústria farmacêutica no desenvolvimento de uma vacina brasileira contra a covid-19?

No Brasil, nós também não temos uma indústria farmacêutica importante, não temos um laboratório mundial, como a Índia tem o Serum – o laboratório está produzindo a vacina de Oxford para nós. O Serum é um grande laboratório indiano justamente que cresceu com muito apoio governamental, mas o Brasil nunca teve isso.

Nunca o governo brasileiro resolveu apoiar um grande laboratório brasileiro para transformá-lo em uma grande empresa mundial. Infelizmente, tem muita coisa errada em nosso país. A universidade brasileira investe muito em pesquisa apesar dos poucos recursos que elas têm.

E em relação a tecnologia? Existe também uma falta de investimento?

O problema todo é o seguinte: o Brasil é muito ruim de tecnologia. Não temos o que as pessoas precisam, e a tecnologia explica como as coisas precisam ser feitas. Mas ciência é uma outra coisa. Em ciência, o Brasil é bom.

A produção de ciência no mundo é medida, porque toda vez que alguém produz algo científico, consegue publicar em revistas científicas internacionais, que são um termômetro muito bom de quanto é produzido por país. O Brasil é o 10º país que mais produz no mundo – essa ciência basicamente produzida dentro da universidade.

Metade dessa produção científica brasileira está em duas áreas apenas: agricultura e medicina. Ciência a gente produz, o grande problema é fazer com que ela chegue dentro das empresas como uma tecnologia de ponta – aqui, isso não acontece. 

A tecnologia pode ser medida pelo número de inovações no país e isso também pode ser medido. Na última relação, estávamos no 62º lugar. Mesmo na América Latina, estamos em quarto lugar. Somos muito ruins em termos de inovação e tecnologia.

É um paradoxo brasileiro. Somos bons em ciência, e ruins em tecnologia. E somos ruins exatamente porque não temos grandes empresas. E por que somos bons em ciência? Porque temos boas universidades. As universidades públicas brasileiras são muito boas para gerar ciência, vide a nossa agricultura brasileira, que é um caso de sucesso.

Somos pouco produtivos, com exceção da agricultura, que é produtiva graças à pesquisa científica. E, novamente, quem deveria estar investindo em tecnologia são as empresas privadas. 

O senhor acredita que uma vacina brasileira contra o coronavírus se tornará uma realidade em breve?

Algumas pesquisas estão acontecendo no Brasil. Uma delas está sendo feita pela Universidade Federal do Paraná, a outra é a de spray nasal, da equipe do infectologista Jorge Elias Kalil Filho.

É interessante esse negócio da vacina porque, apesar de não termos produzido nenhuma ainda, em termos de publicação científica sobre a covid-19, o Brasil é o 11º país que mais publica no mundo. E esses artigos que os cientistas publicaram, muitas coisas são sobre vacinas. O problema é que não temos uma empresa competente no Brasil.

A Oxford tinha a AstraZeneca para fazer a produção. Conceber a vacina e produzi-la são duas coisas diferentes, você tem que ter uma empresa competente na fabricação também. Em alguns setores, somos pavorosos. Não sei como os caras do Paraná ou o Kalil vão fazer para produzir a vacina deles, mas, certamente, isso será um problema.

É a velha história de não sermos bons em produção. Quem concebeu a vacina da Pfizer foi uma cientista, por sinal húngara, que está cotada para ganhar o prêmio Nobel de química. Ela quem concebeu esse modelo baseado no mRNA, que é um conceito de vacina completamente diferente, e ela é uma pessoa da universidade. Agora, como isso chegou nas empresas, eu não sei direito os detalhes, mas teve uma relação entre universidade e empresa. A BioNTech não tinha capacidade de produção, então a Pfizer comprou, e a companhia passou a ter. Quando isso vai acontecer por aqui?

E em termos de custo: uma vacina produzida no Brasil será mais barata do que uma vacina internacional?

O problema do Brasil é a grande escala de produção. Seja qual for a vacina que sair, se ela for usada no Brasil, ou em uma parte pequena do país, ela vai ser muito cara, pode ser até mais cara que a da Pfizer [o custo, por dose, é de 39 dólares]. Quando você tem uma grande escala de produção, como a gigante americana, você consegue amortizar certos custos.

Existe em economia o termo de "economia de escala". Para ele acontecer, você tem que ser muito grande, produzir muito, porque, assim, você pega o gasto e incide em uma produção maior, o que faz com o que peso no gasto para cada unidade seja reduzido consideravelmente.

Se você não tem uma grande escala de produção, você vai ter um problema, porque você vai ter que jogar o custo da sua pesquisa em uma quantidade pequena.

Eu não quero chutar. Mas o que eu quero dizer é que não é porque a vacina vai ser feita no Brasil, que ela vai ser mais barata – ela ser local não garante nada. Nem sempre é uma vantagem ter algo fabricado no Brasil.

A vacina da Pfizer está vendendo bilhões, então ela tem uma escala monstruosa, que consegue jogar o custo fixo que elas tiveram em bilhões de unidades. 

Por todos os problemas que conversamos, o senhor acredita que uma vacina brasileira vai chegar a tempo?

Eu acho que as vacinas brasileiras vão chegar tarde no mercado. Quando elas chegarem, vai estar tudo definido e, se tiver mercado para elas, vai ser só no Brasil.

Porque temos um problema: o Kalil sozinho e a UFPR sozinha não vão conseguir.

Deveria ter uma empresa por trás disso, e voltamos para o problema anterior. É um entrave muito sério esse. Muita coisa no Brasil foi travada por conta dessa proibição da união entre a universidade pública e as empresas, sejam elas brasileiras ou multinacionais. 

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