Geração Z está mais exposta a fatores de risco para o câncer, mostra pesquisa (Ilustração feita por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 14 de setembro de 2026 às 10h35.
Última atualização em 14 de setembro de 2026 às 10h39.
RESUMO | Os brasileiros de 16 a 24 anos são os maiores consumidores de ultraprocessados, bebidas açucaradas, frituras e doces do país, segundo pesquisa inédita do A.C.Camargo Cancer Center e da Nexus. Apesar disso, 68% da Geração Z avaliam a própria saúde como ótima ou boa. O levantamento não estabelece relação causal entre esses hábitos e futuros casos de câncer.
Os brasileiros de 16 a 24 anos são os que mais consomem ultraprocessados, bebidas açucaradas, frituras e doces no país, segundo dados inéditos de uma pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center e da Nexus.
O levantamento mostra que a mesma faixa etária, correspondente à Geração Z, também registra a maior proporção de pessoas que classificam a própria saúde como ótima ou boa.
Entre os entrevistados nessa faixa etária, 52% afirmam consumir alimentos como salsicha, linguiça, presunto, macarrão instantâneo ou salgadinho em três ou mais dias por semana. Na amostra total, a proporção é de 33%. O consumo diário de ultraprocessados chega a 17% entre os jovens, quase um em cada seis, ante 4% entre pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a um em cada 25.
A diferença também aparece nas bebidas açucaradas: 52% dos entrevistados de 16 a 24 anos consomem esses produtos em três ou mais dias da semana, ante 37% no conjunto dos participantes. No caso das frituras, a proporção é de 42% entre os jovens e de 31% na amostra total. Para os doces, os índices são de 39% e 31%, respectivamente.
Os dados ganham relevância no contexto das pesquisas sobre a incidência de câncer em adultos com menos de 50 anos. A literatura científica investiga a relação entre o aumento de diagnósticos nessa população e a exposição a fatores de risco desde as primeiras décadas de vida. A pesquisa A.C.Camargo/Nexus, porém, não estima quantos participantes desenvolverão câncer no futuro nem estabelece uma relação de causa e efeito entre os hábitos registrados e novos casos da doença.
Segundo o Dr. Felipe Coimbra, o risco oncológico está relacionado ao tempo de exposição, à dose e à intensidade do contato com agentes carcinogênicos. Na avaliação do médico, uma pessoa exposta a esses agentes desde a adolescência pode acumular esse contato durante décadas, o que orienta a leitura clínica dos resultados por faixa etária.
Entre os produtos analisados, a carne processada possui uma classificação específica da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, a IARC, na sigla em inglês, órgão ligado à Organização Mundial da Saúde. Ela integra o grupo 1 de agentes carcinogênicos, categoria usada quando há evidência suficiente de que o agente pode causar câncer em humanos. A classificação indica a força da evidência científica sobre a capacidade de causar câncer, e não que todos os agentes do grupo apresentem o mesmo nível de risco.
O levantamento mostra outros fatores no recorte de 16 a 24 anos. O consumo de álcool de um a dois dias por semana é relatado por 37% dos jovens, ante 30% da amostra total. Na mesma faixa etária, 41% dos entrevistados já estão acima do peso considerado ideal.
Dados de um recorte anterior da pesquisa apontaram que 19% dos jovens são fumantes ativos, incluindo usuários de dispositivos eletrônicos, ante 17% na média nacional registrada pelo estudo. A exposição ao fumo passivo alcança 37% nessa faixa etária, contra 33% no total.
O tabaco é um agente carcinogênico com relação causal estabelecida com diferentes tipos de câncer, entre eles tumores de estômago e pâncreas. Nesse caso, a exposição iniciada em idades mais baixas amplia o período durante o qual uma pessoa pode permanecer em contato com substâncias carcinogênicas.
Os indicadores de alimentação, peso, álcool e tabagismo contrastam com a avaliação que os próprios jovens fazem da saúde. Entre os entrevistados de 16 a 24 anos, 68% classificam a própria saúde como ótima ou boa, o maior percentual entre todas as faixas etárias pesquisadas e nove pontos percentuais acima dos 59% registrados na amostra total.
A diferença entre os hábitos registrados e a percepção individual de saúde representa um retrato do momento em que a pesquisa foi realizada. Os dados mostram a frequência das exposições relatadas pelos entrevistados, mas não permitem prever diagnósticos individuais ou calcular quantos casos de câncer poderão ocorrer no futuro.
O levantamento também indica que a exposição ao tabaco não se restringe aos fumantes. Um em cada três brasileiros, ou 33%, afirma conviver com frequência com pessoas que fumam por perto, seja em casa ou no trabalho. O percentual sobe para 41% na região Sul e chega a 37% entre jovens de 16 a 24 anos, faixa etária que também concentra o maior consumo ativo apontado pela pesquisa. O tabagismo passivo está associado ao aumento do risco de câncer de pulmão mesmo entre pessoas que nunca fumaram.
“Levamos décadas para reduzir o tabagismo no Brasil. Ver a faixa mais jovem da população liderando o consumo e, ao mesmo tempo, a exposição involuntária mostra que essa conquista não está garantida. Em oncologia, o intervalo entre a exposição e a doença se mede em décadas: o que observamos hoje entre os jovens é um dado que ainda não virou diagnóstico”, afirma o Dr. Helano Freitas, líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax.
A pesquisa também identificou a presença simultânea de diferentes hábitos de risco entre fumantes. Nesse grupo, 84% acumulam até quatro outros comportamentos considerados nocivos, entre eles sedentarismo e consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e frituras.
Entre as pessoas que nunca fumaram, 18% afirmam não ter nenhum dos hábitos considerados ruins pelo levantamento. O percentual corresponde ao dobro dos 9% registrados entre os fumantes. Já entre os ex-fumantes, 44% apresentam apenas um hábito ruim, a maior proporção encontrada pela pesquisa nessa categoria, acompanhada por taxas menores de múltiplos comportamentos de risco.
Outro dado mostra como a percepção sobre a própria saúde se relaciona com os hábitos declarados. Entre os fumantes, 63% classificam a própria saúde como “ótima/boa”, ante 61% das pessoas que nunca fumaram. A diferença está dentro da margem de erro da pesquisa.
Os resultados aparecem no contexto do Agosto Branco, campanha de conscientização sobre prevenção, fatores de risco e diagnóstico precoce do câncer de pulmão. O Instituto Nacional de Câncer, o INCA, estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil no período entre 2026 e 2028.
“O tabagismo segue presente em cerca de 85% dos diagnósticos e o principal recado desta agenda continua sendo eliminar o hábito de fumar, mas também proteger quem está por perto. Vale lembrar que nunca ter fumado não afasta o risco e, portanto, nenhum sintoma respiratório persistente deve ser ignorado”, diz Helano Freitas.
Segundo a pesquisa do A.C.Camargo Cancer Center e da Nexus, 52% dos brasileiros de 16 a 24 anos consomem ultraprocessados em três ou mais dias por semana, ante 33% da amostra total. O consumo diário chega a 17% entre os jovens e a 4% entre pessoas com 60 anos ou mais.
Entre os brasileiros de 16 a 24 anos, 52% consomem bebidas açucaradas em três ou mais dias da semana, 42% consomem frituras e 39% comem doces, segundo o levantamento. Na amostra total, os percentuais são de 37%, 31% e 31%, respectivamente.
A pesquisa A.C.Camargo/Nexus não estabelece uma relação de causa e efeito nem estima quantos participantes desenvolverão câncer. Segundo o Dr. Felipe Coimbra, o risco oncológico depende do tempo, da dose e da intensidade da exposição a agentes carcinogênicos.
Dados de um recorte anterior da pesquisa apontam que 19% dos jovens são fumantes ativos, incluindo usuários de dispositivos eletrônicos, ante 17% na média nacional do estudo. A exposição ao fumo passivo alcança 37% entre pessoas de 16 a 24 anos.
Segundo o levantamento, 68% dos entrevistados de 16 a 24 anos classificam a própria saúde como ótima ou boa. É o maior percentual entre as faixas etárias pesquisadas e supera os 59% registrados na amostra total.
Sim. A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, classifica a carne processada no grupo 1, usado quando há evidência suficiente de que o agente pode causar câncer em humanos. A categoria indica a força da evidência científica, não que todos os agentes classificados apresentem o mesmo nível de risco.