Ciência

Cães-selvagens vivem 'odisseia' percorrem 4 mil km e quebram recorde entre mamíferos africanos

Rastreados por pesquisadores, irmãos deixaram sua matilha na Zâmbia em busca de novos territórios e oportunidades de reprodução

Cães-selvagens-africanos: espécie ameaçada é conhecida pela resistência e capacidade de percorrer grandes distâncias (Pexels)

Cães-selvagens-africanos: espécie ameaçada é conhecida pela resistência e capacidade de percorrer grandes distâncias (Pexels)

Publicado em 19 de setembro de 2026 às 06h35.

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Três cães-selvagens-africanos percorreram 4.126 quilômetros pela Zâmbia, estabelecendo a maior rota de dispersão já registrada para um mamífero da África. A "odisseia", acompanhada por pesquisadores durante meses, revelou a capacidade desses animais de atravessar grandes áreas em busca de novos territórios e oportunidades de reprodução.

O deslocamento foi descrito em um estudo publicado na última quarta-feira, 9, na revista científica Ecology. Além do recorde, os resultados indicam que populações de cães-selvagens separadas por centenas de quilômetros podem estar mais conectadas do que se imaginava.

Os animais pertenciam à matilha Mayukuyuku, no Parque Nacional de Kafue, na Zâmbia. Em julho de 2025, quatro fêmeas de 3 anos deixaram o grupo. Cerca de duas semanas depois, três machos da mesma idade também partiram.

Para acompanhar os deslocamentos, pesquisadores instalaram uma coleira de rastreamento por rádio em um integrante de cada grupo.

Jornada de 4.126 quilômetros estabeleceu recorde

Apesar de Kafue oferecer grande quantidade de presas e extensas áreas protegidas, os cães seguiram para regiões cada vez mais distantes. Ao longo da jornada, passaram por áreas com menor proteção e chegaram aos arredores de cidades como Kabwe, Kitwe e Ndola.

Em setembro do ano passado, depois de ambos os grupos percorrerem mais de mil quilômetros desde o território original, machos e fêmeas chegaram a se reencontrar durante um único dia. Depois, voltaram a seguir caminhos diferentes.

Os três machos continuaram para o leste, atravessaram dois grandes reservatórios e finalmente se estabeleceram em uma região próxima à escarpa do Vale do Rift, cerca de 419 quilômetros em linha direta do local onde nasceram. Por causa do trajeto sinuoso, no entanto, eles percorreram 4.126 quilômetros até chegar ao novo território.

Segundo os pesquisadores, trata-se da maior distância de dispersão já registrada para qualquer mamífero africano. Como comparação, os gnus podem percorrer até cerca de 1.800 quilômetros durante a migração anual entre Quênia e Tanzânia.

Por que os cães-selvagens viajaram tanto?

Os cães-selvagens-africanos (Lycaon pictus) vivem em grupos familiares com uma estrutura social rígida. Normalmente, apenas um casal dominante se reproduz dentro de cada matilha.

Animais subordinados podem permanecer no grupo ajudando a cuidar dos filhotes ou partir em busca de parceiros e de um território onde tenham maior chance de reprodução.

Os sete animais acompanhados tinham 3 anos e poucas perspectivas de se reproduzir permanecendo na matilha Mayukuyuku, segundo os pesquisadores. A espécie também possui características físicas favoráveis a longos deslocamentos, incluindo pernas compridas e grande resistência.

Viagem também revelou ameaças aos animais

A trajetória das quatro fêmeas teve um desfecho diferente. Em outubro de 2025, dados da coleira mostraram que uma delas começou a realizar movimentos repetidos de ida e volta. Os pesquisadores consideram provável que uma das fêmeas sem coleira tenha ficado presa em uma armadilha de arame usada para caça, enquanto as outras permaneceram próximas.

Dias depois, a própria coleira de rastreamento foi cortada, interrompendo o acompanhamento do grupo. Segundo os pesquisadores, essas armadilhas estão entre as principais ameaças atuais aos cães-selvagens-africanos.

Os animais em dispersão também enfrentam riscos naturais. Leões podem matar adultos e filhotes, hienas disputam suas presas e a travessia de rios pode colocá-los diante de crocodilos.

Populações podem estar conectadas por grandes distâncias

O percurso também trouxe novas informações sobre a distribuição da espécie. Em determinado momento, os machos passaram a poucos quilômetros de um grupo de fêmeas localizado no leste da Zâmbia, a mais de 500 quilômetros de Kafue.

Para os autores, esse tipo de deslocamento sugere que populações aparentemente isoladas podem manter conexões entre diferentes ecossistemas do leste e do sul da África.

Há também sinais de recolonização de áreas onde os cães-selvagens haviam desaparecido. O Parque Nacional de Kasungu, no Malawi, por exemplo, registrou recentemente a presença da espécie pela primeira vez em mais de uma década.

Ao mesmo tempo, as enormes distâncias percorridas mostram o grau de fragmentação dos habitats. Os pesquisadores destacam, por isso, a importância de preservar corredores ecológicos entre áreas protegidas, permitindo que os animais se desloquem entre diferentes populações.

O cão-selvagem-africano está entre os mamíferos mais ameaçados do continente, e a conservação da espécie depende não apenas de reservas isoladas, mas também da manutenção das áreas utilizadas durante esses longos deslocamentos.

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