Brasileiros participam de descoberta de 2 espécies de dinossauros na China

Fósseis de gigantes herbívoros foram encontrados na província de Xinjiang, que abriga rochas de aproximadamente 120 milhões de anos, em uma parceria do Museu Nacional/UFRJ com cientistas chineses
 (Scientific Reports./Divulgação)
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Agência O GloboPublicado em 12/08/2021 às 13:48.

Uma parceria entre pesquisadores chineses e pesquisadores brasileiros do Museu Nacional/UFRJ levou à descoberta de duas novas espécies de dinossauros no Noroeste da China. Elas pertencem ao grupo dos saurópodes, gigantes herbívoros caracterizados por terem caudas e pescoços longos, cabeça pequena e corpo muito grande, e nunca tinham sido descritas. Os fósseis foram encontrados na província autônoma de Xinjiang, que abriga rochas de aproximadamente 120 milhões de anos. Detalhes do estudo foram publicados nesta quinta-feira em artigo na revista Scientific Reports.

– Além da descoberta das novas espécies, trata-se de uma área onde ainda não havia registros de dinossauros. Isso mostra ainda o potencial local para outros achados importantes – explica o paleontólogo e diretor do Museu Nacional/UFRJ Alexander Kellner, que esteve em Xinjiang antes da coleta do material.

    Os paleontólogos encontraram parte do pescoço de uma espécie que ganhou o nome de Silutitan sinensis – uma combinação entre o termo “silu”, que em mandarim significa “rota da seda” (por onde era comercializada a seda que saía do Oriente em direção à Europa), e “titan”, uma alusão aos titãs gregos e termo comumente aplicado a saurópodes devido ao tamanho dos dinossauros desse grupo. Estima-se que essa espécie tenha chegado a medir 17 metros da ponta do focinho à cauda, o equivalente a quase um prédio de seis andares deitado.

    A alguns quilômetros de distância, foi encontrada parte da cauda de uma segunda espécie, chamada Hamititan xinjiangensis, e que teria 15 metros de comprimento. O nome é uma junção do nome da localidade de onde vieram os fósseis (Hami) e, novamente, o termo “titan”. No princípio, os pesquisadores pensavam se tratar de restos de uma mesma espécie.

    – Começamos a analisar para tentar estabelecer parentescos e, quando colocávamos (os fósseis) em conjunto, parecia um Frankstein paleontológico. Não combinava nada, não se aparentava com nenhuma espécie – conta Kellner.

    Todos as espécies descritas no artigo são mostrados em um esboço de um titanossauro genérico (Maurílio Oliveira/Divulgação)

    Ao separar os fósseis encontrados, e realizar análises para entender a “árvore genealógica” evolutiva do material, os pesquisadores chegaram à conclusão de que se tratava de duas espécies diferentes.

    – Nossa maior surpresa foi quando conseguimos descobrir que eram partes de espécies distintas, e não do mesmo animal, apesar de terem sido encontrados na mesma localidade. Isso reforça a riqueza dessa região e o potencial para novas descobertas – afirma a paleontóloga Kamila Bandeira, do Museu Nacional/UFRJ, que participou da identificação do achado, abrigado no Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleantropologia (IVPP), em Pequim.

    A primeira espécie, Silutitan sinensis, pertence a um grupo de saurópodes encontrado exclusivamente na Ásia. É uma espécie também ligada a outra espécie chinesa chamada Euhelopus, mas ainda mais antiga. O mais intrigante, porém, diz respeito à segunda espécie, Hamititan xinjiangensis, identificada como um titanossauro:

    – Embora ela tenha ligação com um grupo encontrado em várias partes do mundo, sua origem é particularmente vinculada à América do Sul. Isso mostra que esse grupo se diversificou muito antes do que se pensava, e expõe seu grau de dispersão. É uma evidência de quão bem-sucedido foi esse grupo durante o Período Cretáceo (entre 145 milhões de anos e 65 milhões de anos atrás), por estar em diferentes lugares – acrescenta Kamila.

    Para Kellner, o achado em particular da espécie Hamititan xinjiangensis mostra “elos perdidos” de espécies entre a América do Sul e a Ásia:

    – Abre-se um novo capítulo para compreender a história evolutiva desses animais gigantescos que viveram há milhões de anos na Terra.

    Para ele, a descoberta expõe ainda a importância do trabalho desenvolvido pelo Museu Nacional/UFRJ, que ainda se recupera do incêndio de grandes proporções que consumiu suas instalações e coleções de valor inestimável em 2018:

    – Apesar dos pesares, o Museu Nacional está vivo, mais vivo que nunca, gerando conhecimento e produzindo ciência de qualidade.

    Potencial de novas descobertas

    Embora não tivesse registros de dinossauros antes, o mesmo sítio de Xinjiang já havia revelado fósseis de répteis alados, os pterossauros. Kellner explica que eles são considerados primos dos dinossauros, com cada um tendo tomado o seu caminho evolutivo. Enquanto os primeiros dinossauros ficaram em terra firme, os pterossauros desenvolveram o voo ativo, sendo os primeiros vertebrados a voar.

    – Já foram encontrados ali também dezenas de ovos de pterossauros, que são estruturas muito frágeis, o que nos entusiasma pelo potencial de encontrarmos também no futuro ovos de dinossauros com embriões, abrindo novas e interessantes possibilidades de pesquisa desses animais gigantescos – explica Kellner.

    A parceria do Museu Nacional/UFRJ com o Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleantropologia (IVPP), em Pequim, coordenado pelo pesquisador Xiaolin Wang, começou em 2004, e desde então rendeu mais de vinte trabalhos publicados. Nesse último estudo, participaram ainda paleontólogos do Beijing Museum of Natural History e do Hami Museum.

    Os pesquisadores esperam, agora, poder voltar à China para continuar os estudos.

    – A pandemia atrapalhou, mas a ideia é investir mais em campo, para ver se encontramos algum fóssil mais completo ou até mesmo uma terceira espécie, e continuar as investigações sobre quais são as relações paleontológicas ali – diz Kamila. – Como será que esses saurópodes, animais de grande porte, conviviam com os pterossauros? Será que só estavam de passagem? Agora precisamos montar esse quebra-cabeça.