Brasil registra mortes suspeitas e mais de 200 casos de pancreatite associados a canetas emagrecedoras; Anvisa investiga e alerta sobre uso indevido. (Freepik)
Redação Exame
Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 14h53.
O Brasil registrou seis mortes suspeitas e 225 casos suspeitos de pancreatite associados ao uso de canetas emagrecedoras desde 2018, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As informações constam no VigiMed, sistema oficial de notificação de eventos adversos da agência, e em registros de pesquisas clínicas realizadas no país.
As notificações envolvem medicamentos da classe GLP-1, utilizados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, como semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida.
De acordo com a Anvisa, os 225 casos suspeitos de pancreatite incluem notificações feitas após o início da comercialização dos medicamentos e também durante estudos clínicos. Os registros envolvem pacientes dos estados de São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal.
Além disso, há seis mortes notificadas com suspeita de relação entre pancreatite e o uso das canetas emagrecedoras. Nos casos de óbito, os estados não foram informados.
A agência ressalta que:
Os dados são classificados como suspeitos, pois cada notificação precisa passar por análise técnica para confirmação da relação causal;
O número pode estar subnotificado, já que a comunicação desses eventos à Anvisa não é obrigatória para médicos e hospitais.
No banco de dados do VigiMed, os casos aparecem associados a medicamentos comercializados sob nomes como Wegovy, Victoza, Trulicity, Saxenda, Xultophy, Ozempic, Rybelsus e Mounjaro.
A Anvisa informou que todos os casos estão em investigação e que não é possível afirmar que as ocorrências estejam diretamente relacionadas às marcas citadas. Segundo a agência, há registros de uso de canetas falsas, irregulares ou manipuladas, apresentadas como similares aos produtos originais.
Esse fator dificulta a análise da origem dos eventos adversos e reforça a preocupação das autoridades sanitárias com o uso de medicamentos fora do circuito regular.
Especialistas explicam que o risco de pancreatite aguda associado ao uso de canetas emagrecedoras não é uma descoberta recente e já está descrito nas bulas de alguns desses medicamentos.
No caso do Mounjaro (tirzepatida), por exemplo, a bula informa que a inflamação do pâncreas é uma reação adversa incomum, porém possível durante o tratamento. A orientação é que o paciente procure o médico e interrompa o uso caso haja suspeita de pancreatite.
A própria Anvisa reforça que ainda não há confirmação de que os casos tenham sido causados diretamente pelos medicamentos, já que muitos pacientes tratados pertencem a grupos com maior risco basal de pancreatite, como pessoas com diabetes e obesidade.
A Eli Lilly (Mounjaro) afirmou que monitora os registros de eventos adversos e destacou que a pancreatite consta como possível reação descrita em bula de seus medicamentos.
A Novo Nordisk (Ozempic) reforçou que existe uma advertência de classe para terapias baseadas em incretina em relação ao risco de pancreatite. A empresa orienta que pacientes sejam informados sobre os sintomas e interrompam o tratamento caso haja suspeita da inflamação.