A briga dos trangênicos está só começando

O eucalipto transgênico pode levar o Brasil a mais um salto na produtividade da celulose. Mas antes será preciso convencer ONGs e clientes estrangeiros
Viveiros da Futuragene, em São Paulo: a empresa desenvolveu eucaliptos 20% mais produtivos (Lia Lubambo / EXAME)
Viveiros da Futuragene, em São Paulo: a empresa desenvolveu eucaliptos 20% mais produtivos (Lia Lubambo / EXAME)
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Renata VieiraPublicado em 27/04/2015 às 16:42.

São Paulo -- No dia 5 de março, os cerca de 63 funcionários da empresa de biotecnologia FuturaGene, braço de pesquisa da fabricante de papel e celulose Suzano, com sede na cidade paulista de Itapetininga, viram boa parte de quase 15 anos de trabalho arrasada em pouco mais de 1 hora.

Na manhã daquele dia, um grupo calculado em cerca de mil mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), utilizando suas armas tão tristemente conhecidas dos brasileiros, invadiu as instalações da empresa e destruiu viveiros onde estavam milhares de mudas de eucalipto — a maioria da espécie H421, uma modalidade geneticamente modificada.

Ao mesmo tempo, o “exército” do líder João Pedro Stédile, convocado recentemente pelo ex-presidente Lula, coordenou outro tumulto em Brasília. Estima-se que 300 manifestantes tenham invadido a sala onde representantes da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), responsável por regulamentar os transgênicos no país, reuniam-se para votar a liberação do uso comercial da espécie modificada.

Com o tumulto, a votação — aguardada desde o fim de 2013 — foi adiada. “Sempre soubemos que há um ônus para quem lidera saltos tecnológicos, mas não imaginávamos enfrentar esse tipo de problema”, afirma Walter Schalka, presidente da Suzano.

O que está em xeque vai além do investimento de 100 milhões de dólares feito nos últimos anos pela FuturaGene, empresa de engenharia de proteínas nascida em Israel, em 1993, e comprada pela Suzano em 2010. O resultado das pesquisas, segundo a empresa, é uma tecnologia única no mundo — uma espécie transgênica capaz de poupar um ano e meio do tempo de crescimento de um eucalipto comum.

As árvores podem ser cortadas aos cinco anos e meio — o que gera um ganho de 15% no volume de madeira numa mesma área de plantio e reduz 20% dos custos de produção. “Temos uma tecnologia capaz de trazer o mesmo ganho conquistado nos últimos 25 anos com uso de melhoramento genético tradicional”, diz Eugênio Ulian, vice-presidente de assuntos regulatórios da FuturaGene.

No melhoramento tradicional, a que o executivo se refere, as características do eucalipto são controladas e reproduzidas, sem que haja mudança na sequência de DNA da árvore. Trata-se de uma prática adotada por todas as companhias do setor no país e que possibilitou que a produtividade das florestas de eucalipto brasileiras quadruplicasse nos últimos 60 anos.

O índice chega a 40 metros cúbicos de madeira por hectare ao ano — hoje, a maior produtividade no mundo. Estados Unidos e China também já estudam a transgenia em árvores, mas o Brasil é o primeiro a pleitear o uso comercial — o que coloca o país em uma posição vantajosa.

Numa situação que ocorre em poucos setores no país, a tecnologia transgênica pode alçar as fabricantes brasileiras de celulose a uma nova fronteira de competitividade. “O projeto tem o mérito de levar o Brasil a um patamar de destaque mundial numa seara em que já é protagonista”, diz Fernando Reinach, sócio do Pitanga, fundo de investimento voltado para inovações tecnológicas, e ex-presidente da CTNBio.

Polêmica

Não faltam, porém, obstáculos pelo caminho. O MST, que tradicionalmente se opõe a produtores de transgênicos, é só um deles. Mais de 40 organizações já se manifestaram contra a nova tecnologia.

Três dias antes da reunião da CTNBio, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor enviou aos membros da comissão, às empresas e ao ministro Aldo Rebelo, de Ciência e Tecnologia, um manifesto coletivo de cinco páginas com argumentos sobre aspectos como o risco de contaminação de outras espécies de plantas via pólen, além de outros possíveis prejuízos ambientais.

Entre os signatários estão desde cientistas até apicultores, ONGs como o Greenpeace e agricultores adeptos do plantio orgânico. “Se a CTNBio aprovar essa liberação, vamos entrar na Justiça contra isso”, afirma Claudia Almeida, advogada do Idec.

Boa parcela da polêmica se sustenta nas incertezas em relação ao tema. Para os mesmos tópicos, é possível achar argumentos científicos diametralmente opostos. Um embate interminável diz respeito aos possíveis efeitos da planta transgênica na produção de mel. Explica-se: as flores do eucalipto são uma das principais fontes do mel orgânico.

Segundo a Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), os 150 milhões de dólares exportados anual­mente em mel e própolis podem cair a 30% disso caso os apicultores rotulem os produtos como transgênicos. Há quem tema que as abelhas possam desenvolver novas doenças e provocar efeitos ainda não conhecidos em consumidores do mel.

Outros pesquisadores argumentam que a quantidade de pólen transgênico é tão pequena que não haveria riscos. “Estamos sob amea­ça de perder clientes europeus”, diz José de Abreu, da Abemel. A Suzano garante que a ocupação de áreas de plantio com transgênicos se dará de forma gradual: 1% ao ano no curto prazo, a partir de 2020. “Haverá muito espaço para a produção de mel ­orgânico”, afirma Schalka.

Resistência global

O principal obstáculo à frente, no entanto, é conquistar o apoio do Forest Stewardship Council (FSC), entidade internacional que atesta práticas sustentáveis de manejo florestal. Hoje, para obter o selo verde do FSC, a produção não pode usar transgênicos. A certificação é quase indispensável, sobretudo, para clientes europeus. A Europa compra 40% da celulose brasileira.

É fato que a discussão sobre o tema já deu um passo à frente em 2011, quando o FSC permitiu que companhias detentoras do selo fizessem pesquisas na área. Mas não há, no horizonte próximo, perspectiva de que a entidade permita o uso comercial. De novo, a falta de consenso científico é um problema.

“O ciclo de vida menor desses eucaliptos vai gerar um consumo maior de água e um desequilíbrio das microbacias hidrográficas”, afirma Paulo Kageyama, pesquisador da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, e membro da CTNBio. “Faltam evidências de que esse tipo de planta não será prejudicial ao ambiente.”

Ao mesmo tempo, o também pesquisador da Esalq e membro da CTNBio Hilton Thadeu Zarate afirma que o dossiê entregue pela FuturaGene à comissão não indica efeito nocivo dos eucaliptos em humanos ou na natureza. Diante do imbróglio, a política do FSC é: se há riscos, melhor ter cautela.

Outras empresas do setor de celulose que operam no país adotaram a mesma postura. “Precisamos de mais tempo para ter certeza dos impactos”, diz Marcelo Castelli, presidente da Fibria, maior fabricante de celulose do mundo, que pesquisa os eucaliptos transgênicos desde 2011.

Há questionamentos não só em relação aos efeitos adversos dos transgênicos mas também a seus ganhos de produtividade. “Em nossas pesquisas, não tivemos ganhos que ultrapassassem os já alcançados com o melhoramento tradicional”, diz Armando Santiago, diretor florestal e de suprimentos da International Paper Brasil.

Schalka, presidente da Suzano, faz questão de afirmar que os passos da companhia nesse terreno pantanoso não serão intempestivos. Ele diz que tem se empenhado pessoalmente em travar um diálogo intenso e transparente com o FSC. Caso a CTNBio aprove o pedido da FuturaGene na próxima reunião, marcada para 9 de abril, o plano é apenas ampliar as áreas de testes, hoje limitadas a 50 hectares.

A princípio, o plantio comercial só vai acontecer após a aprovação do FSC. Até quando Schalka está disposto a esperar? “Não vamos adiar indefinidamente porque estamos convictos dos impactos positivos para o setor e para a sociedade”, diz ele. “Se até 2020 não houver um veredito favorável, vamos seguir sem o selo.”

Ninguém sabe quais os próximos capítulos dessa história complicada. O que se pode ter certeza é que a discussão sobre o eucalipto transgênico é importante para que diferentes visões sobre o assunto se manifestem — exceto pelas barbaridades do MST — na busca da tecnologia mais eficiente e segura. A tecnologia, afinal, é uma velha aliada da humanidade — e é do interesse de todos que ela continue a avançar.