Veja 12 mudanças no futebol desde criação dos clubes-empresa no Brasil

Lei que institui Sociedade Anônima de Futebol (SAF) foi aprovada há um ano; novo modelo movimentou quase 1,5 bilhão de reais
Botafogo é um dos times que aderiu à SAF no último ano (Buda Mendes/Getty Images)
Botafogo é um dos times que aderiu à SAF no último ano (Buda Mendes/Getty Images)
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Da RedaçãoPublicado em 11/08/2022 às 10:02.

A lei que instituiu a Sociedade Anônima de Futebol (SAF) completou um ano em 6 de agosto. Nesse período, cinco clubes brasileiros aderiram ao novo modelo e cerca de 1,5 bilhão de reais foram movimentados nestas negociações. Na prática, a medida permite que o gerenciamento seja feito como uma empresa, porém, com tributações próximas àquelas das associações – que constumava ser o principal modelo de gestão dos times de futebol no Brasil.

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Em princípio, a SAF era tida como solução para clubes em dificuldade financeira, já que possibilita os pagamentos a credores por meio de recuperação judicial ou extrajudicial, bem como possibilita a execução de bens e negociações coletivas (como uma empresa). Para especialistas, mais que uma solução, esse novo modelo também promete ser o meio para garantir profissionalização do esporte e tornar o futebol mais atraente aos olhos dos investidores.

Confira 12 lições do primeiro ano de clubes-empresa preparada por Claudio Pracownik, CEO da Win The Game, especializada em negócios para o esporte e entretenimento, que tem a holding da BTG Pactual como sócia:

  1. A melhor solução é aquela que vem de dentro para fora. Quanto o maior o engajamento dos conselhos e a comunicação com o mercado, mais indolor será o processo de transição; Clubes e Federações que estejam trabalhando o tema e a possibilidade de ser SAF com seus conselheiros e torcedores desde já, terão maior facilidade caso a mudança de um novo sistema de gestão e de um novo tipo societário ocorra;
  2. O torcedor que ontem gritava: “não vendam nosso clube”, é o mesmo que hoje exige a sua venda; apesar de ainda haver muito o que comunicar e aprender sobre novos modelos no Futebol, sua reestruturação e a SAF em especial, os torcedores e fãs já compreenderam a importância da uma gestão profissional para a sobrevivência de Clube do coração;
  3. Os “Torcedores de Balanço” tinham razão! Brincadeiras à parte, dar valor aos balanços financeiros positivos passou a ser mais valorizado neste último ano de aprendizados e experiências com SAF. Títulos e resultados positivos em campo são essenciais, entretanto, sem a saúde financeira em dia, os títulos dificilmente serão uma constante;
  4. Ter um ordenamento jurídico, ainda que incipiente, é melhor do que ter nenhum: existem ainda lacunas e faltam regramentos importantes ainda na Lei, principalmente sobre fair play e licenciamento, que possibilitam aos Clubes meios para produtos sustentáveis ao longo prazo, no entanto, uma maratona sempre começa com um 1º passo. Além disso a edição da Lei das SAF’s foi fundamental para a necessária mudança de mentalidade sobre a gestão de um clube profissional;
  5. A primeira leva não foi a dos clubes exportadores de talentos, mas sim daqueles mais endividados. Porém, a segunda será! A expectativa da criação de uma liga de clubes e a extrema necessidade financeira de alguns clubes foi a motivação principal dessa 1ª onda de aquisições. Os clubes de maior investimento que podem aguardar pela valorização que virá com a criação da Liga irão investir em novos modelos de gestão e em processos. O olhar dos investidores então agora se volta para os clubes de menor investimento e que possuam maior capacitação para formação e exportação de talentos.
  6. Até que exista melhor regulamentação, a Recuperação Judicial (RJ) é mais segura do que a REC (Regime de Execução Centralizada): a recuperação judicial já existe e sua jurisprudência está consolidada, inclusive investidores estrangeiros já compraram ativos em RJ no país e, portanto, sabem como se posicionam os juízos da execução.
    Em contrapartida, a REC é recente e ainda apresenta conflitos na execução dos ativos, percentuais, e tudo mais. Nesse sentido, ainda há uma série de inseguranças que naturalmente advém a partir de um instituto jurídico novo;
  7. A Liga de Futebol foi o primeiro atrativo de potencial para ganhos futuros. Agora, EBTDA (Earnings before Interest, Taxes, Depreciation and Amortization; em português: lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização), e monetização de dados serão elementos de maior diferencial;
    o que os investidores olham atualmente é para a capacidade de geração de caixa (principalmente com a venda de jogadores), ainda mais em um país com inflação alta; outros olham para o engajamento (número de torcedores) e sua capacidade de monetização desses dados que possuem um custo de aquisição (CAC) muito inferior à média do mercado; 
  8. A carência de mão de obra especializada é um dos principais gargalos dos novos donos das SAF’s; até a função de headhunter está hoje no escopo de quem oferece serviços de consultoria e gestão de novos modelos de negócios no Futebol. Atualmente, exigem-se capacidades que antes não eram necessárias, como por exemplo um gerente de compliance, entre outros.
    De um lado temos profissionais de mercado com essas capacitações, mas sem o conhecimento específico do mercado de futebol, do outro, muitos profissionais que ainda têm o vício dos modelos antigos de gestão. Resumindo, há uma carência de mão de obra qualificada; por isso, é fundamental ter cautela na hora de escolher assessores e prestadores de serviço;
  9. SAF é meio e não fim. Seja qual for a solução escolhida pelos clubes, profissionalização da gestão e governança são os fins a serem atingidos; virar SAF não faz de um time campeão. Qualquer transformação requer tempo. Vencerá quem tiver persistência, paciência, alinhamento de interesses e planejamento de longo prazo;
  10. O mercado ainda carece de uma fórmula de “valuation” padrão para os clubes. Todas as transações realizadas até agora não trouxeram valor efetivo para o detentor de um título do Clube ou seu dono; o valor de um clube está associado ao modelo de negócio objetivado pelo investidor e, portanto, não existem fórmulas prontas para sua determinação;
  11. Quem controla o dinheiro, controla o time. O investidor quer retorno financeiro e não fará loucuras para ser campeão. Quem faz o aporte de capital, toma o maior risco e quer ter a maior influência sobre as decisões; A SAF traz uma transformação em todo o ecossistema. Jogadores, patrocinadores, investidores e financiadores também estão à procura de um novo ponto de equilíbrio.

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