Vitor Martins, escritor: como Quinze Dias virou fenômeno jovem e chegou ao cinema (José de Holanda)
Jornalista
Publicado em 23 de junho de 2026 às 18h24.
Quando Quinze Dias foi lançado, em 2017, Vitor Martins tinha a sensação de estar ocupando um espaço ainda pouco explorado na literatura brasileira.
O romance sobre Felipe, um adolescente gay e gordo que enfrenta inseguranças, bullying e a descoberta do amor, chegava às livrarias sem muitos títulos semelhantes ao redor. Nove anos depois, o cenário mudou.
O livro se tornou um fenômeno entre leitores jovens, ajudou a consolidar um mercado de histórias LGBTQIA+ voltadas ao público jovem adulto e agora ganhou uma adaptação para os cinemas, que estreou na última quinta-feira, 18. Para Martins, a transformação vai muito além do sucesso de uma obra e revela uma geração que quer se reconhecer nas histórias que consome.
Em entrevista exclusiva à EXAME, o escritor falou sobre a evolução do mercado editorial, o impacto da representatividade e o poder de uma narrativa capaz de mudar a forma como alguém enxerga a própria história.
A seguir, os principais trechos da conversa.
Quando publiquei Quinze Dias, sentia que ele estava muito sozinho nas prateleiras. Era difícil encontrar histórias parecidas. Hoje acontece exatamente o contrário. Você entra em uma livraria e encontra livros que dialogam com a mesma proposta, mas sob perspectivas diferentes. Temos mais autoras contando histórias sáficas, mais autores LGBTQIA+, mais pessoas trans publicando. A principal mudança foi a abertura do mercado para essas narrativas. Existe demanda dos leitores, mas também uma disposição maior das editoras para investir nelas.
Não. Eu sabia que poderiam existir reações negativas, mas o desejo de contar aquela história era muito maior do que qualquer medo. Era uma narrativa que estava muito viva dentro de mim. Eu precisava escrevê-la. E, para ser sincero, nunca considerei a possibilidade de contar outra história. Ela nasceu das minhas vivências, das vivências dos meus amigos e da minha comunidade. Era o caminho mais natural para mim.
Vitor Martins: nome de destaque na literatura LGBTQIA+ (Arquivo Pessoal/Divulgação)
Porque esse público foi negligenciado por muito tempo. O Brasil sempre teve uma produção muito forte para crianças e outra para adultos. Os jovens acabavam ficando no meio do caminho. Só que eles querem se enxergar nas histórias. Querem encontrar personagens que vivem os mesmos conflitos, as mesmas dúvidas e os mesmos desafios. E existe um equívoco em subestimar essa geração. Os jovens de hoje são extremamente exigentes. Eles sabem o que querem consumir e se engajam profundamente com aquilo que gostam. Basta observar as Bienais do Livro. O público jovem domina esses eventos.
Representa formação. Estamos falando de jovens que estão construindo sua visão de mundo, entrando na vida adulta, começando a votar e a participar da sociedade de forma mais ativa. Quanto mais ferramentas eles tiverem para refletir sobre identidade, representatividade e convivência, mais preparados estarão para os debates que vão enfrentar no futuro. Por isso acredito que escrever para jovens é uma responsabilidade enorme.
Eu gosto de pensar nelas como um espelho quebrado. Cada pessoa encontra um fragmento diferente em que consegue se enxergar. Um jovem gay e gordo pode se reconhecer profundamente no Felipe. Uma mãe pode se identificar com a Rita. Outra pessoa pode se conectar às inseguranças com o próprio corpo ou aos conflitos familiares. Cada personagem oferece uma possibilidade diferente de identificação.
Para Martins, escrever para jovens é "uma responsabilidade enorme" (José de Holanda)
É um impacto muito poderoso. Quando uma pessoa vê alguém parecido com ela ocupando o centro da narrativa, entende que a sua própria história merece ser contada. Ela percebe que sua existência tem valor, que sua trajetória importa e que suas experiências são dignas de serem retratadas em um livro ou em um filme. Isso gera pertencimento. Gera confiança.
Espero que cada pessoa encontre algo próprio dentro da história. Uma das mensagens mais bonitas que recebo vem de homens gays mais velhos que dizem: “Se esse filme existisse quando eu era adolescente, muita coisa teria sido diferente”. Isso mostra que Quinze Dias conversa com os jovens de hoje, mas também permite que outras gerações revisitem o próprio passado. No fim, acredito que as pessoas vão sair do cinema carregando algo especial. Porque essa é uma história muito específica em alguns aspectos, mas profundamente humana em todos os outros.