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Produzir menos, reciclar mais: o futuro da moda segundo o CEO do Iguatemi

Para Carlos Jereissati Filho, a sustentabilidade deve se situar de forma acelerada daqui pra frente; na próxima semana, executivo abre a programação do Iguatemi Fashion Talks

Na próxima semana, entre 19 e 20 de outubro, a empresa de shopping centers Iguatemi promove a quinta edição do Iguatemi Fashion Talks, uma conferência que reúne grandes nomes do universo da moda, do design e dos negócios para discutir os desafios e as tendências deste mercado no Brasil e no mundo.

"O Iguatemi Fashion Talks surgiu do nosso desejo de difundir conhecimento e conectar o Brasil ao mundo com discussões de alto nível. Os palestrantes internacionais têm muita vontade de conhecer o Brasil, de entender o país e trocar com a gente", comenta Carlos Jereissati Filho, CEO do Iguatemi, em entrevista à EXAME.

Entre os nomes confirmados para o evento está a diretora criativa italiana Giovanna Engelbert, a cineasta Sofia Coppola, o CEO da Gucci Marco Bizzarri e a autora Sinéad Burke, que dirige uma consultoria de acessibilidade. "É um aspecto, como muitos outros que estão na programação do Fashion Talks, que não é tão visível no momento, mas que vai moldar o futuro do nosso mercado."

O executivo ainda comentou suas percepções sobre o futuro dos shoppings centers que, segundo ele, devem se tornar cada vez mais pontos de encontro que oferecem experiências de compra diferenciadas e "sem atritos" como pagar e carregar.

"A beleza do nosso negocio é que ele é uma equação muito complexa e que tem a capacidade de se transformar ao longo do tempo. Você começou com moda e acessórios, daí introduziu o lazer, depois alimentação, ampliou para os serviços...", relembra Jereissati. "O que veremos daqui pra frente, eu acredito, é uma melhora constante da experiência do cliente, transformando o ponto de venda cada vez mais em um espaço de baixo atrito. A parte chata, de pagar e carregar, está ficando cada vez mais fácil."

Prestes a deixar o cargo de CEO do grupo Iguatemi, Jereissati filho diz que, apesar do sobrenome - seu tio, Tasso Jereissati, é ex-governador do estado do Ceará, senador e ex-presidente nacional do PSDB -, não pretende entrar para a política tradicional. "Quero continuar contribuindo para o crescimento do país, mas não através da política partidária, e sim pelo interesse de fomentar boas lideranças públicas no país e para que possamos desenvolver o país através delas", disse.

Confira a entrevista completa com Carlos Jereissati Filho, CEO do Iguatemi:

Por que promover o  Iguatemi Fashion Talks? Qual a importância desse evento para o mercado da moda brasileiro?

Há mais de uma década eu participo de uma conferências de moda pelo mundo, e sempre senti falta de um espaço de debates relevantes no Brasil. Entendo que o Iguatemi é um palco muito legítimo para esse tipo de coisa no Brasil. Somos uma empresa transacional, mas sempre tivemos uma preocupação de difundir conhecimento e de conectar o Brasil com o mundo, promovendo discussões que provocam. Agora, por exemplo, teremos a Sinéad Burke falando sobre moda e acessibilidade. É um aspecto, como muitos outros que estão na programação do Fashion Talks, que não é tão visível no momento, mas que vai moldar o futuro do nosso mercado.

Do outro lado, como os gringos nos enxergam? Como os palestrantes reagem a um convite nosso?

Eles têm muita vontade de conhecer o Brasil, de entender o país e trocar com nós, brasileiros. Principalmente com discussões de alto nível, que sempre interessam muito a esses palestrantes internacionais. Somos um país extremamente importante no cenário da moda e temos uma identidade muito forte - embora o brasileiro às vezes não reconheça e não entenda essa relevância.

O que falta para o brasileiro gostar do Brasil?

Toda vez que o Brasil cresce economicamente, se mostra 'dando certo', cresce a autoestima brasileira e cresce a vontade de olhar para o que temos de bom aqui. Quando é o contrário, acabamos esquecendo um pouco. Mas nessa geração, eu vejo que existe esse desejo de ter uma identidade mais forte. Talvez o que falta é isso: o país crescer economicamente, se inserir no mundo de uma forma positiva e dar esse entusiasmo para o brasileiros. Toda vez que temos esse elemento na equação, nos fortalecemos e acreditamos mais na gente do que lá fora. Estamos em busca desse resgate.

Apesar dos pesares, o mercado de luxo brasileiro foi muito bem mesmo com a pandemia. Que balanço você faz desse período?

O contexto da pandemia, que reteve os brasileiros no país, mostrou que se todos ficassem e gastassem por aqui, o nosso mercado seria muito maior. Realmente, foi um sucesso: cresceu a venda de produtos estrangeiros, várias marcas dobraram o faturamento (o que foi um ponto importante)... Boa parte desse crescimento vai permanecer porque houve uma conexão com as marcas daqui, com o serviço, e isso tem um valor muito significativo e, de certa forma, permanente. O luxo é caracterizado pela qualidade, pelo acabamento, unicidade, originalidade, e vai se transformando conforme o desejo das novas gerações. A moda, por exemplo, está cada vez mais casual, mas sem deixar de lado a qualidade e o acabamento.

Uma das questões trazidas pelas novas gerações, aliás, é a preocupação com a sustentabilidade. Qual a sua leitura dessa demanda?

Essas novas gerações compram menos, mas compram coisas que duram e que podem ser recicladas. Esse movimento faz com que você preste atenção na peça, invista mais na qualidade e que depois você possa reciclá-la. É isso que gera desejo hoje. É uma mudança clara dessa geração e que vai ter impacto em favor de menos volume e mais qualidade e recirculação dessas mercadorias ao longo do tempo. Isso é o ponto extremamente importante para ser olhado daqui para o futuro.

O quão distante é esse futuro? Em quanto tempo vamos chegar lá?

Quando você falava de carro elétrico há 20 anos, as pessoas não acreditavam, e hoje é uma realidade. Tem muita coisa que você olha no horizonte e parece bobagem, mas precisa ter muito cuidado, porque essa semente que existe ali é o grande ponto de transformação mais pra frente. Precisamos produzir menos, reciclar mais e garantir essa relação ao longo do tempo. Isso é algo muito perceptível na Europa, nos EUA também - duas grandes referências para nós. Na comida, na moda, na construção... É uma tendência que vai se situar de forma acelerada daqui pra frente.

E falando em uma moda mais casual... O mundo ficando cada vez mais básico é um desafio para o mercado de luxo?

A indulgência, o querer o que me faz bem, é uma grande tendência já há muito tempo. Mas isso não quer dizer que você não quer um grande tecido, um belo design, uma qualidade atemporal... As pessoas querem um tênis, mas os tênis estão se sofisticando de uma tal forma, as tecnologias do design, os diferentes materiais... A tecnologia tem dado esse suporte para a moda ser extremamente casual, mas também muito sofisticada nos materiais, para proporcionar esse conforto, mas com um 'toque' a mais.

Os shoppings sobreviveram à pandemia, mas também foram transformados por ela. Que lições que ficam desse período?

A beleza do nosso negocio é que ele é uma equação muito complexa e que tem a capacidade de se transformar ao longo do tempo. Você começou com moda e acessórios, daí introduziu o lazer, depois alimentação, ampliou para os serviços... O Shopping no Brasil é algo muito central. Diferente dos EUA, onde eles são afastados dos grandes centros, nós somos parte integrante do cotidiano das pessoas, que nos visitam por várias razões. É um grande ponto de encontro, porque tudo se faz por aqui. O que veremos daqui pra frente, eu acredito, é uma melhora constante da experiência do cliente, transformando o ponto de venda cada vez mais em um espaço de baixo atrito. A parte chata, de pagar e carregar, está ficando cada vez mais fácil.

Depois de mais de 20 anos, você está deixando o cargo de CEO no Iguatemi. Quais os planos?

Eu vou continuar na companhia. Já faço parte do conselho, que agora vai ser muito mais estruturado, com uma governança nova, para continuar apoiando o crescimento da companhia como eu fiz nos últimos 20 anos. É igualmente importante sabermos a hora de chegar e sair, e meu tempo de contribuição foi importantíssimo para mim e para a companhia de modo geral.

Uma eventual participação sua na política é algo possível nesse seu novo momento?

Pelo meu sobrenome, é natural que exista essa curiosidade. Nós sempre tivemos uma preocupação de olhar além da nossa companhia e dos nossos interesses específicos. Minha família sempre teve uma participação forte no desenvolvimento do Brasil. Isso continua, mas no meu caso não através da política partidária, mas pelo interesse de fomentar boas lideranças públicas no país e que possamos desenvolver o país através delas.

 

 

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