Por que ladrões estão roubando catalisadores de carros?

Nos EUA, a polícia relata um aumento no número de casos. Em St. Louis, no Missouri, os roubos aumentaram mais de oito vezes, de 50 em 2019 para 420 no ano passado

Michael Kevane, professor de Economia em San Jose, na Califórnia, não estacionou seu Toyota Prius 2005 na sua garagem em uma noite chuvosa em janeiro. Na manhã seguinte, quando seu filho Elliot foi ligar o carro, "parecia uma britadeira. O quarteirão inteiro podia ouvir o barulho", disse Kevane.

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A razão: à noite, um ladrão levara o conversor catalítico, ou catalisador, do carro, dispositivo crítico de controle de emissões que contém metais mais valiosos que o ouro.

Dois dias depois, a irmã de Kevane, Jean, que mora em Los Angeles, teve o catalisador roubado de seu Honda Accord LX 2003. "Pensei: 'Isso não pode ser uma coincidência'", contou Kevane.

E não era.

Regras mais rigorosas sobre as emissões dos carros em todo o mundo – particularmente na China, que nos últimos anos está determinada a controlar seu terrível problema de poluição do ar – aumentaram tremendamente a demanda pelos metais preciosos dos conversores catalíticos. Isso levou às alturas o preço de alguns dos metais usados no dispositivo – como o paládio e o ródio.

Os preços em alta podem estar acelerando a mudança para carros elétricos, disseram analistas, observando que os catalisadores perfazem agora uma proporção muito maior do custo de um veículo movido a gasolina do que há apenas um ano.

O preço dos metais, por sua vez, está abastecendo um mercado negro de catalisadores roubados, que são facilmente retirados de um carro e custam centenas de dólares em um ferro-velho, que depois os vendem a recicladores que extraem os metais. Essas tendências globais de regulamentação de emissões, mercados de metais e furtos parecem ter atuado naquela noite chuvosa na rua de Kevane.

Nos EUA, a polícia relata um aumento no número de casos. Em St. Louis, no Missouri, os roubos de conversores catalíticos aumentaram mais de oito vezes, de 50 em 2019 para 420 no ano passado, com a tendência ganhando velocidade perto do fim do ano até o início de 2021. Em Lexington, na Carolina do Sul, os xerifes responderam a 144 roubos dessas peças entre julho e dezembro, quase o triplo do número de casos no período anterior.

O Prius de Michael Kevane em oficina na Califórnia

O Prius de Michael Kevane em oficina na Califórnia (James Tensuan/The New York Times)

Os roubos de conversores em Wichita, no Kansas, também quase triplicaram em 2020 em comparação com o ano anterior, de 191 casos para 547, e o ritmo aumentou em janeiro, com 102 notificações apenas naquele mês. (Outros departamentos de polícia, incluindo os de San Jose e Nova York, declararam não dispor de dados detalhados.)

"As pessoas estão apenas tentando sobreviver. Então, de repente, têm de pagar US$ 1.000 por um conserto que não esperavam. Também vimos esse aumento num período em que tivemos uma grande taxa de desemprego nos EUA", disse o sargento Trevor McDonald, da polícia de Wichita, acrecentando: "Temos um número finito de detetives, e parece que agora há um número infinito de casos."

Os conversores catalíticos, engenhocas brilhantes encontradas entre o motor de um carro e o silenciador, podem parecer um alvo improvável de uma onda de crime. A peça, obrigatória em todos os carros e caminhões a gasolina vendidos nos Estados Unidos desde 1975, tem o interior semelhante a um favo de mel – revestido de metais preciosos como paládio, ródio e platina –, que retém os piores poluentes tóxicos do escapamento do carro.

A presença desses metais sempre fez dos catalisadores um alvo, e os casos de roubo – que podem custar até US$ 2 mil aos proprietários – são registrados há anos. Mas uma tendência global de regras mais rígidas de emissões, além de um controle mais rigoroso depois do escândalo das emissões da Volkswagen, no qual a montadora modificou ilicitamente os controles de poluição de seus veículos para que parecessem mais limpos do que realmente eram, levou a um aumento na demanda de conversores catalíticos de maior desempenho e dos metais valiosos que os fazem funcionar.

O ródio, em particular, é eficaz na redução dos níveis de óxido de nitrogênio das emissões do escapamento de um carro a gasolina. "Tivemos um avanço muito acentuado nas regras relativas ao óxido de nitrogênio em todo o mundo", informou Wilma Swarts, da empresa de consultoria de pesquisa de metais preciosos Metals Focus, com sede em Londres.

A parte do carro de Michael Kevane na qual ficava o catalizador

A parte do carro de Michael Kevane na qual ficava o catalizador (James Tensuan/The New York Times)

Cerca de 80 por cento da demanda por paládio e ródio agora vem do setor automotivo. Ao mesmo tempo, os efeitos da pandemia na mineração na África do Sul, grande produtor de ródio, mantiveram a oferta limitada. "É por isso que vemos esse aumento dramático na demanda e nos preços", observou Swarts.

Para as montadoras, o boom dos metais elevou o custo de produção de veículos a gasolina. Max Layton, analista de commodities do Citi em Londres, estima que a alta dos preços adicionou US$ 18 bilhões aos custos de produção da indústria automobilística global em 2019, devorando 15 por cento de seu fluxo total de caixa, e que esses custos aumentaram ainda mais em 2020.

Ao preço atual, segundo ele, a indústria como um todo estava preparada para gastar mais de US$ 40 bilhões este ano apenas em metais para catalisadores, e os custos crescentes estavam "pressionando as montadoras a mudar para veículos elétricos a bateria o mais rápido possível".

Alguns proprietários de veículos a gasolina estão indo ao extremo para proteger seus veículos.

Depois de ter seu catalisador roubado três vezes seguidas no ano passado, Jerry Turriff, proprietário do Jerry's Certified Service and Towing em Milwaukee, no Wisconsin, decidiu esvaziar os pneus de alguns dos veículos mais visados de seus clientes para impedir que os ladrões tivessem acesso por baixo. "É inacreditável. Agora, se tenho um veículo que acho que vai ser alvo, esvazio os pneus para que eles não possam entrar por baixo", contou Turriff.

J.C. Fontanive, escultor na cidade de Nova York, comprou um Prius usado em 2008 no verão do Hemisfério Norte, estimulado pela preocupação em usar o transporte público durante a pandemia. Então, em janeiro, foi com ele à casa de um amigo e "o barulho parecia o da Nascar", comparou ele.

Fontanive não tinha cobertura completa do seguro, por isso teve de pagar US$ 3.200 pela substituição e pelos reparos – metade do preço que havia pagado pelo carro.

Determinado a deter futuros ladrões, Fontanive, que muitas vezes usa metal em suas obras de arte, valeu-se de suas habilidades em metalurgia. Comprou um protetor de metal para seu catalisador e fez as próprias modificações, com parafusos de segurança e pinos de aço que dificultariam o acesso. "Realmente exagerei. Se olharem debaixo do meu Prius agora, vão dizer: 'Não é possível!'"

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