Pela 1ª vez na história, SPFW terá cota racial para negros e indígenas

As marcas participantes serão obrigadas a trazer diversidade étnica para a passarela --- e quem desrespeitar a norma poderá ser banido das próximas edições
 (Pétala Lopes/Getty Images)
(Pétala Lopes/Getty Images)
Por Matheus DoliveiraPublicado em 30/10/2020 12:52 | Última atualização em 30/10/2020 12:52Tempo de Leitura: 4 min de leitura

A São Paulo Fashion Week (SPFW) está dando um passo histórico no mundo da moda. Pela primeira vez desde a primeira edição do evento, em 1995, as marcas participantes serão obrigadas a levar, pelo menos, 50% de negros, afrodescendentes e indígenas para as passarelas. A medida já vale para a edição 2020, que devido à pandemia, terá um formato totalmente virtual e itinerante.

Até o ano passado, a SPFW sugeria às marcas que pelo menos 20% dos modelos que desfilam no evento fossem negros, afrodescendentes, indígenas e asiáticos. O pedido, no entanto, era informal e não obrigatório. Mas a partir deste ano, as grifes que não cumprirem a cota de 50% poderão ser banidas de edições futuras da SPFW.

SPFW: a edição 2020 acontece entre 4 e 8 de novembro. (Gamma-Rapho/Getty Images)

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, que teve acesso ao documento sobre o código racial do evento, o fundador e diretor criativo da SPFW, Paulo Borges, falou sobre a necessidade de formalizar as medidas de inclusão racial no evento, e não mais sugeri-las às marcas. "Não posso fazer leis, mas dentro do ambiente que fomentamos é possível haver regras. Nas conversas que tivemos, uma das coisas que prometi de partida era que não era mais possível recomendar coisas quando se fala em equidade racial, isso foi entendido por todo mundo", disse.

A edição 2020 da SPFW acontece entre os dias 4 e 8 de novembro. Com a decisão, a semana de moda paulistana passa a ser a primeira do mundo a aderir formalmente o compromisso de ter mais diversidade étnica em seus desfiles.

SPFW: os negros ainda são minoria nos desfiles de moda. (Gamma-Rapho/Getty Images)

A cobrança para que a moda comece a retratar a diversidade étnica presente na sociedade é antiga entre uma boa parcela daqueles que acompanham o universo e até mesmo entre algumas marcas que o compõe. Segundo Borges, nenhuma grife desistiu de participar do evento depois do novo regulamento. "Chegamos no ponto de deixar de criar frases e passamos a partir para a ação", disse ele a Folha de S.Paulo. 

Virtual e itinerante 

Assim como fizeram todas as semanas de moda e festivais de cinema ao redor do mundo, a São Paulo Fashion Week deste ano ganhará um formato digital. A semana de moda não se resumirá, porém, a desfiles transmitidos digitalmente, mas a uma ocupação da capital paulista por meio de projeções em dois prédios, um no cruzamento da Avenida Paulista com a Rua da Consolação, e um outro nas imediações da Funarte, no centro de São Paulo. Com seis novas marcas em uma programação que totaliza 34 apresentações, entre as quais se destacam a Irrita, da estilista e ex-Neon Rita Comparato, a Misci, do arquiteto Airon Martin, e a ÀLG, do empresário Fábio Souza e que tem Alexandre Herchcovitch na criação, esta edição irá comemorar sobre rodas os 25 anos do evento.

Serão seis novas marcas e 34 apresentações (Marcelo Soubhia/Fotosite/Divulgação)

O movimento itinerante será feito no período da noite, entre 17h e meia-noite, em ciclovias e avenidas das diferentes regiões da cidade. A ideia, que responde a uma crítica histórica feita ao evento por supostamente ele ser fechado demais em sua própria bolha, é que a capital reconheça o legado deste que é considerado o maior evento de desfiles de moda da América Latina. “Pensamos numa forma de aproximar as pessoas, e qual seria a melhor forma de ocupar a cidade neste momento”, disse Paulo Borges em coletiva de imprensa.

Até as polêmicas recém-inauguradas fontes do Vale do Anhangabaú entrarão no jogo com um espetáculo de luzes em comemoração aos um quarto de século do evento.