CRÍTICA | O Agente Secreto (Vitrine Filmes/Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 06h01.
No meio do sertão pernambucano, durante o Carnaval, um fusca amarelo corta a estrada e para em um posto de gasolina. Logo à frente das bombas está o corpo de um homem morto, coberto com pedaço de papelão, sem rosto nem identidade. Com uma naturalidade (e brasilidade) que fazem a situação parecer corriqueira, o dono do posto grita para afastar os cachorros que rodeiam o corpo, enquanto o cliente, dentro do carro, tapa o nariz, perplexo.
O momento, meio cômico e meio desesperador, é um reflexo de uma época do Brasil “cheia de pirraça”, como descreve o diretor Kleber Mendonça Filho na cena de abertura de O Agente Secreto, seu novo filme, que concorre a quatro estatuetas do Oscar de 2026. Dentro do fusca, um Wagner Moura desconfiado interpreta Marcelo, a caminho de Recife, fugindo de algo. É um de seus maiores papéis na última década, segundo Juliette Binoche, que, na função de presidente do júri do Festival de Cannes, concedeu a ele e a Kleber os prêmios de Melhor Ator e Melhor Direção, em junho passado.
O filme figura em primeiro lugar no ranking dos 50 Melhores Filmes do Ano da Casual EXAME, que ouviu 124 especialistas em cinema. Depois da maratona de premiações em 2025, chega sedento por uma estatueta no Oscar de 2026, à qual concorre em quatro categorias: Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Filme, a maior premiação da noite.
É representativo (e poderoso) que o primeiro lugar seja ocupado por um filme do Brasil. Ainda mais porque esse tem, do roteiro à cenografia, um DNA tão autenticamente brasileiro, sarcástico, nordestino e provocativo — ao melhor estilo das obras de Kleber Mendonça Filho.
O público, de início, pouco sabe sobre o enredo da trama, quem é aquela pessoa e do que ela tanto foge. Mas a trajetória dela, assim como o entorno do que acontece naquela cidade, apresenta um retrato da maneira como as coisas eram conduzidas no Brasil em 1977. Apesar de não fazer uma citação direta ao regime militar, Kleber colocou nas entrelinhas o autoritarismo do governo e sua influência na memória do país e dos brasileiros. Em especial no Nordeste.
Para além de um roteiro sedutor, o longa traz um casting primoroso. Tânia Maria brilha nas cenas cômicas, Alice Carvalho imprime sua potência nordestina e Kaiony Venâncio protagoniza uma das melhores sequências de perseguição do cinema brasileiro moderno. São atuações coadjuvantes que engrandecem o trabalho de Wagner Moura como protagonista.
Tem destaque também a trilha sonora, com a presença de músicas de Zé Ramalho, Lula Cortês e o brega de Waldik Soriano, além da cenografia, que mostra um Recife suado, colorido, autêntico e “cheio de pirraça”, nas palavras de Mendonça.
Direção: Kleber Mendonça Filho | Elenco: Wagner Moura, Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone País: Brasil | Onde assistir: em cartaz nos cinemas