'Não vamos fazer dívida para ganhar título', diz presidente do Cruzeiro

Sérgio Santos Rodrigues diz que 'não haverá farra' com o investimento de R$ 400 milhões de Ronaldo e que o clube deu o primeiro passo para que o futebol seja tratado como negócio no país
Ronaldo com o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, no anúncio da compra de 90% da Sociedade Anônima de Futebol do clube pelo ex-jogador (Cruzeiro Esporte Clube/Divulgação)
Ronaldo com o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, no anúncio da compra de 90% da Sociedade Anônima de Futebol do clube pelo ex-jogador (Cruzeiro Esporte Clube/Divulgação)
Marcelo Sakate
Marcelo SakatePublicado em 23/12/2021 às 12:55.

A notícia da compra de 90% do Cruzeiro pelo ex-atacante Ronaldo "Fenômeno" ganhou destaque na imprensa e nas redes sociais nos últimos dias. Para uma parcela estimada em 9 milhões de pessoas que torcem para o clube mineiro, o anúncio alimentou a expectativa da formação de um esquadrão de estrelas para que o time possa voltar a disputar títulos já na próxima temporada. Mas o presidente do Cruzeiro, Sérgio Santos Rodrigues, faz o alerta: o clube terá disciplina com as despesas no momento de montar o elenco e a comissão técnica para os próximos anos.

"Vamos ter os pés no chão. Não é porque o Ronaldo está vindo para o clube que vamos gastar 400 milhões contratando jogadores caros e trazendo de fora. Isso com certeza não vai acontecer", disse Rodrigues em entrevista à EXAME.

Ronaldo vai desembolsar 400 milhões de reais pelo equivalente a 90% da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) recém-criada para administrar o futebol do Cruzeiro. A figura jurídica da SAF, por sua vez, só se tornou possível em agosto passado com a nova Lei do Clube-Empresa, cujo projeto foi aprovado no Congresso no mês anterior.

Rodrigues assumiu o Cruzeiro em junho de 2020, momento em que o tradicional clube mineiro disputava a Série B (o equivalente à segunda divisão) do Campeonato Brasileiro pela primeira vez em sua história depois do rebaixamento em 2019. Em 2020 e neste ano, o clube não conseguiu reconquistar uma vaga na elite do futebol nacional.

Nesse meio tempo, o executivo teve papel de destaque na interlocução do "mundo do futebol" com deputados e senadores durante a tramitação do projeto de lei que viabiliza a transformação de clubes nas SAFs.

Ao se referir à política de "pés no chão", Rodrigues lembrou que a nova lei determina que 20% das receitas e 50% dos lucros e dividendos obtidos pela SAF deverão ser obrigatoriamente destinados ao pagamento de dívidas do clube que deu origem às sociedades anônimas. No caso do clube mineiro, a dívida está perto de 1 bilhão de reais.

"Não podemos mais tocar o futebol na linha do 'gasta, gasta, gasta, não paga ninguém, cria dívidas e se ganhar título é bem-visto'. Precisamos administrar o futebol como um negócio", disse o presidente do Cruzeiro, que é advogado de formação, mestre e doutorando.

Veja a seguir a entrevista com o presidente do Cruzeiro:

Qual a destinação dos 400 milhões de reais anunciados como valor da transação em que o ex-jogador Ronaldo adquiriu 90% das ações da SAF?

São 400 milhões de reais para tocar a operação da SAF. Temos compromissos como dívidas com a Fifa, salários etc. para pagar. Esse dinheiro entra como investimento na SAF e parte será usada para pagar as dívidas do Cruzeiro. Por exemplo, no ano que vem temos que pagar uma dívida de cerca de 50 milhões de reais com a Fifa pela contratação do Rodriguinho. É um dinheiro que será utilizado em até cinco anos.

Afinal, quem vai desembolsar esse valor?

O Cruzeiro tem a garantia de que vão entrar 400 milhões de reais em até cinco anos. Pode ser dinheiro do Ronaldo ou a empresa dele pode captar com investidores. A forma como vai ser depende dele.

Na Inglaterra, a entrada de empresas de investimento sem ligação com o país ou o futebol em alguns clubes causou resistência e protestos por parte de torcedores. Houve alguma discussão nesse sentido com o Ronaldo? 

Nenhuma. Mas o Ronaldo é conhecedor do futebol brasileiro e do Cruzeiro e vai tomar as melhores decisões.

Nos últimos dias, muito se tem falado do impacto desse investimento e da entrada do Ronaldo como dono do Cruzeiro. O que o torcedor pode esperar de forma realista e o que ele não deve esperar?

Desde que eu assumi, eu sempre disse que o problema do Cruzeiro é financeiro. O torcedor pode esperar uma solução para esse problema, na medida em que não teremos mais salários atrasados, punição com a proibição para contratar jogadores etc. Tenho certeza de que isso será resolvido com esse aporte financeiro.

O que ele não deve esperar é algo que o próprio Ronaldo disse, mas que foi mal interpretado: 'não temos nada para comemorar ainda'. Claro que tem. O que ele quis dizer é que vamos ter os pés no chão. Não é porque o Ronaldo está vindo para o clube que vamos gastar 400 milhões contratando jogadores caros e trazendo de fora. Isso com certeza não vai acontecer.

O Ronaldo está vindo para mudar os parâmetros do futebol brasileiro, para fazer business. Não é o pensamento 'vou gastar dinheiro a rodo e não estou nem aí para a conta'. Isso é o mais importante e que o torcedor ponha os pés no chão. Não vai ser uma farra.

A chegada do Ronaldo como acionista controlador vai ajudar o clube a gerar mais receitas? Já houve algum impacto?

Tivemos uma repercussão muito positiva no mundo inteiro. Já apareceram empresas nos procurando com interesse em discutir patrocínio. E o nosso programa de sócio-torcedor 'bombou': temos de 17.000 a 18.000 sócios atualmente e recebemos mais de 4.000 novos pedidos nos últimos dias. Os efeitos da marca Ronaldo têm sido muito positivos.

Nosso patrocinador atualmente é o [Supermercados] BH, com material esportivo da Adidas. Em nosso contrato está a previsão de que, se aparecer uma proposta de valor maior do que o que recebemos, oferecemos ao patrocinador a chance de igualar. Se a empresa não quiser, devolvemos o que recebemos adiantado e mudamos.

Qual o poder e a voz que o senhor terá nas decisões sobre o futebol do Cruzeiro de agora em diante?

Zero. O Ronaldo e sua equipe vão responder por 100% das decisões. Eu vou ter um assento no conselho de administração [formado por três pessoas] representando o acionista minoritário que é o clube, que tem 10% das ações da SAF. Mas o Ronaldo terá toda a discricionariedade para tomar as decisões sobre o futebol.

Mas não haverá nenhum tipo de alinhamento ou de consulta ao senhor e ao clube nas decisões?

Nas reuniões de transição, que já começaram, eles estão nos ouvindo em algumas questões. Mas a decisão final será sempre deles de agora em diante.

A situação financeira frágil dos clubes brasileiros é uma realidade conhecida há muitos anos, até décadas. Mas a entrada de investidores sempre esbarrou na lei, que acabou de mudar, e na resistência de conselheiros dos clubes. Como foi o processo de convencimento para que isso se tornasse possível no Cruzeiro?

Foi algo tranquilo dada a situação em que o clube se encontra. Eu falava para os conselheiros mais resistentes: 'quem é que vai dar dinheiro? Não podemos depender de benesses sempre. Precisamos de algo estruturado, sólido'. Havia resistência, sim, mas no fim todos entenderam que, em nome do bem do Cruzeiro, que é algo que todos queriam, valeria a pena o negócio e acabou acontecendo. Presidentes de outros clubes já me procuraram para saber mais, interessados no novo modelo.

Qual a mensagem que o senhor gostaria de deixar com esse negócio da venda para o Ronaldo?

A mensagem é que precisamos mudar os parâmetros do futebol brasileiro. O futebol é uma paixão mas também um negócio. Não podemos mais tocar o futebol na linha 'gasta, gasta, gasta, não paga ninguém, cria dívidas e se ganhar título é bem-visto'. Precisamos administrar como um negócio e demos o primeiro passo para mudar isso no Brasil.

Como foram as negociações do clube com o Ronaldo?

Nós nos conhecemos no início do ano, em janeiro. Conversamos e ele foi muito receptivo, até publiquei no Instagram. Depois nos aproximamos com a intermediação da XP e voltamos a conversar. E, sem dúvida, a identificação do Ronaldo com o clube ajudou muito para que as coisas acontecessem. Chegamos ao acerto em três semanas de conversas.