Moda masculina tenta sair do isolamento, mas a sala de estar ainda impõe limites

Com o cancelamento das semanas de moda no ano passado, em 2021 a moda pandêmica ressurge nas passarelas digitais. Ermenegildo Zegna, Hermès, Louis Vuitton e Fendi são algumas das grifes que mesclam conforto e bons cortes em seus lançamentos

A pandemia não acabou, mas pode arrefecer. Foi essa a mensagem implícita que resumiu neste mês as coleções de outono-inverno 2021 das semanas de moda masculina. Por debaixo dos panos exibidos virtualmente por grifes com poder de fogo para balançar o tabuleiro de estilo, vê-se um misto de esperança com a vacinação -pelo menos nos países do hemisfério norte, onde giram mais da metade de suas vendas- e de racionalidade pela segunda onda de isolamento que ainda impede o trânsito das ruas.

Está faltando dinheiro para viajar? Investir na bolsa pode ser o primeiro passo. Conheça os cursos da EXAME Academy

Por isso, embora ainda sejam roupas mais para a luz da sala do que para a do dia, como mostraram as coleções do  verão passado, Dior, Prada, Hermès, Louis Vuitton e Fendi, agora botam um pé para fora da sala ao apostar um tom mais alto no balanço entre o guarda-roupa utilitário, cheio peças práticas e intercambiáveis, e o arroubo de fantasia faltante no último ano.

Foi a Ermenegildo Zegna, porém, que logo resumiu essa dualidade ao abrir os trabalhos no último dia 15, na semana de Milão. O filme apresentado pela marca italiana passeia pelos cômodos de um apartamento e pelo movimento solitário dos homens pelas ruas próximas a ele. O repertório de alfaiataria da marca foi explorado em detalhes, com lapelas, cortes retos, abotoamento nos punhos e propostas de cardigãs arquitetados como paletós, num híbrido do que pode ser usado tanto no sofá quanto na sala de reuniões.

Abolir a hegemonia da gravata e os costumes de lã fria é uma mudança radical que a grife, famosa entre poderosos, institui para um futuro próximo. Uma cartela masculina por definição, com tons crus, verde militar e cinza concreto como uma construção brutalista, dão verniz corporativo aos conjuntos que jogam fora a rigidez do passado.

Não há nada rígido no novo manual de estilo pós-pandêmico. Mesmo para uma grife que sempre pregou a renovação dos clássicos vinculados à estética do couro, como é o caso da francesa Hermès, a pandemia trouxe um olhar mais íntimo sobre a roupa do dia a dia.

Será inverno relaxado para a marca, marcado por calças que mais parecem pijamas, mas que quando mostradas de perto revelam a tesoura precisa da alfaiataria construída em couro; sobreposições de jaquetas e parcas com mangas alongadas cobrindo blusas de um xadrez de cores acesas; e uma série de tênis gráficos para diminuir o peso das camadas de roupas.

Esse seria o segredo dos novos tempos. Não será preciso esforço algum para combinar elementos, empacotar-se para causar boa impressão e pensar se uma cor combina com outra. Aqui, fala-se sobre a liberdade de estar solto por debaixo do casaco longo, este, por sua vez, cortado com precisão matemática para equalizar o aparente relaxo.
A estilista Véronique Nichanian é uma instituição que há mais de 30 anos senta na cadeira criativa da Hermès, para a qual levou um entendimento menos sisudo sobre a roupa masculina. Agora, o presente parece lhe dar oportunidade de estar ainda mais confortável em suas ideias.

Ela não jogou fora o repertório de selaria da grife, mas colocou a geometria, a lã nas golas, os bolsos e os zíperes a serviço do homem, não como adornos que justifiquem o repertório da etiqueta.  Numa das coleções mais bem construídas pela designer, os aviamentos atravessam colos, são costurados nas jaquetas sem saltar aos olhos e forram as peças com o propósito de facilitar a vida, e não como meros artifícios estéticos.

Essa mesma relação entre o que está por baixo e por fora também foi analisada pela Prada. Na primeira coleção masculina desenvolvida em parceria com Raf Simons, a marca cria “long johns”, aqueles macacões comuns à prática do surfe, para serem usados como segunda pele. Confortáveis, por vezes estampados com grafismos comuns ao legado da grife italiana, eles são a camada íntima que na rua só aparece cobrindo braços e pernas, mas em casa assumem uma função similar à da roupa de dormir.

Simons joga com as possibilidades de combinar essa derme com as proporções ampliadas na parte exterior. Jaquetas bomber, cardigãs, calças retas de alfaiataria, blazers com manga dobrada no braço e parcas cobrem os pijamões chiques para dar nova roupagem ao look descompromissado.

O abraço tátil que a roupa proporciona e ainda está interditado para a maioria resume bem outra coleção italiana. Na Fendi, a estilista Silvia Venturini questiona o que seria “normal” nos dias de hoje para lançar variações do reconhecível roupão de ficar em casa. Suas formas soltas servem de base para a linha de alfaiataria, que recebe o mesmo tratamento de costura e amarração desta que talvez seja a peça mais confortável do armário. O toque felpudo é substituído por nylon matelassado, o mesmo do uniforme de esquiar, que aparece em conjuntos de blusa e calça com barras encurtadas e também fazem par com bermudas soltas e jaquetas pesadas.

Mesmo no bloco mais comportado, repleto de conjuntos de alfaiataria ajustados ao corpo, a estilista mescla a composição aos tecidos com toque macio e os tinge com riscos e rabiscos coloridos. Sim, porque nem só de sobriedade vive esse inverno proposto pelas grandes marcas.

Maior e mais rica delas, a Louis Vuitton sonhou com os tempos em que viagens de avião eram possíveis e o guarda-roupa era mais divertido e diversificado. O estilista Virgil Abloh conseguiu misturar look de caubói, executivo e mafioso de filmes “noir” para viajar longe. Os costumes aparecem elegantes com riscas de giz, mas são pueris com fechos em formato de aeronave e broches-motocicleta, fazendo par com uma estampa na qual se vê uma pessoa feliz com sua sacola de compras.

Essa dúvida entre ir ou ficar no lugar move Abloh em seu estudo que mescla uniforme urbano, em casacos amplos cortados e construídos em tecidos firmes, e alfaiataria clássica, desconstruída com tecidos metálicos, tingimento craquelado e cores inusuais para o escritório. Há do bege ao roxo, do preto ao vermelho vivo.

Os pincéis também jorraram tinta nas ideias de Kim Jones, estilista da Dior Homme cujas roupas foram concebidas em parceria com o artista plástico Peter Doig. As paisagens abstratas e os desenhos que reverenciam a infância serviram como afagos às peças de inspiração militar, algumas cortadas como fraques, e aos conjuntos que reverenciam o uniforme clássico. Segundo consta, as formas e as insígnias da coleção têm como base os looks usados por artistas em cerimônias de posse na Academia de Belas Artes de Paris. Dessa forma, a pesquisa cai como uma luva na relação entre a austeridade do presente e o flerte com a sensibilidade artística proposta por Jones para esses tempos. Ele parece dizer: “a arte salva”.

Se salva ou apenas oferece consolo momentâneo, não importa tanto. O fato é que um toque de ingenuidade, o olhar menos agarrado às convenções e uma dose cavalar de bom humor são ferramentas potentes para uma saída rápida pela porta de casa. É isso que a moda mais quer agora.

De 0 a 10 quanto você recomendaria Exame para um amigo ou parente?

Clicando em um dos números acima e finalizando sua avaliação você nos ajudará a melhorar ainda mais.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.