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Nova Exame

Velejador Torben Grael dispara: “Você abre o jornal e é só um esporte"

Em entrevista à Exame, bi-campeão olímpico e campeão da regata de Volta ao Mundo reclama de falta de apoio ao esporte

Torben Grael, bicampeão olímpico (Atenas, em 2004, e Atlanta, em 1996), é o coordenador técnico da equipe brasileira de vela olímpica desde 2013 e, segundo ele, na pandemia tem sido “um desafio manter os atletas motivados e conseguir condições para que se preparem adequadamente” para os Jogos Olímpicos de Tóquio (2021) . “Mas a equipe é muito boa”, garante.

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E a pandemia parece não ser a única inquietação do atleta. Esporte brasileiro com mais ouros olímpicos, segundo em número total de medalhas e com os dois maiores medalhistas olímpicos brasileiros de todos os tempos (Robert Scheidt e Torben Grael), a vela sobrevive do apoio da Lei Piva (2001) e, de acordo com o entrevistado, poucos patrocinadores. “Os atletas com patrocínio são os que já têm resultado e, mesmo assim, o nível de patrocínio não se compara a outros esportes que não têm os mesmos resultados. Se a gente tivesse o nível de patrocínio um pouco melhor, quem sabe os resultados não seriam até melhores?”, provoca. O efeito desse pouco apoio, no entanto, é ainda mais sério quando se pensa no estímulo para as novas gerações à prática do esporte e à escolha da carreira esportiva na vela.

Segundo Torben, é desconcertante que o Brasil, país de dimensões continentais, com uma extensão litorânea de cerca de oito mil quilômetros, pratique e compreenda tão pouco seu esporte.

“Se a mídia só quer mostrar o que dá retorno pra ela, o público só entende o que ela mostra. E cabe à mídia diversificar. Você abre o jornal e é só um esporte, que não é esporte, é uma religião. O que, em geral, é ruim porque fica uma coisa repetitiva”, adverte, fazendo obviamente uma alusão ao futebol.

Torben também considera que a desigualdade social gera um público distante do esporte. Segundo ele, esse aparente desinteresse desestimula os aportes publicitários dos quais depende a mídia que realiza as transmissões.

“Aqui, a vela é mais elitista, embora a questão de ‘elitista ou não’ dependa do ponto de vista. Em vários países, como na Nova Zelândia ou na Holanda, a vela é superpraticada. Mas no Brasil, onde a pirâmide econômica é tão desequilibrada, com uma classe média muito pequena, o esporte vira coisa de elite. Aliás, praticamente qualquer coisa é de elite. Como o tênis, por exemplo. Não é um problema do esporte, é um problema da distribuição de riqueza neste país", reflete ele, co-fundador do Projeto Grael, que aposta no estímulo à prática da vela como uma contribuição a essa descoberta do esporte pelos brasileiros.

A ONG, que já atendeu 17 mil alunos nos últimos 22 anos, contribui para a transformação social de jovens e crianças da rede pública de ensino, que são educadas por meio da vela e preparados para o mercado de trabalho. São cerca de 350 atendidos por semestre, com idades entre 9 e 29 anos, formados nos cursos e programas de Desenvolvimento Esportivo (Natação, Vela e Canoagem), Oficinas Náuticas (Capotaria, Carpintaria, Fibra de Vidro, Mecânica de Motor Diesel, Mecânica de Motor de Popa, Instalações Eletro–eletrônicas para Barcos).

Assista ao trecho da entrevista em vídeo:

Analogia com a vida
Após 30 anos como profissional da vela, pódios internacionais carregando a bandeira brasileira e mais de 96 mil milhas náuticas (177 mil quilômetros) percorridas ao redor mundo, Torben Grael dá aula de vida e o que ele diz faz pensar.

“O esporte da vela tem muita analogia com a vida da gente. Em uma regata, por exemplo, a gente tem as regras. Se alguém infringe uma regra na largada, cabe a quem se sentiu prejudicado fazer um protesto. Tem uma comissão que vai julgar o caso apresentado pelo protestante e, do outro lado, tem a defesa do protestado. Também  é possível levar testemunha. Então, é muito educativo desde as categorias de base. Se você não cumprir as regras, deve ser penalizado. Algo que deveria ser uma constante no Brasil, mas nem sempre é assim no nosso país”, lamenta.

Torben é pai de Marco e Martine, que desde pequenos demonstravam interesse em seguir os passos do pai e do tio, Lars Grael (bronze olímpico em Atlanta, 1996, e Seul, 1988). Atualmente, ela, já campeã olímpica, e o irmão buscam o ouro em Tóquio 2021 na categoria 49er FX e despontam mundialmente como fortes nomes do esporte .

Velejar: uma experiência compartilhada
O mundo da vela é um ambiente que costuma aproximar pessoas, principalmente porque, no mar, a ajuda mútua é uma regra de comportamento. Além disso, seja em momentos de lazer entre amigos ou no esporte de competição, velejar é uma experiência para ser compartilhada, inclusive, em família.

Por isso, segundo Torben, a paixão dos filhos pelo universo náutico foi natural desde os primeiros anos de vida no pequeno clube de Niterói que frequentam, um espaço quase que exclusivamente dedicado ao esporte da vela.

“Aprendemos a velejar com meu avô e, até hoje, temos o barco dele, onde meus filhos também começaram a praticar”, recorda, sobre o Aileen, veleiro clássico, de 108 anos, que disputou os Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912), pela Dinamarca.

“Como velejar é muito gostoso, a gente quis que os filhos curtissem a paixão que a gente tem pelo mar e pelo esporte da vela. E, na época em que eles estavam começando, tinha um grupo de crianças que começou junto. A questão do grupo é muito importante, eles gostavam da bagunça de campeonato e, obviamente, curtem competir. Hoje, vários são da vela olímpica e a coisa foi sozinha”, orgulha-se. “Nesse aspecto, a vela é superdemocrática : você pode praticar desde pequenininho, passeando e tal, até chegar a uma idade avançada”, completa.

Rudá/CBVela comandado por Torben Grael

Rudá/CBVela comandado por Torben Grael (Aline Bassi/Divulgação)

Nova geração em busca de adrenalina
Enquanto o barco é para todas as idades, as novas regras internacionais do esporte, que devem entrar em vigor nos Jogos Olímpicos de Paris (2024), focam na juventude.  “As classes e os equipamentos vão sofrer mudanças e vamos ver como a gente se adapta. São mudanças positivas, no anseio dos jovens, em busca de mais adrenalina e mais dinamismo, mais velocidade. É o que o jovem de hoje almeja”, valida.

O tema é controverso no mundo náutico, já que classes tradicionais, como a Star,  vêm sendo excluídas das competições olímpicas. “São mudanças que vêm ocorrendo na vela desde as primeiras olimpíadas, que tinham tripulações gigantes de 12 pessoas. Hoje, temos barcos pequenos, rápidos, dinâmicos. É um caminho sem volta”, opina.

Torben se refere a barcos com hidrofólios, que, em altas velocidades, suspendem o casco acima da água, como na classe Nacra. “Fica muito acrobático e dinâmico. Mas ainda não velejei nele porque não tive oportunidade”, emenda o veterano.

Recorde em volta ao mundo: coisa de família
As conquistas e o legado de Torben são surpreendentes. Ele é o tipo de atleta que se destaca em dupla ou liderando tripulações enormes. Líder (skipper) do Brasil 1, único veleiro brasileiro a participar da antiga Volvo Ocean Race 2005-06, ele alcançou o pódio com um 3º lugar na única participação do país na mais exigente e competitiva regata oceânica do mundo.

O feito o qualificou para liderar a equipe do time Ericssom4, campeã da edição 2008-09. Nessa ocasião, Torben foi o responsável pelo recorde mundial de singradura (distância percorrida em 24h), que só foi batido após 10 anos, pelo veleiro, na mesma regata, tripulado por sua filha Martine.

É muito difícil sequer imaginar o que significa percorrer à vela sobre a água do mar, 1.100 km em um dia. Quando Martine narrou, em seu blog, a experiência, ela desabafou: "estamos todos em pedaços".

Isso porque em competições desse tipo, realizadas em barcos com velas gigantescas, içadas em mastros com a altura de um edifício de 10 andares (30m), as equipes estão em busca, para o melhor desempenho da velocidade, das condições mais tempestuosas possíveis.

Todo mundo enjoa
Na ocasião da entrevista, Torben participava do Campeonato brasileiro de vela, realizado pela Associação Brasileira de Vela Oceânica (Abvo), em parceria com o Iate Clube de Santos e o Iate Clube do Rio de Janeiro. Apesar das condições adversas das regatas finais, com trajetos na histórica 70ª Santos-Rio e Circuito Rio marcados por excesso e falta de ventos, ele aparentava estar em excelentes condições físicas. Afinal, é o que se espera de um atleta olímpico, certo?

“Ah, mas eu mareio (enjoo)”, diverte-se. “Na Santos-Rio, no comando do veleiro CBVela/Rudá, cozinhei para doze pessoas. Mas conseguir fazer um macarrão com onda e tudo é complicado, até porque não tinha equipamento muito adequado. Também fui limpar o banheiro, que estava em estado de calamidade. Tinha um monte de meninas a bordo e tinha que estar de acordo. Então, só o cheiro do banheiro já te leva a ficar bem ruim; mas fico bom logo”, finaliza.

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