Brasil na Netflix: país é um dos que mais se assiste na tela (Netflix)
Repórter de Casual
Publicado em 16 de julho de 2026 às 18h07.
Última atualização em 16 de julho de 2026 às 18h27.
No último ano, o mercado audiovisual brasileiro alcançou um novo patamar de relevância global, com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto. Ambos os filmes foram indicados ao Oscar, passaram dos US$ 18 milhões em bilheteria e levaram milhões de pessoas às salas de cinema. Mas a tendência de ver-se em tela, ao que tudo indica, seguiu para o streaming.
Dados inéditos obtidos em primeira mão pela EXAME revelam que o consumo de conteúdo brasileiro na Netflix, entre produções originais e títulos licenciados, cresceu 39% em horas assistidas em todo o mundo nos últimos 12 meses.
Com o desempenho, o Brasil consagrou-se como o país com o maior crescimento em horas vistas de seu conteúdo local entre todas as nações da América Latina.
O motor dessa escalada global no primeiro semestre foi a série Emergência Radioativa. A produção, que retrata a tragédia histórica do acidente com o Césio-137 em Goiânia, conquistou o público internacional e garantiu um lugar no Top 50 de shows mais vistos no mundo no período. No total, acumulou 22 milhões de visualizações.
O esporte brasileiro também mostrou força com a série documental Ronaldinho Gaúcho, que se posicionou entre os 10 mais assistidos no mundo nos primeiros seis meses do ano.
Ambos os títulos se somam a sucessos recentes de audiência em língua não inglesa, como Donos do Jogo, Senna e o longa Caramelo, que figuram entre os mais vistos em regiões diversas como Europa, Ásia e outros países da América Latina.
O apetite global pelas histórias brasileiras reflete um investimento da empresa na estruturação do mercado local. Desde a estreia de 3% em 2016 — a primeira série original brasileira da plataforma —, a Netflix injetou uma série de recursos que movimentaram a economia criativa do país.
Em entrevista exclusiva à Casual EXAME, Francisco "Paco" Ramos, vice-presidente de conteúdo da Netflix para a América Latina, revelou que a operação da companhia já empregou cerca de 50 mil pessoas no Brasil.
"Do total, foram 20 mil profissionais contratados para o elenco e equipes de produção, além de um adicional de 30 mil extras e contratos diários", detalhou Ramos.
A abertura desses números pela Netflix estabelece uma métrica inédita de transparência no setor, uma vez que concorrentes diretos como Prime Video, HBO Max e Disney+ não compartilham dados de empregabilidade.
Para Paco Ramos, o amadurecimento técnico do mercado nacional é nítido: "essa geração de empregos nos permite que, se antes tínhamos um processo mais lento e difícil para produzir uma série, hoje conseguimos entregar várias no ano, trabalhando com diversas produtoras e milhares de pessoas nos elencos e equipes."
Para além das produções originais de seu selo, a Netflix tem apostado no licenciamento de grandes obras do cinema nacional para compor a vitrine global. Nos últimos 15 anos, a empresa licenciou mais de 1.000 títulos brasileiros de 80 parceiros locais diferentes.
São bons exemplos lançamentos como Homem com H, O Último Azul, vencedor do Urso de Prata, e O Agente Secreto — este último indicado a quatro estatuetas do Oscar no início deste ano.
A chave para atrair diretores consagrados no circuito de festivais internacionais (como Cannes e Veneza) tem sido a flexibilidade contratual. Ramos enfatiza que a plataforma não impõe um modelo de negócios único e respeita o desejo dos criadores de manter a propriedade intelectual das próprias obras.
"Se o diretor prefere manter a propriedade e nos conceder uma janela de exibição, nós sentamos e desenhamos o acordo. Forçar uma visão artística apenas para agradar a plataforma resulta em divórcio criativo", pontuou o executivo.
A diversidade de catálogo tem ajudado a desmistificar a percepção de que o público latino consome apenas comédia e melodrama. O Brasil já se posiciona como um dos três maiores mercados da Netflix no mundo.