Durante o confinamento, os pubs ingleses contam os dias até o Natal

O primeiro bloqueio no Reino Unido durou mais de três meses, e foi seguido por uma série de restrições em constante mudança desde então

No Crooked Well, pub no sul de Londres que se orgulha de sua comida, o cardápio de Natal já está decidido. Haverá ensopados de carne de veado e de carne de vaca. Mas se os ensopados serão realmente servidos é outra questão.

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Sob um novo confinamento planejado para durar um mês, os pubs na Inglaterra fecharam novamente. De cinco de novembro a dois de dezembro, restaurantes, academias e lojas não essenciais permanecem fechados pelos esforços do governo para suprimir uma segunda onda da pandemia do coronavírus.

O primeiro bloqueio no Reino Unido durou mais de três meses, e foi seguido por uma série de restrições em constante mudança desde então. Ninguém sabe quanto tempo o atual confinamento vai durar.

Nas duas noites antes de seu início, “estávamos muito ocupados, era como se Londres inteira estivesse na rua. Agora, não sei. Realmente, não sei. Sinto que vai continuar por mais tempo”, disse Hector Skinner, um dos proprietários e gerente do Crooked Well.

O primeiro-ministro Boris Johnson tentou vender o novo bloqueio para os britânicos cansados da pandemia, alegando que permitiria, esperançosamente, que as famílias ficassem juntas durante as festas. Porém admitiu: “O Natal vai ser diferente este ano, muito diferente.”

E esse é o problema para a indústria hoteleira, que teme as perdas de um mês crucial. Cerca de 20 a 30 por cento da receita anual é obtida em torno do Natal e dos feriados, de acordo com a Associação Britânica de Cerveja e Pubs. No Crooked Well, uma boa semana em dezembro traria o dobro da melhor semana do verão setentrional.

Hector Skinner, à esquerda, e Matt Green-Armytage, donos do Crooked Well, em Londres

Hector Skinner, à esquerda, e Matt Green-Armytage, donos do Crooked Well, em Londres (Ben Quinton/The New York Times)

“Se os pubs não puderem reabrir em dezembro, essas empresas não sobreviverão a janeiro e fevereiro, que são meses muito parados para nós”, afirmou Emma McClarkin, diretora executiva do grupo comercial da indústria, que representa cerca de 20 mil pubs.

Os pubs britânicos estiveram no centro do vai e vem das tentativas do governo de, por um lado, reduzir a pandemia e, por outro, reforçar uma recuperação econômica.

Quando o vírus chegou à Grã-Bretanha em março e abril, enchendo leitos hospitalares e matando milhares, um bloqueio que fechava escolas, escritórios e lojas não essenciais foi aceito com estoicismo. Mas o fechamento dos pubs foi a maior tristeza. Era o primeiro fechamento total da história. Descrevendo a medida como “extraordinária”, Johnson disse que tirou “o antigo direito inalienável do povo nascido livre do Reino Unido de ir ao pub”.

Naqueles primeiros dias da pandemia, houve um momento em que Skinner e seu coproprietário, Matt Green-Armytage, descobriram que seu negócio estava a apenas um mês de quebrar. Pediram apoio financeiro aos familiares, demitiram alguns funcionários e acabaram fazendo um serviço de churrasco para viagem no Crooked Well, o que lhes trouxe algum dinheiro até a autorização para reabrir.

Então veio um boom. Em agosto, o governo encorajou as pessoas a sair de casa e a comer fora, oferecendo-se para pagar até metade do valor das refeições em bares e restaurantes. Às 20h da primeira noite do desconto “Eat Out to Help Out” (Coma fora para ajudar), o Crooked Well ficou sem comida.

Dois meses depois, as taxas do vírus começaram a subir novamente. Enfrentando novas restrições, incluindo um toque de recolher às 22h, o setor de pubs entrou em crise de novo, segundo McClarkin. No mês passado, a Young & Co.’s Brewery e a Fuller’s, duas grandes redes de pubs, anunciaram planos de demitir 500 funcionários. A Greene King, cadeia sediada na Escócia, planejava cortar 800 empregos, e a Marston divulgou que 2.150 de seus funcionários que estavam de licença perderiam o emprego.

Embora as receitas tenham oscilado, alguns pubs inovaram para atrair os clientes: tornaram-se espaços de trabalho. Por um preço definido, funcionários de escritório sem escritório, cansados de trabalhar de casa, podiam alugar uma mesa.

No Crooked Well, durante o dia, quando o pub estava fechado, havia chá e café ilimitados, serviço de café da manhã e almoço, três redes Wi-Fi diferentes para garantir uma conexão melhor e um litro de cerveja ou uma taça de vinho para marcar o fim do dia de trabalho, tudo por apenas 15 libras ao dia.

O novo serviço foi um sucesso. Alguns clientes optaram por sentar com seu laptop ao lado das grandes janelas do edifício vitoriano e se aquecer à luz natural ou em cantos sob lâmpadas quentes. Havia música suave, silêncio e café forte.

O segundo confinamento não deve ser tão economicamente doloroso quanto o primeiro. Para começar, é menos rigoroso. Pubs e restaurantes podem ficar abertos desta vez, oferecendo pratos para viagem e, depois de uma reviravolta do governo, bebida alcoólica.

Jerry Magloire, gerente do Euston Flyer, pub em Londres

Jerry Magloire, gerente do Euston Flyer, pub em Londres (Ben Quinton/The New York Times)

Isso não significa que vão fazê-lo. A Fuller decidiu fechar todas as suas unidades neste confinamento. “A experiência que você tem nos pubs não necessariamente se presta a pratos para viagem”, disse Jane Jones, diretora de marketing da empresa. Em vez disso, seu foco está na reabertura a tempo para as festas, comprando perus e pedindo que os pubs adquiram árvores de Natal de vendedores locais.

O Crooked Well tem se sustentado com um auxílio oferecido a pequenas empresas, que inclui um empréstimo e um corte nos impostos empresariais apoiados pelo governo. Além disso, começou uma campanha de crowdfunding em setembro, arrecadando 21 mil libras em 28 dias. Parte do dinheiro irá para toldos e aquecedores ao ar livre, para se defender do inverno britânico, chuvoso e com muito vento. E o mais importante: vai pagar por um advogado para ajudar os donos a se prepararem para uma revisão de seu aluguel com o proprietário em janeiro.

“Temos um dono muito agressivo”, comentou Skinner. Segundo ele, o proprietário alertou o pub contra a proteção de uma moratória que proíbe o despejo de propriedades comerciais por aluguel não pago, um benefício do governo para ajudar os locatários durante a pandemia que foi estendido duas vezes, até o fim do ano.

Durante o confinamento, o pub abrirá apenas aos domingos para vender refeições completas, variando de 38 libras por um frango assado inteiro com todos os acompanhamentos até 120 libras por uma perna de cordeiro, que servirá oito pessoas e garantirá sobras para a semana.

E há uma proteção financeira graças à receita extra, vinda da iniciativa do espaço de trabalho e da reforma do espaço de eventos no andar de cima, que foi transformado em uma segunda sala de jantar com oito mesas. A equipe tirou licença depois que o governo prorrogou o programa de subsídios salariais. Mas Skinner ainda está preocupado com o aluguel.

“Nós nos colocamos em uma boa posição financeira, mas o aluguel não vai desaparecer. Se o bloqueio durar só um mês, podemos lidar com a situação, mas, se continuar por mais tempo, então as coisas realmente começam a ficar assustadoras e sombrias novamente”, resumiu ele.

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