Roteiro no Brasil: conheça a trajetória de Mariana e Eduardo, criadores de 'Cangaço Novo' (Divulgação)
Repórter de Casual
Publicado em 4 de julho de 2026 às 07h02.
Cangaço Novo estreou no Prime Video em agosto de 2023 sem fazer muito alarde. A premissa, falar sobre a modernização de um marco da cultura brasileira, era inovadora no streaming. E deu certo: a produção da O2 Filmes alcançou o Top 10 em 49 países, trouxe holofotes internacionais para o audiovisual do Brasil e impulsionou atores, até aquele momento, pouco conhecidos. Foi o primeiro acerto da dupla de roteiristas Mariana Bardan e Eduardo Melo.
Os dois eram estreantes quando deram vida ao projeto. A ideia veio em 2013, de uma mistura do hábito de Eduardo de acompanhar notícias e da inspiração de um filme francês.
"Nessa época estava tendo muito assalto de novo cangaço no Ceará. Por coincidência da vida, tínhamos assistido a O Profeta, filme do Jacques Zadiat. Dali pensei: e se a gente usasse essa ideia de querer pertencer a algum lugar e colocasse ela lá na cidadezinha de onde o pai do Edu veio, do interior do Ceará?", disse Bardan em entrevista à EXAME.
"Estávamos voltando de um jantar. Lembro que o Edu gritava muito no carro: 'que ótima ideia!'. Eu fiz essa pergunta, e aí o todo surgiu na cabeça dele. Surgiu o Ubaldo, surgiu toda a história e deu no que deu."
A produção foi uma das mais indicadas e premiadas do Grande Otelo no ano seguinte e fez a carreira de quase todo o elenco principal estourar. Alice Carvalho entrou em novos projetos, participou de O Agente Secreto, chegou ao Oscar e dará vida à jogadora Marta em um longa-metragem previsto para 2027. Allan Souza Lima fez A Menina Que Matou Os Pais, engatou em novas novelas.
Fora da equipe, a série também injetou recursos diretamente no interior da Paraíba. As filmagens, concentradas em Cabaceiras e em outras oito cidades da região, movimentaram a economia local por meio da contratação de figurantes, aluguel de imóveis e o aquecimento dos setores de hotelaria, gastronomia e artesanato.
"Apresentamos a ideia para o Prime Video em 2018. Na época, os executivos eram todos estrangeiros, e acredito que isso nos ajudou a vender o projeto. O cangaceiro é um é um imaginário que vive com a gente, assim como, os ninjas, como os samurais estão no nosso imaginário quando pensamos no Japão. É local e universal, de certa forma, e era isso que eles queriam", complementou Bardan.
A segunda temporada chegou ao streaming da Amazon em abril deste ano. E teve algo de especial nos bastidores: a gigante varejista contratou a Amblin Entertainment, produtora de Steven Spielberg, para prestar consultoria na reta final dos roteiros e na montagem. Mariana e Eduardo foram trabalhar diretamente nos estúdios da Universal, em Los Angeles.
"Nós fomos para o parque em lote da Emory, trabalhamos com profissionais com uma longa experiência em desenvolvimento de séries. Vimos a réplica do E.T., do T-Rex. Você sente que aquelas obras passaram por ali. Essa expertise que recebemos de lá foi fundamental para a segunda temporada e para o nosso desenvolvimento como criadores e roteiristas", destacou Melo.
Eduardo Melo e Mariana Bardan (Lucas Seixas/2026)
O sucesso de Cangaço Novo abriu muitas portas para Mariana e Eduardo. Uma delas, mais recente, foi a escrita do roteiro de Bruna Surfistinha 2, sequência do fenômeno de 2011 dirigido por Marcus Baldini. O primeiro filme levou mais de 2 milhões de espectadores aos cinemas e registrou marcas históricas na televisão, como os 10 pontos de média e 46% de participação em exibições no Supercine.
"É um filme muito amado e muito odiado por muita gente, o que dá um frio na barriga. Mas eu particularmente gosto de tiro, porrada, explosão e outros tipos de drama, e o Baldini nos lembrou que, no cinema, cena de sexo também é cena de ação", explica Mariana. "Decidimos aceitar justamente por ser algo difícil, com uma personagem que é polêmica sozinha. Correr riscos é interessante."
O novo longa, previsto para estrear em 2027, trará Deborah Secco novamente no papel principal. A dupla de roteiristas não abriu muitos detalhes sobre a trama, mas destacou que a escrita do roteiro exigiu reuniões profundas com a atriz e com a própria Raquel Pacheco para mapear o novo momento de vida da personagem.
"O primeiro filme estreou faz tempo. Mas é interessante saber que, em 2026, quase 2027, ainda estamos falando sobre a independência da mulher, sobre fazer o que quer e pagar um preço alto por isso", adianta Eduardo.
Ainda que tenham sido bem-sucedidos já no primeiro projeto longo, a trajetória dos criadores não começou no roteiro. Mariana passou um ano estudando fotografia em Moscou, enquanto Eduardo cursou matemática antes de migrar para o cinema.
Eles se conheceram na faculdade em 2008, na primeira aula do curso de cinema da FAAP, em São Paulo. Fizeram tudo juntos durante a faculdade. Ao final dos quatro anos, estavam casados. Foi quando resolveram vender carro, deixar o emprego e partir para Los Angeles para um curso de roteiro. A aventura durou seis meses. Eles queriam colocar logo a mão na massa, então voltaram a São Paulo.
Pouco depois, surgiu a ideia de Cangaço Novo. A rapidez para aprovar o projeto, contaram os dois à EXAME, foi um misto de sorte com privilégio. "Ser roteirista é muito difícil no Brasil. O país pode fazer mais pelos seus criadores, porque uma ideia que recebe o devido desenvolvimento gera valor puro. É a cultura fazendo a diferença na economia, mas muita gente não consegue viver só disso ou se dedicar o quanto seria necessário por falta de investimento", defendeu Eduardo. "E, no fim, tudo começa pelo roteiro. Sem roteiristas, não teremos boas histórias."
Essa falta de investimento em novos roteiristas e fomento aos já existentes tem causado um êxodo de talentos. Dados da Associação Brasileira de Autores Roteiristas (ABRA) indicam que apenas 35,2% dos profissionais conseguem atuar exclusivamente com a escrita. A maioria precisa de um segundo emprego para complementar a renda — cenário que se agrava fora do eixo Rio-São Paulo.
Essa precarização comprime cachês, limita o tempo dedicado à pesquisa e reduz a voz dos criadores nas decisões criativas, o que dificulta o amadurecimento de obras consistentes.
Embora o Ministério da Cultura e editais ligados à Lei Paulo Gustavo tentem mitigar o problema por meio de cursos gratuitos de capacitação e fomento regional, as políticas públicas ainda focam mais na formação inicial do que na sustentabilidade da carreira de longo prazo.
Eduardo alerta para o risco da transferência definitiva de propriedade intelectual para grandes corporações globais. "Nós estamos fazendo todas essas histórias brasileiras e transferindo a propriedade para empresas estrangeiras. Daqui a 50 anos, o imaginário nacional pertencerá a terceiros. Falta a gente se amar mais, acreditar no nosso potencial e entender que a cultura faz parte de uma cadeia enorme de produção e geração de empregos", conclui.