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Da gastronomia à medicina: os diversos benefícios dos fungos para a saúde

Os cogumelos são hoje uma nova tendência mundial e eles não se reduzem mais a receitas de omeletes

 (Wikimedia Commons/Reprodução)

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Theo Webert

1 de dezembro de 2022, 17h45

Avistamos fungos onde estivermos. Eles estão ao nosso redor, dentro de nós, mudando a plasticidade da vida e isso há mais de um bilhão de anos.

A imensa capacidade dos fungos de se desenvolverem em diferentes habitats, depende de suas diversas habilidades metabólicas. E nisso os fungos são prodígios na arte da transformação química, “rivalizando“ apenas com bactérias.

O micélio, um conjunto de filamentos dos fungos, é por onde os fungos se nutrem. A coordenação micelial é difícil de entender, porque não existe um centro de controle: ocorre em todos os lugares ao mesmo tempo. É por isso que quanto mais conhecemos a complexidade em torno dos fungos, mais as coisas deixam de fazer sentido sem eles.

Os cogumelos dominam o imaginário popular quando o assunto é fungo. O cogumelo é uma estrutura macroscópica de reprodução. É a parte visível, pulsante e cobiçada do fungo.

Os cogumelos são hoje uma nova tendência mundial e eles não se reduzem mais a receitas de omeletes. Você pode ter percebido o aumento de notícias que falam do avanço nas pesquisas e debates em torno dos cogumelos medicinais, em diferentes Universidades do mundo. Nesse momento que você está lendo esse artigo, muitos outros estudos estão sendo publicados, percepções a respeito dos seus benefícios e terapêutica têm vindo à tona e despertado o interesse de uma comunidade sedenta por alternativas frente a tantas doenças, principalmente as mentais.

Tero Isokauppila, um finlandês autor de "Adaptógenos de Cura” (Healing Adaptogens: The Definitive Guide to Using Super Herbs and Mushrooms for Your Body's Restoration, Defense, and Performance, 2022), entre outros, é considerado hoje o guru dos cogumelos. Ele elegeu, entre tantas espécies, as 4 principais que poderiam fazer parte do seu dia-a-dia, que não tem o efeito psicodélico, mas que podem melhorar sua qualidade de vida quando usados adequadamente, seja na inclusão em sua alimentação ou até mesmo na forma de cápsulas:

CHAGA: Inclua no café da manhã

Conhecido como o “rei dos cogumelos", ele pode ajudar a tornar sua imunidade muito melhor. Tero referiu-se a este cogumelo como um potente antioxidante e uma das principais fontes de melanina - tão conhecida por estar presente em nossa pele.

Sendo a pele nosso maior órgão e a primeira barreira protetora contra patógenos, o Chaga pode agir como um “guarda-corpo” para o nosso bem estar interno e externo. É recomendado beber um pouco de chá feito com ele, em jejum.

JUBA DE LEÃO: Alimento para o cérebro

Estes cogumelos medicinais são conhecidos como “drogas inteligentes", que podem servir para melhorar o estado de alerta, o foco e a capacidade cognitiva como um todo. De acordo com novas evidências científicas, ingerir diariamente uma pequena porção é totalmente seguro e poderá dar ao seu cérebro um impulso a mais para deixá-lo melhor que já é.

CORDYCEPS : Impulso no pré-treino

Descoberto por antigos e amado por atletas, Cordyceps é conhecido por fornecer energia sem causar taquicardia. Este cogumelo pode ajudar a aumentar em até 20% a oxigenação dos tecidos, aumentando a energia mental e física.

REISHI: Auxílio para seu estresse noturno

Se o Chaga pode ser conhecido como o rei dos cogumelos, Reishi é a rainha, podendo auxiliar no controle do estresse sem causar sonolência. Tero diz que o melhor sono é quando se mistura esse cogumelo com cacau, e se faz uma infusão para ser tomada antes de dormir. Ele relata que isso pode ajudar a relaxar e atingir o sono mais profundo, por um tempo mais duradouro.

Quando o assunto é uso de cogumelos para fins terapêuticos , encontramos uma profusão de estudos que já foram e estão sendo realizados ao lado de pesquisas científicas promissoras, que mostram a psilocibina, princípio ativo desses tipos de cogumelos, como alternativa para o tratamento do alcoolismo, depressão, ansiedade, TOC e até Parkinson.

Um estudo recente fornece a evidência mais convincente até o momento, sobre os benefícios para a saúde mental com o uso continuado de microdosagem de psilocibina.

Embora um número cada vez maior de estudos mostre a eficácia do tratamento de transtornos de saúde mental com psicodélicos, há relativamente pouca pesquisa sobre a prática de microdosagem.
A microdosagem, ou a ingestão repetida de pequenas quantidades quase imperceptíveis de psicodélicos, tem aumentado exponencialmente em popularidade, com uma margem expressiva de pessoas relatando uma infinidade de melhorias no contexto psicológico. Porém, não estou falando do uso recreativo, onde nos deparamos com muitos fazendo o uso em festas, reuniões de amigos, a fim de "ter um barato". Isso é totalmente desaconselhado, principalmente quando já se sabe a seriedade dos estudos e diante de tantos benefícios e relatos que o seu uso pode trazer quando bem indicado e com acompanhamento profissional. É uma terapia promissora em um futuro bem próximo.

O mais recente estudo científico para analisar os efeitos da microdosagem foi realizado por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, bem como outros líderes nas áreas de psicologia e micologia. O estudo acompanhou 953 pessoas que usaram doses pequenas e repetidas de psilocibina por cerca de 30 dias, bem como um grupo de controle que não fez a microdose.

Embora as dosagens exatas de psilocibina que os participantes auto administravam variassem um pouco, todas eram baixas o suficiente para não afetar o seu funcionamento pessoal diário.

O Dr. Zach Walsh, autor do estudo, afirmou: “Nossas descobertas de melhora do humor e redução dos sintomas de depressão, ansiedade e estresse aumentam a crescente discussão quanto ao potencial terapêutico da microdosagem”.

Outro componente deste estudo foi a investigação do uso de empilhamento, onde os cogumelos de psilocibina são combinados com outros, não psicodélicos, como os cogumelos Juba de Leão. O estudo observou que aqueles que empilharam, tiveram melhorias mais significativas, do que aqueles que não o fizeram.

Muitos lugares ao redor do mundo já avançam com os estudos e validações científicas, Oregon (EUA), Canadá e mais recentemente São Francisco ( EUA ), legalizaram os cogumelos para uso terapêutico. Isso é um grande avanço dentro da ciência, com esse momento sendo até chamado de RENASCIMENTO PSICODÉLICO, onde é uma das áreas mais promissoras da pesquisa em saúde mental.

Recentemente, a Netflix, lançou um documentário baseado no livro do autor e jornalista americano, Michael Pollan, chamado "COMO MUDAR SUA MENTE". Em uma impressionante jornada de caráter tanto científico quanto pessoal, Pollan mergulha nos mais diversos estados da consciência e apresenta os progressos que substâncias como LSD e psilocibina – principal componente ativo dos cogumelos mágicos – trazem para os estudos mais recentes da neurociência.

“Acredito que a natureza (inclusive a mente humana) ainda detém grandes mistérios que, às vezes, a ciência desdenha de forma arrogante e injustificável”. Citação de Michael Pollan no Livro. Os pesquisadores se mostraram entusiasmados com os resultados, muito embora criteriosos quanto à necessidade de mais pesquisas e estudos controlados, com uso de placebo.

No Brasil, temos grandes nomes como o do neurocientista Sidarta Ribeiro, uma das vozes mais respeitadas na pesquisa com psicodélicos hoje ,tanto aqui, quanto internacionalmente. Publicou mais de 100 artigos científicos em periódicos internacionais e livros de ficção e divulgação científica, sendo um deles que acabei de ler, o "ORÁCULO DA NOITE". É ao mesmo tempo um ávido buscador das tradições indígenas e afro-brasileiras, dos saberes populares e da nossa ancestralidade. Pesquisa memória, sono e sonhos, plasticidade neuronal, comunicação vocal em aves e primatas, neurociência aplicada à educação, psicodélicos e política de drogas.

Outro grande cientista é o Dr. Walsh que declarou em entrevista: “Temos uma epidemia de problemas de saúde mental, com tratamentos existentes que não funcionam para todos. Precisamos seguir o exemplo dos pacientes que estão tomando essas iniciativas, para ter a chance de melhorar seu bem-estar e reduzir o sofrimento”. É vasta a literatura com depoimentos narrando as diferentes experiências com a psilocibina para fins medicinais, como um caminho possível de tratamento terapêutico, sobretudo por não serem substâncias viciantes e ainda evidenciarem ganhos expressivos em termos de neuroplasticidade.

O que causa fascínio é que esse bem-estar não se limita a um alívio físico ou psíquico. Pode-se dizer que estas dimensões se somam aos relatos de um sentimento de total pertencimento e unidade. Justo porque os depoimentos dessas experiências evidenciam o quanto a psilocibina pode expandir conceitos, integrar o que parecia segregado.

Sua capacidade de quebrar padrões fixos e hábitos da mente, torna esse composto químico natural a outra via medicamentosa, para uma medicina evolucionária.

Estamos diante de uma substância que precisamos respeitar, entender e ter a capacidade de desenvolver pesquisas e estudos ainda mais aprofundados. Muitos esquecem que cogumelos são a frutificação dos fungos, portanto, muito são comestíveis e entendendo isso precisamos encará-lo como alimento, energia vital que estamos dando ao nosso corpo e nutrindo todas as nossas células. Isso posto, precisamos entender qual o seu impacto em nossa digestão, como ele interfere na liberação de hormônios como cortisol, dopamina e serotonina, por exemplo. Se eles se mostram promissores no tratamento de doenças mentais como depressão, se mostram eficazes no tratamento de tabagismo, alcoolismo e outros tipos de dependência, onde eles estão agindo para entendermos como é o impacto
em toda nossa fisiologia, se faz cada vez mais necessário.

Eu sou um defensor do entendimento da fisiologia humana, por isso faço tanta questão de aprender como é o impacto em todo nosso corpo e como podemos tirar o máximo de proveito benéfico disso. Até o momento o uso dessas substâncias ainda não é legalizado, e o seu uso se limita a pesquisas. Então cuidado se você for surpreendido por alguém te oferecendo "cogumelos" para você se divertir mais, se sentir mais feliz ou até mesmo como promessa de controlar a ansiedade. Esse renascimento está acontecendo de forma muito promissora, mas requer muita atenção e cuidado. Nós que estudamos essas substâncias, temos um maior zelo e respeito, porque entendemos o quão impactante e transformadora elas podem ser quando usadas da maneira adequada.

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