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Como a Lev quer virar a Tesla das bicicletas elétricas

A marca líder no mercado brasileiro abriu 16 lojas durante a pandemia e espera crescer 70% este ano. Mas atenção: aos sábados, os pontos de venda só abrem das seis da tarde às oito da noite

Por Ivan Padilla
Publicado em 24/05/2022 06:30
Última atualização em 24/05/2022 10:36

Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Se você estiver pensando em visitar alguma das 28 lojas da Lev, marca de bicicletas elétricas, fique atento ao horário. Aos sábados, os pontos de venda só abrem das 18 às 20 horas. Isso mesmo, das seis da tarde às oito da noite. O motivo é religioso: os fundadores são da Igreja Adventista Sétimo Dia.

Às sextas-feiras as lojas fecham às seis da tarde. Como Deus teria reservado o sétimo dia da criação do universo para descansar, a Igreja Adventista prega que seus fiéis façam o mesmo. Segundo o Antigo Testamento, o sétimo dia começa ao anoitecer da sexta-feira e termina quando o sol se põe no sábado, último dia da semana.

“As pessoas podem curtir seu sábado, fazer seus programas com a família, e no fim do dia ir a uma loja conhecer os modelos, fazer sua compra, retirar sua bicicleta”, afirma Bruno Affonso, fundador e proprietário da marca. “Nossos funcionários adoram e já virou uma marca nossa.”

Líder de mercado

A restrição de horários não tem sido obstáculo para o crescimento da marca. A Lev, com sede no Rio de Janeiro, é a líder do mercado nacional em bicicletas elétricas, segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, mesmo sem revelar share de mercado. No ano passado foram vendidas no total 40.891 bicicletas elétricas no Brasil, segundo a entidade. Em 2020 foram cerca de 31.000. O preço médio das bicicletas elétricas foi de 7.075 reais e a movimentação das vendas ficou em 289 milhões.

“Este ano esperamos vender de 10.000 a 11.000 bicicletas”, afirma Affonso. Isso representaria um crescimento de 70% em relação ao ano passado. Segundo o proprietário, março deste ano foi o melhor mês de resultados desde a criação da marca, em 2010. Até hoje foram vendidas cerca de 35.000 unidades da Lev.

A pandemia acabou beneficiando a expansão da marca. Nesse período de restrição houve um aumento de procura por meios de mobilidade alternativos e muitos pontos de venda ficaram disponíveis. Das atuais 28 lojas da Lev, 16 foram abertas nesses últimos dois anos.

A Tesla das bicicletas elétricas

As bicicletas da Lev são importadas da China. Existem hoje no portfólio 17 modelos, incluindo versões desenvolvidas em collabs com Baer-Mate, Alphabeto, Farm, Flamengo e Fluminense. Os preços vão de 6.380 a 16.980 reais. São valores que colocam a marca em uma categoria premium.

A mais vendida é a Cruiser, que lembra mais uma mobilete, por 9.880 reais. Já o primeiro modelo, a e-bike, custa 7.380 reais e continua sendo vendida. “É a mesma bicicleta desde o começo da marca. Fazemos como a Tesla, mantemos os modelos em linha por muitos anos. É ruim quando consumidor adquire um produto e logo depois a empresa lança uma nova versão”, diz Affonso.

Bicicletas Lev

Bicicletas Lev: quadro baixo, cestinha e "algum grau de esquisitice" (Lev/Divulgação)

Manter os modelos em linha por muito tempo traz vantagens de logística. “Não temos problema de reposição de peça e prestamos um ótimo serviço de pós-venda”, garante o fundador. “Toda loja tem uma oficina ao lado, muitas vezes ocupando um espaço até maior. Nosso cliente tem confiança em comprar uma Lev porque sabe que estará sempre assistido.”

A comparação com a incensada marca do trilionário Elon Musk tem outro motivo. A Tesla é a marca de carros elétricos mais vendida no mundo. A Lev, como já foi dito, é líder no Brasil. “Temos um potencial gigantesco, ainda não temos nem dimensão. Na Alemanha, um país muito menor do que o Brasil,  foram vendidas mais de 2 milhão de bicicletas elétricas em 2020.”

Acelerador na manopla

Os modelos da Lev têm em geral quadro baixo e um ar de utilitário esportivo, muitas com o pneu grosso. “Marcas legais têm algum coeficiente de esquisitice. Se o produto for muito igual ao que existe no mercado não vai gerar desejo. Sempre tivemos um farol com design diferente, cestinha, pneus robustos.”

As bicicletas da Lev têm pedal assistido, ou seja, o motor elétrico ajuda na pedalada de acordo com a velocidade programada. No modo 1 o motor não é acionado. O modo 4, o mais potente, permite vencer ladeiras íngremes.

A bateria de lítio é removível, o que ajuda na carga. Em geral a velocidade máxima alcançada é de 25 quilômetros por hora e a autonomia é de 30 quilômetros, uma distância bastante generosa para as necessidades do dia a dia.

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O acelerador na manopla proporciona velocidade instantânea sempre que é preciso. O nível de exercício, portanto, fica à escolha do usuário. É possível usar a bicicleta da forma tradicional, com a força das pernas, acionando o câmbio Shimano de sete marchas. Mas também pode-se chegar ao trabalho sem suar.

O público da Lev, segundo Affonso, é bem variado. Vai de universitários a pais de família que usam a bicicleta para levar o filho na escola, além de profissionais liberais variados. Pelo preço, porém, é fácil deduzir que a maior parte dos consumidores é de alta renda.

De Pequim para o Itaim

Formado em engenharia, Affonso passou uma temporada na China, entre trabalho e estudos, entre 2007 e 2009. Por lá, as bicicletas elétricas chamaram sua atenção. “Era um meio de transporte usado por pessoas de baixa renda, que precisavam de um veículo prático, barato e resistente”, conta.

Affonso começou a pesquisar o produto, primeiro nas lojas, depois marcando visitas nas fábricas com a ajuda de uma intérprete. Até que decidiu importar um primeiro lote, no fim de 2009. As primeiras unidades foram acomodadas na garagem e na sala de sua casa, na Barra da Tijuca.

Com os dois irmãos, Affonso criou a marca e montou a primeira loja no shopping Cittá América, em frente à sua casa. A segunda loja já foi no Itaim, em São Paulo. A estratégia é montar pontos de venda próximos uns aos outros, em vez de pulverizar a presença da marca em bairros diversos.

“Percebemos que as pessoas são mais impactadas dessa forma”, afirma o fundador.  Hoje a Lev está presente no Espírito Santo e no Rio Grande do Sul, além de Rio de Janeiro e São Paulo. Bruno cuida de produto, estratégia e marketing. Rodrigo toca a parte operacional. E Eduardo é responsável pela expansão.

“Temos os mesmos fornecedores desde o começo, algo que não é simples na China”, conta Affonso. O crescimento da marca tem se dado sem ajuda de investidor. “Tem muito cheque grande no mercado, mas perderíamos autonomia e liberdade.” No fim do ano passado os três irmãos lançaram a Niu, marca de scooters elétricas também fabricadas na China, a preços entre 17.980 e 28.980 reais.

Quais são os planos dos irmãos Affonso? Segundo Bruno, a necessidade de meios sustentáveis de transporte só vai crescer, por diversas questões, de mudanças climáticas a preço do petróleo. “Basta pensar que cada apartamento comporta ao menos uma bike. Isso é o que eu gostaria de ver”, afirma.

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