Carlos Ferreirinha: “marcas de luxo atravessam o tempo pilotando inovação”

Para o ex-executivo da Louis Vuitton no Brasil, a resiliência e capacidade de inovação através dos tempos são códigos imperativos a grupos como a LVMH

No primeiro semestre do ano, a receita do grupo de luxo LVMH, dono de marcas centenárias como Louis Vuitton e Tag Heuer, encolheu 27% em relação ao mesmo período de 2019.  

Mesmo neste cenário, o grupo francês diz que os resultados demonstram a resiliência do mercado de luxo frente à pandemia que forçou o fechamento de fábricas e lojas em todo o mundo. 

Para Carlos Ferreirinha, ex-executivo da Louis Vuitton no Brasil e fundador da MCF consultoria, a resiliência e capacidade de inovação através dos tempos são códigos imperativos à grupos como a LVMH, o que em boa parte explica como as marcas de luxo conseguem atravessar grandes crises. 

Em entrevista à EXAME, Ferreirinha, um dos maiores conhecedores da indústria de luxo do país, comenta onde está e para onde tende a ir o maior grupo do segmento no mundo. Ferreirinha também fala sobre o mercado asiático, que hoje representa 34% das vendas da LVMH, e comenta a aquisição da joalheria Tiffany pelo grupo, que recentemente recuou da compra, anunciada em novembro passado. 

O também fundador da Associação Brasileira das Indústrias de Luxo (Abrael) comenta ainda o que podemos esperar do segmento nos próximos meses e fala sobre a janela de oportunidade que a maior concentração de capital no Brasil pode trazer para o mercado de luxo interno. 

 

Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

 

No primeiro semestre do ano, a receita da LVMH encolheu 27% em relação ao mesmo período de 2019. Ainda assim, o resultado é visto como resiliente dado a pandemia. Como você enxerga esses números e o que dá para esperar do futuro da marca? 

Estou totalmente alinhado com a visão de que os resultados foram resilientes. O mercado acredita fortemente na capacidade de recuperação de um grupo como a LVMH, tanto é que eles continuam na liderança do setor de luxo. A LVMH sofreu dois impactos severos durante a quarentena: a ausência do turismo, pois a quantidade de turistas que compram produtos de luxo principalmente no mercado americano e europeu é muito expressiva; e as vendas em aeroportos, que refletiram principalmente nos setores de bebidas e relojoalheria. Ainda assim, a LVMH já tem crescimento consolidado de 50% na China nos últimos dois meses de retomada. Vamos passar a viver uma concentração de riqueza exacerbada no pós-pandemia. Isso favorece muito o setor de luxo, e os próximos meses devem ser importantes para recuperar as perdas.

De onde vem essa resiliência? 

A LVMH é um conglomerado de aquisição de marcas. Hoje, a única marca criada pelo grupo é a Fenty. A principal marca do grupo, a Louis Vuitton, tem 165 anos. Essas marcas atravessam os tempos, pilotam a inovação. Elas têm uma inquietação com temporaneidade, compacidade de brincar com fortes rupturas. A resiliência vem do tempo, da tradição, desses códigos que são imperativos para as marcas de luxo. Seja uma riqueza aspiracional ou uma manifestação de consumo mais elevado, em qualquer inquietação econômica, aqueles que têm uma condição de privilégio financeiro são mais resilientes.

Por que o consumidor de luxo continua comprando sem ter para quem mostrar?

Esse é um impacto significativo. As vendas de bebidas, como espumantes de ponta, caíram de forma expressiva devido à ausência de celebrações, o que gera um impacto imenso. Ao mesmo tempo, existem inúmeras pessoas que colecionam itens de luxo. Esse perfil de consumidor continua comprando mesmo em cenários adversos. O grande diferencial das marcas de luxo é a capacidade relacional com seus clientes. Os compradores se relacionam com essas marcas pela emoção, pela paixão, não pela necessidade.

A Ásia corresponde a 34% do mercado da LVMH. Qual a importância dos asiáticos nesse jogo? 

As vendas de luxo têm sido puxadas pela Ásia há anos. Embora eles tenham sido o primeiro mercado impactado pela pandemia, também estão sendo os primeiros a se recuperarem. Além de mais de um terço do mercado global de luxo girar na Ásia, o asiático também compra no resto do mundo. Em países como França, Itália e Inglaterra, boa parte das compras de itens de luxo são feitas por asiáticos. Se antes o asiático viajava para gastar no mundo todo, agora, ele gasta tudo na ásia. A concentração de dinheiro disponível na região vai continuar impulsionando o setor. 

Como uma segunda onda de coronavírus poderia impactar o mercado de luxo?

Essa já é uma realidade que temos que lidar. Não vejo somente a questão de uma segunda onda. Os altos e baixos parecem ser o novo normal. Se a gente for entrar no detalhe, as marcas de luxo não estão totalmente preparadas para o e-commerce, frente na qual sempre foram muito resistentes. Mas o relacional com o cliente é compensatório. As compras de luxo acompanham a construção de uma narrativa que motiva o cliente. Nesse espectro, marcas de luxo possuem um capital de relacionamento infinitamente maior do que outras marcas.

Em novembro a LVMH anunciou uma oferta pela compra da Tiffany. Em junho deste ano, o grupo recuou. O que aconteceu?

A aquisição da Tiffany pela LVMH demanda mais alavancagem de capital. Essas oscilações e perdas econômicas para grupos do porte da LVMH podem atrasar ou mesmo interromper a aquisição. Estrategicamente, a compra seria muito boa para ambas as marcas. A Tiffany é genuinamente americana, mercado importantíssimo para a LVMH, e é também uma das últimas super joalherias do mundo, uma marca de quase 200 anos. Para a LVMH, a Tiffany seria um acréscimo muito significativo, mas  agora o capital disponível para a Tiffany está indo para apagar os incêndios da pandemia. 

O que podemos esperar de setores como hotelaria, gastronomia, moda, turismo? 

Para o turismo é um ano perdido, não há possibilidade de recuperação. O futuro demandará demais o turismo doméstico. No Brasil, o impacto parece ser menor, porque o que a gente consegue atrair de turismo internacional não é expressivo. Mas para os grandes destinos do mundo, é uma perda muito significativa. A moda depende muito do mostrar. Olhando dessa forma, é um setor que deve ter maior dificuldade de recuperação. Por outro lado, joalheria, mobiliário, tudo o que pode ser inclusive investimento tem sempre a tendência de valorização no longo prazo. Acredito que veremos bastante movimento na área da incorporação imobiliária, por exemplo, uma vez que o dinheiro estará sendo menos desviado para outras possibilidades de consumo.

Onde e como o Brasil está no caldo do mercado de luxo?

O Brasil não tem expressão no mercado global de luxo. Nós somos um país importante devido nossa dimensão, nosso espírito, mas enquanto resultado, não pagamos a conta. Ainda assim, podemos ser favorecidos pelo dinheiro das exportações que tende a se concentrar mais por aqui. Para o setor de luxo, podemos estar na melhor janela de oportunidade dos últimos anos, porque o brasileiro estará mais tempo no Brasil, e ele não vai sair para ficar consumindo lá fora, coisa que sempre fez. 

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