Barco reconstruído após acidente vence Campeonato Brasileiro de Vela

Velejadores locais superam tripulações com atletas olímpicos e campeões mundiais, em Ilhabela

O Campeonato Brasileiro de Vela de Oceano da classe IRC e a 20ª Copa Suzuki de Vela consagraram tripulações do litoral de São Paulo como campeãs nas disputas no canal de São Sebastião, no litoral norte paulista, entre os dias 20 e 22 de novembro. As duas competições ocorreram em um evento simultâneo, realizado no Yacht Club de Ilhabela (YCI), com patrocínio da Suzuki e co-patrocínio da GOfit, com 35 barcos e mais de 300 participantes.

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As últimas regatas da região sudeste de  2020 premiaram o reconstruído Xamã em primeiro lugar na classe IRC e o experiente Rudá/Blue Seal em primeiro lugar geral da 20º Copa Suzuki.

Condições quase perfeitas
Foram três dias de condições quase perfeitas, com direito a largada queimada e muita emoção a bordo. Na sexta-feira, no canal, teve chuva, ventos inconstantes e até calmaria (ausência de vento), que surpreendeu parte da flotilha. Já no sábado e no domingo, na entrada norte do canal sob a influência do mar aberto, as disputas foram marcadas por sol com ventos constantes de intensidade razoável em torno de 14 nós (25km).

As competições contaram ainda com atletas profissionais de renome, como Jorge Zarif (campeão mundial de Finn, em 2013, de Star, em 2018), esperança de medalha para Tóquio-2021, Maurício Santa Cruz (pentacampeão mundial, bicampeão Pan-Americano e com duas Olimpíadas no currículo), e Samuel Albrecht (bronze no Pan-Americano de Lima-2019), com presença confirmada em Tóquio-2021.

Rudá/Blue Sail, campeão da 20° Copa Suzuki

Rudá/Blue Sail, campeão da 20° Copa Suzuki (Paty Moraes Nobre/Divulgação)

Barco reconstruído
O veleiro campeão, um modelo Grand Soleil 46 pés, que pertence a Sergio Klepacz, ao empresário Flavio Farkouh e aos caiçaras de Ilhabela Paulo Tinah Jesus e Atanawe Boechat, que atuam na compra, venda e conserto de barcos, passou por uma enorme reforma de dois meses durante o pico da pandemia de Covid-19 no Brasil. Isso porque, em 2019, o Xamã (até então chamado Angela Star) sofreu com uma colisão de grande impacto e foi abalroado na 69ª regata Santos-Rio.

“É uma grande felicidade pensando que, no começo do ano, não tínhamos barco nenhum”, comemora Sergio, de 64 anos, que é psiquiatra e comandante do barco, durante a cerimônia de premiação, no domingo, 22. “Era o vento que estávamos esperando ali, que é o nosso ‘quintal de casa’”, emenda o médico velejador.

O veleiro tinha sofrido uma avaria no bombordo (lado esquerdo), na cabine de popa (traseira) e no último armário da cozinha. “Refizemos tudo no Iate Clube do Rio de Janeiro em 15 dias e fomos navegando para o Guarujá, onde fizemos toda a parte de marcenaria e pintura por mais 30 dias até que ele ficasse pronto para navegar e competir", explica Tinah, de 53 anos, que veleja desde a infância e entrou na Vela de Oceano em 1985.

Tinah e Atanawe, de 35 anos, foram os grandes responsáveis pela intervenção, que além de tornar o barco extremamente competitivo em regatas com fortes ventos, também o transformou em um ambiente confortável para viver a bordo: tem cama, gerador, ar-condicionado, geladeira, freezer, micro-ondas e até máquina de café expresso.

“Estou na tripulação há quase dois anos e é como uma família num ‘Big Brother’, numa casinha. Tem momentos de estresse, a gente fala coisas pesadas, mas acaba a regata e morre lá. Ninguém quarda rancor e depois a gente tira sarro um do outro”, garante Flavio, de 59 anos, que aprendeu a velejar com um amigo e participa de competições há quase 20 anos. “Pega no sangue e a gente fica viciado nessa adrenalina. Além disso, você está na natureza, não usa motor, mas o vento, a sua capacidade e a do barco pra se locomover. É uma bela terapia”, afirma ele, que tem labirintite. “Ah, doido, né?! Mas não é sempre que dá. Atacou quando fiz a 70ª Santos Rio. Muito tempo no barco, balançando... Mas é controlável com remédio”, diverte-se, sobre competição deste ano que entrou para a história pelas condições extremas no percurso.

Rudá/Blue Sail, campeão da 20° Copa Suzuki

Rudá/Blue Sail, campeão da 20° Copa Suzuki (Paty Moraes Nobre/Divulgação)

Veleiro de comodoro campeão
No pódio da Copa Suzuki, conforto e alto rendimento também fazem história no pódio. O Rudá/Blue Sail, comandado pelo proprietário, Mário Martinez, comodoro da Associação Brasileira de Veleiros de Oceano (ABVO), é presença confirmada em todo o calendário anual da vela oceânica e coleciona inúmeros títulos nacionais e internacionais.

Campeão Sul Americano, cinco vezes campeão brasileiro e dez vezes campeão paulista, além de campeão da Volta a Antigua (Caribe) e duas vezes campeão geral da Santos-Rio, o barco de 2009 modelo Custom ORC 42 pés é excelente para regatas com ventos médios e agrega tripulantes de várias idades e perfis.

Já passaram pela tripulação dele este ano, por exemplo, a velejadora olímpica Martine Grael (campeã Olímpica Rio-2016), de 29 anos, filha de Torben Grael e também promessa de pódio em Tóquio-2021, e, mais recentemente, o sul-africano Ken Venn, de 50 anos, que participou da volta ao mundo na The Ocean Race (antiga Volvo Ocean Race),  entre 1997-1998, e é recordista de uma das mais importantes regatas do mundo, a Cape to Rio (Cidade do Cabo - Rio de Janeiro).

“Fechamos o ano com chave de ouro. Se com essa pandemia conseguimos fazer tudo isso, em 2021 teremos um ano muito melhor”, acredita Mario.

 

Barco para regata e passeio em alta
De acordo com Carlos Eduardo Sodré, da comissão organizadora, a curva da vela oceânica está em amplo crescimento há 15 anos e os modelos mistos, como do Xamã e do Rudá, já são maioria no evento.

“Na contramão da vela olímpica, a vela de oceano, principalmente do barco mais cruiser racer, que pode ser usado tanto para competir quanto para passear, está numa crescente. Posso garantir que 80% dos barcos inscritos são assim”, afirma. Para “Cuca”, como é chamado no meio náutico, o tamanho dos barcos também tem aumentado no Brasil. “Antigamente, a média era de 32 a 37 pés. Hoje em dia, vai de 35 a 40 pé. É algo que vem acontecendo naturalmente porque as pessoas querem conforto e um barco mais rápido ao mesmo tempo”, conclui.

Consequências da covid-19
A pandemia também mexeu com o calendário da vela de 2020. Regatas foram canceladas e competições, como a 20ª Copa Suzuki, tiveram etapas reduzidas. Como a tradicional Refeno (Recife-Fernando de Noronha) não aconteceu, a regata Aratu-Maragojipe, na Bahia, geralmente marcada para setembro, encerra o ano da vela brasileiro com disputas em 5 de dezembro.

No evento de Ilhabela, houve baixas e cinco barcos desistiram de competir; quatro, por contaminação de tripulantes por Covid-19.

"Ilhabela continua sendo a capital da Vela. Em um ano tão diferente e estranho, como foi 2020, a gente conseguir reunir as equipes e com tanta gente boa competindo, foi maravilhoso”, finaliza Mauro Dottori, diretor de Vela do YCI, adiantando que a tradicional Semana de Vela de Ilhabela está confirmada para julho de 2021.

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