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A história do Madame Satã, a casa gótica que recebeu o Halloween do Vorcaro

Escândalos políticos à parte, casa noturna de São Paulo é marco histórico da cultura gótica e alternativa da capital e tem origem em 1930

Madame Satã: a história da casa mais gótica de São Paulo (Reprodução/Arquivo Pessoal)

Madame Satã: a história da casa mais gótica de São Paulo (Reprodução/Arquivo Pessoal)

Aquiles Rodrigues
Aquiles Rodrigues

Repórter Bússola

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 21h17.

Última atualização em 11 de setembro de 2026 às 22h08.

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O Madame Satã é uma das casas noturnas mais tradicionais de São Paulo. Localizado na esquina da rua Conselheiro Ramalho com a rua Fortaleza, no Bixiga, o enorme casarão dos anos 1930 funciona como balada desde 1984. De paredes pretas e com uma enorme gárgola no topo, se destaca tanto quanto seus frequentadores. 

A casa é raramente visitada por banqueiros ou políticos — como no caso da recém-descoberta festa de Halloween de Daniel Vorcaro —, mas é certamente o maior ponto de encontro da cena cultural gótica da cidade.

“O Madame é muito importante para a cena porque ele atravessou gerações. Meu padrasto frequentou e, por isso mesmo, eu passei a ir também. Ele foi importantíssimo na construção de imagem da cultura gótica, em como referência de rolê”, conta Gabrieli Leme Pereira, analista financeira e frequentadora do Madame desde 2016. 

O Madame fechou nos anos 1990 e reabriu em 2013 com o nome oficial “Madame Underground Club”. Foi quando a casa se renovou com a atual decoração, digna de um palácio vampírico, e passou a cultivar o público atual, tornando-se símbolo da juventude alternativa da capital.

“Eu lembro que saía de Franco da Rocha só para ir lá porque não tinha nenhum outro rolê igual! Foi muito importante na minha vida. E quando perguntam onde conheci meu marido, eu respondo: 'Na fila do Madame'”, completa Gabrieli.

Mas quem são esses góticos que frequentam o Madame Satã? 

Nascida na Inglaterra dos anos 1980, a cena cultural gótica se define acima de tudo pela música. Bandas como The Cure, Sisters of Mercy, Depeche Mode e Siouxsie And The Banshees são algumas das mais tocadas nas madrugadas de sexta, sábado e domingo do Madame.

Não é obrigatório, mas os membros da cena frequentemente usam preto, maquiagem pesada e roupas extravagantes. O gótico também abarca a literatura de terror, com livros como Frankenstein e Drácula, e tudo que é sombrio tem um lugar debaixo do guarda-chuva. 

Desde que foi fundado pelos atores Williams Jorge, Miriam Dutra, Márcia Dutra e Wilson José, a casa é marcada pela contracultura. Foi símbolo de resistência da juventude após a ditadura e o próprio nome é uma homenagem à drag queen Madame Satã, persona artística de José Francisco dos Santos. 

Para os góticos de São Paulo, o lugar não é apenas uma casa temática, mas sim uma segunda casa. Por muito tempo, foi uma das únicas duas ou três festas constantes do gênero. Hoje, a casa persiste mesmo após a pandemia mudar os horários de funcionamento das baladas, e fica aberta toda a madrugada, como gostam os morcegos (membros da cena).

“Com o passar dos anos, o Madame Satã se tornou um centro de confluência de diversas identidades alternativas. E é uma casa muito plural! Pessoas negras, pessoas brancas, pessoas LGBT, pessoas hetero, gente jovem, gente mais velha; todos aparecem! É justamente essa diversidade que une as culturas alternativas. É o que todas elas têm em comum: a celebração das diferenças”, conta Bárbara Zelmanovits Peret, publicitária e frequentadora desde 2018.

De balada a casa de shows e locação para festas de Halloween

Com a gestão mais recente, a aposta no terror tornou-se mais intensa. A decoração do Madame já era diferente nos anos 2000, mas, após uma expansão que anexou mais quatro prédios vizinhos, o local colocou todas as fichas no fator espetáculo. Caveiras gigantes, luzes néon vermelho, fumaça, uma masmorra, um diabo (muito querido) que corre para lá e para cá atrás dos frequentadores, tem de tudo.

A casa opera das 22h às 5h (ou até os desacordados despertarem). Os DJs seguem as convenções da cena, mas não a rigor. Eles tocam de post-punk, gothic rock e new wave até EBM e dream pop. É possível, em uma noite ou outra, ouvir um hit trevoso do TikTok.

O lugar tem um lounge luxuoso, dois fumódromos, uma pista com músicas mais populares dos anos 1980, três bares, mais um lounge, uma hamburgueria e o famoso “porão”, a pista que fica literalmente no porão do casarão e que toca só "creme" do gótico. 

“Desde a primeira vez que fui lá, fiquei hipnotizada pela pista subterrânea. Faz oito anos e, mesmo conhecendo novos lugares, nada se compara. A acústica, as luzes, o gelo seco. Existe algo mágico que não se perde com o tempo", conta Bárbara.

Durante a pandemia de covid-19, o Madame operou principalmente como hamburgueria. Hoje, como especificado em nota pelo estabelecimento, também se mantém disponível para locação para produções audiovisuais, comemorações privadas, eventos corporativos e outras finalidades. 

“Hoje deixou de ser tão underground quanto era. Eu gostaria que voltasse a ser. Mas ainda é especial. Não é só um rolê. É um lugar que representa muitos momentos da minha vida e da vida de muitas pessoas que passaram por lá”, conclui Gabrieli.

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