Daniela Maia, presidente de conselho da Ezzentia
Redatora
Publicado em 22 de julho de 2026 às 05h27.
Última atualização em 22 de julho de 2026 às 18h19.
"Se você quer mudar o mundo, mude os conselhos das empresas." A frase foi dita a Daniela Hennemann Maia por uma parlamentar indiana durante um módulo internacional em Londres, e ficou.
Dez anos depois de entrar para a primeira turma do ABP-W, o programa de formação de conselheiras da Saint Paul, a executiva hoje preside o conselho de uma empresa familiar e assina a consultoria própria, a Ezzentia, focada em criação de valor, governança e preparação de ativos para liquidez (M&A, pré‑IPO, spin‑off).
A trajetória de Daniela começou na área de consultoria, ainda na universidade, e passou pela KPMG Consulting, então parceira da Cisco, à frente de projetos de transformação digital no Brasil, nos Estados Unidos e na América Latina.
Depois do nascimento da primeira filha, ela decidiu reduzir as viagens e foi para o escritório de advocacia Barbosa Müssnich Aragão, onde chegou a diretora e conduziu o processo de planejamento sucessório dos sócios.
Seguiram-se passagens pela fundação do Mayer Brown no Brasil, por um projeto de governança na EBX de Eike Batista e, depois, oito anos no grupo Etna e Vivara, onde foi a primeira executiva sem vínculo familiar em posição de peso. Ali, liderou o split entre as duas operações e a preparação para o IPO da Vivara.
Na sequência, assumiu a CEO da unidade de não alimentos do Grupo BIG, então recém-adquirido pela Advent junto ao Walmart Brasil. Sob sua gestão, o faturamento da unidade saltou de R$ 1,5 bilhão para R$ 3,2 bilhões em um ano, resultado que antecedeu a venda da operação ao Carrefour.
Foi em meio a essa trajetória que Daniela recebeu o convite para a primeira turma do que hoje é o ABP-W, o Advanced Boardroom Program for Women da Saint Paul. À época, o mercado de conselhos no Brasil era pouco estruturado e havia praticamente nenhuma formação voltada especificamente para mulheres.
"Por que um programa só para mulher? Mulheres são iguais, a gente não precisa de um programa só para mulheres", pensou ela quando soube da proposta. A resistência inicial deu lugar ao interesse quando percebeu dois diferenciais do curso: o trabalho de competências comportamentais, pouco discutido no mercado de governança daquele período, e o módulo internacional.
Daniela Maia, presidente de conselho da Ezzentia
O aprendizado da Turma 1 reapareceu, segundo Daniela, em momentos decisivos da carreira. A formação em governança ajudou a embasar tanto o processo de split entre Etna e Vivara quanto a preparação para o IPO da joalheria, e voltou a ser referência anos depois, no processo de venda do Grupo BIG ao Carrefour.
Hoje doutoranda na FGV EAESP, com pesquisa sobre tomada de decisão coletiva e neurociência em conselhos, ela associa parte desse interesse acadêmico à própria experiência como conselheira desde 2004, quando começou a representar a administração em um assento de conselho na BMA.
A primeira turma reunia cerca de 30 mulheres. Hoje, a comunidade de alunos do programa passa de 300. Para Daniela, o crescimento reflete uma mudança de patamar: o Brasil tem cerca de 95% de empresas familiares, e historicamente as mulheres presentes em conselhos e lideranças eram, em sua maioria, herdeiras ou advogadas, raramente executivas vindas da área de negócios.
Para Daniela, a representatividade nos conselhos não se resume a uma pauta de gênero. Ela defende que diferentes trajetórias, moldadas por maternidade, cuidado familiar e posições de carreira distintas, produzem processos cognitivos diversos, e é essa diversidade que muda a qualidade das decisões colegiadas.
Uma turma pensada para abrir espaço, uma década depois, virou rede. E a frase ouvida em Londres continua sendo, para ela, a síntese mais simples do motivo pelo qual vale a pena estar lá.