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Redatora
Publicado em 4 de agosto de 2026 às 16h12.
Duas equipes avaliam a mesma empresa, com os mesmos dados financeiros, e chegam a números diferentes. Não é erro de conta — é a natureza do valuation.
Empresários que buscam captação, venda ou entrada de sócio costumam esperar um número único, uma resposta que sirva de âncora para toda a negociação. Quando o fluxo de caixa descontado e o método de múltiplos divergem, o mercado não trata isso como uma curiosidade estatística, mas frequentemente como sinal de erro de modelagem ou desalinhamento estrutural entre as duas leituras.
Entender por que isso acontece é o que separa quem negocia da posição de força de quem aceita o primeiro número que aparece.
O fluxo de caixa descontado identifica as oportunidades ligadas aos ativos da própria empresa, enquanto o método dos múltiplos compara a empresa com outras do mesmo setor. São, na prática, duas perguntas diferentes.
O primeiro método pergunta quanto essa empresa específica vai gerar de caixa no futuro. O segundo pergunta quanto o mercado está pagando, hoje, por empresas parecidas.
No fluxo de caixa descontado, o histórico de resultados é usado para projetar faturamentos futuros, com o crescimento médio dos últimos anos servindo de base para estimar os próximos exercícios. Essa projeção carrega premissas sobre crescimento, margem e taxa de desconto que um analista mais otimista e um mais conservador preenchem de formas diferentes, ainda que estejam olhando exatamente para os mesmos números.
Um erro comum é comparar os resultados brutos dos dois métodos como se fossem intercambiáveis. O fluxo de caixa descontado costuma assumir um valor de controle, no qual o comprador tem poder de decisão sobre os fluxos futuros da empresa, enquanto os múltiplos de mercado refletem participações minoritárias, o que torna a comparação direta entre os dois números uma distorção.
Essa diferença de referência explica boa parte dos casos em que dono de empresa vê dois laudos de valuation com resultados distantes e conclui, erroneamente, que um dos dois está errado.
Métodos baseados na capacidade futura de geração de caixa tendem a apontar valores mais altos do que métodos baseados no patrimônio da empresa, o que reforça que a escolha do método já embute uma tese sobre o que gera valor no negócio.
A prática recomendada pelo mercado não é escolher um número único como resposta final, mas construir uma faixa de valores sensível a diferentes premissas, reunindo os resultados de mais de um método antes de qualquer negociação.
É essa faixa, e não um valor isolado, que costuma orientar discussões de M&A e rodadas de captação mais maduras.
Pesquisas acadêmicas sobre o ambiente brasileiro mostram que modelos diferentes de valuation partem de premissas simplificadoras distintas, e que essas diferenças de premissa é que causam boa parte da divergência substancial entre os resultados.
Ou seja, a divergência não denuncia necessariamente um erro técnico. Denuncia, isso sim, uma diferença de olhar sobre o risco e sobre o futuro do negócio.
Para quem senta à mesa sem essa leitura, a diferença entre os dois números vira apenas desconforto. Para quem entende de onde ela vem, vira argumento — é a diferença entre aceitar o valuation apresentado pelo outro lado e questionar qual premissa está por trás dele.
Nenhuma fórmula substitui essa capacidade de leitura, sobretudo quando o dono da empresa é quem está do outro lado da mesa, sem formação técnica em finanças.