(Ronaldo Dias / EXAME)
Publicado em 3 de julho de 2026 às 09h00.
Última atualização em 3 de julho de 2026 às 10h40.
"Meu maior medo é a área de pessoas começar a se desconectar do negócio." A provocação, vinda de Raphael Bozza, CHRO do iFood, resume o maior desafio das lideranças de Recursos Humanos na era digital.
Em organizações de hipercrescimento, o RH frequentemente cai na armadilha de criar dinâmicas, agendas e metas isoladas, esquecendo-se de ouvir as reais dores da operação. No iFood, contudo, a estratégia foi desenhada para seguir o caminho inverso: aqui, a área de People tem assento definitivo na tomada de decisões e dita o ritmo do negócio.
O tamanho desse ecossistema impressiona. Líder em tecnologia na América Latina, o iFood conecta hoje mais de 65 milhões de consumidores, 500 mil estabelecimentos parceiros e cerca de 600 mil entregadores, processando mais de 180 milhões de pedidos mensalmente. O impacto é macroeconômico: as atividades da plataforma respondem por 0,64% do PIB brasileiro, movimentando cerca de R$ 140 bilhões em atividade econômica.
Sustentar essa engrenagem exige uma força de trabalho robusta. São mais de 8 mil colaboradores — com o acréscimo de mais de 1.000 profissionais apenas no último ano. Conduzir essa massa crítica enquanto a empresa acelera investimentos em Inteligência Artificial (IA) exige um RH que jogue no ataque. "Quando estamos pensando o iFood daqui a 12, 18 ou 24 meses, estamos construindo isso junto com o negócio", afirma Bozza.
Para guiar a organização em um mercado que se transforma em velocidade inédita, a área de People do iFood se apoia em três grandes direcionais estratégicos:
Acelerar talentos e construir a liderança do iFood;
Garantir a cultura que habilita o crescimento;
Protagonizar a gestão da mudança.
O melhor exemplo prático do terceiro pilar está na adoção da Inteligência Artificial. Diferente de empresas tradicionais que isolam o tema nos departamentos de TI ou Engenharia de Dados, o iFood trata a IA como uma transformação estritamente organizacional. A área de pessoas atua diretamente com as frentes de negócio e tecnologia para capacitar, aculturar e liderar a transição cultural que a IA exige de cada funcionário.
Se a tecnologia dá a escala, a cultura do iFood — pautada pelo inconformismo, pela obstinação e pelo sonho grande — funciona como o cimento que mantém o ecossistema unido. "Nossa cultura é inegociável. Queremos pessoas que olhem para cá e digam: 'É lá que eu quero estar'", pontua o CHRO.
Para blindar esse ambiente contra contratações desalinhadas, a empresa utiliza a figura do Bar Raiser no processo seletivo. Trata-se de um profissional altamente treinado na cultura da companhia que atua como o último avaliador da jornada do candidato. O seu papel é crucial: o Bar Raiser possui poder de veto definitivo. Mesmo que o gestor da vaga e toda a equipe tenham aprovado o técnico, se o guardião cultural apontar desalinhamento, a contratação é barrada.
Gerenciar 8 mil pessoas de forma fluida e sem burocracia exige tecnologia de ponta na gestão interna. No iFood, os colaboradores são avaliados de maneira contínua através de uma régua que mede quatro elementos fundamentais: Cultura, Performance, Liderança e IA.
O desempenho em cada uma dessas verticais é traduzido em uma escala de 1 a 5, com nomenclaturas que refletem o DNA ágil da companhia:
1: Estacionado
2: Ajustando rota
3: Na rota
4: Brilhou na entrega
5: Voando alto
"Para a gente, não existe uma 'área de pessoas' isolada. O RH é um habilitador. Quem vive o dia a dia, as dores, os desafios e as conquistas na prática é a liderança", explica Bozza.
O resultado dessa arquitetura corporativa aparece no orgulho de quem entra. Segundo o executivo, o principal feedback de quem chega à companhia é notar que o discurso externo se confirma nos bastidores.
Seja nas reuniões trimestrais de resultados, na resolução de crises complexas ou nos momentos de All Hands (os alinhamentos gerais da empresa), a cultura do iFood deixa de ser um quadro na parede para se tornar a prática que move quase 1% da economia do país.