Carreira

‘Tenha líderes que te percebam e enxerguem o seu potencial’, diz diretora da Swarovski

Carla Assumpção, diretora-geral da Swarovski na América Latina, conta como o olhar dos seus chefes foi decisivo a ascensão da sua carreira, que soma 26 anos na marca austríaca

Carla Assumpção, diretora-geral da Swarovski na América Latina: “Eu falo que há líderes que são como anjos na nossa carreira que enxergam em você aquilo que você ainda não percebeu” (Leandro Fonseca /Exame)

Carla Assumpção, diretora-geral da Swarovski na América Latina: “Eu falo que há líderes que são como anjos na nossa carreira que enxergam em você aquilo que você ainda não percebeu” (Leandro Fonseca /Exame)

Publicado em 6 de setembro de 2026 às 08h06.

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Às vezes, o próximo passo de uma carreira é percebido primeiro por outra pessoa.

Foi assim com Carla Assumpção, diretora-geral da Swarovski na América Latina. Depois de passar por diferentes áreas da companhia no Brasil, conhecer clientes, processos, marketing, vendas, finanças e logística, ela acreditava conhecer bem o negócio, mas não imaginava que já estivesse pronta para assumir uma posição de liderança geral.

Até que o líder da marca na América Latina a chamou para uma conversa e anunciou: ela seria sua sucessora.

Para ele, a decisão parecia natural. Para Assumpção, não.

“Eu não me via apta para assumir uma cadeira geral. Então, acredito que a carreira da gente passa também por essas pessoas que te percebem. E, quando elas te percebem, são como uma alavanca para você”, afirma.

A executiva diz que, muitas vezes, o profissional não consegue dimensionar sozinho o quanto está preparado para um novo desafio. Por isso, considera decisiva a presença de líderes capazes de identificar potencial antes mesmo de o próprio funcionário reconhecê-lo.

“Eu falo desses anjos na nossa carreira que enxergam em você aquilo que você ainda não percebeu”, diz.

Assumpção conta que teve a oportunidade de ter pessoas que a levaram ao longo desses 26 anos na marca.

"Eu tive a sorte de ter sido percebida primeiro por alguém, que me trouxe para uma próxima etapa antes mesmo de eu ter percebido que já estava pronta.”

A experiência acabou moldando também a forma como Assumpção passou a liderar. Se sua trajetória foi impulsionada pelo olhar de outras pessoas, hoje ela diz tentar fazer o mesmo por quem trabalha ao seu lado.

“Uma das habilidades que me fez chegar até aqui foi esse olhar para pessoas. Talvez seja até porque a minha carreira foi desenhada através do olhar do outro, muito mais do que pelo meu próprio”, afirma.

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De bailarina à liderança da Swarovski

A trajetória até o comando regional da marca austríaca esteve longe de seguir uma linha reta.

Nascida em Guarulhos, na Grande São Paulo, Assumpção cresceu em uma família com três filhas. O pai, dentista, reforçava que, independentemente da profissão escolhida, as filhas deveriam buscar independência. A mãe, professora, também serviu como referência de uma mulher independente.

Antes do mundo corporativo, porém, veio a dança. Assumpção foi bailarina por quase 15 anos durante a adolescência. Mais tarde, formou-se em publicidade e iniciou a carreira em uma agência de propaganda na Avenida Paulista. Depois, se mudou para Los Angeles, onde estudou gestão e começou a trabalhar com a distribuição de uma marca brasileira de moda praia nos Estados Unidos.

A aproximação com a Swarovski aconteceu quase por acaso. Durante uma passagem pelo Brasil, Assumpção foi chamada para auxiliar em uma entrevista com Isabella Blow, então uma das figuras mais influentes da moda britânica. A relação abriu caminho para que ela começasse a atuar como agente em projetos da Swarovski com estilistas brasileiros.

Depois, recebeu o convite para voltar ao Brasil e integrar oficialmente a companhia, em 2000.

O que começou no marketing se transformaria em uma trajetória de 26 anos dentro da mesma empresa. Assumpção passou pela liderança de uma divisão de componentes, assumiu posteriormente o varejo, ganhou responsabilidade sobre outros países e, finalmente, chegou ao comando da América Latina.

Segundo ela, permanecer tanto tempo em uma companhia não significou permanecer fazendo a mesma coisa.

"As mudanças de área e de responsabilidade me fizeram ter a sensação de passar por diferentes empresas dentro de uma só", afirma.

“Eu sou uma maestra de uma excelente orquestra”

A experiência de ter sido impulsionada por outras lideranças também influencia uma das principais regras de Assumpção para montar equipes: não ter medo de contratar gente melhor do que ela.

“Eu sempre trouxe para o meu lado pessoas muito melhores do que eu. Eu sou uma grande maestra de uma excelente orquestra”, afirma. “Tenho gente muito melhor do que eu no que eles fazem. Mas orquestrar todo mundo é onde vejo que sou muito boa.”

Para a executiva, cercar-se de profissionais altamente competentes exige segurança do próprio líder. O risco, segundo ela, é que gestores se sintam ameaçados justamente pelas pessoas que poderiam elevar o desempenho da equipe.

Assumpção defende o contrário. Quanto mais preparada a equipe, menos dependente a organização fica de uma única pessoa.

“Quando você compõe ao seu redor pessoas altamente eficazes, você sempre tem a sensação de que é dispensável. É para isso que servem grandes equipes. A empresa tem que ser um organismo vivo, independente de um único player.”

Ela afirma considerar justamente a capacidade de reconhecer talentos e formar equipes uma de suas principais habilidades como gestora.

Veja também: “A aposentadoria não é o fim, mas um novo começo”, afirma João Carlos Martins

Disciplina para tomar decisões

A rotina da executiva também ajuda a explicar seu estilo de liderança. Responsável por uma região que inclui mercados como Brasil e México, Assumpção viaja constantemente e diz encontrar na disciplina uma forma de manter estabilidade em meio a uma agenda pouco previsível.

Há mais de 25 anos, pratica yoga, mais especificamente Ashtanga, modalidade que exige disciplina física. O exercício, segundo a executiva, se tornou parte essencial de sua preparação para o trabalho.

“Quando eu vejo que fico só no mental, as coisas deixam de ficar claras, as decisões deixam de ficar claras. Então, eu preciso levar para o corpo.”

Mesmo depois de viagens ou diante do cansaço, tenta começar o dia com alguma atividade física. Mais do que uma preocupação estética, ela associa a prática à capacidade de tomar decisões estratégicas com clareza.

Hoje, diz viver sua melhor fase como executiva, não necessariamente pelo cargo que ocupa, mas pelo autoconhecimento adquirido ao longo da trajetória.

“Cheguei num lugar, não de posição de carreira, falo muito mais de autoconhecimento, onde sei das minhas capacidades, das minhas limitações e olho o outro com um desejo de passar tudo que aprendi.”

A executiva que não quer mais ser “supermulher”

A experiência também mudou a maneira como Assumpção enxerga a cobrança por dar conta de tudo.

Ao falar sobre realização profissional e pessoal, ela rejeita a ideia da executiva que precisa sustentar permanentemente uma imagem de “supermulher”.

“Hoje me sinto uma pessoa muito realizada, não somente profissionalmente, mas como mulher, como mãe. Realizada dentro das minhas limitações, das minhas sombras. Não estou dizendo que sou uma supermulher. Esse papel também não quero mais exercer. Já exerci, mas hoje não quero mais.”

Para ela, o estágio atual da carreira tem menos relação com acumular títulos e mais com usar a experiência adquirida para desenvolver outras pessoas e influenciar o ambiente ao redor.

É uma espécie de fechamento do ciclo iniciado anos atrás, quando alguém enxergou nela uma líder antes que ela própria se enxergasse dessa forma.

O conselho que mudou sua forma de liderar

Entre as lições recebidas ao longo da carreira, uma permanece como referência.

O conselho veio de René, um dos profissionais que, segundo Assumpção, tiveram papel importante em sua trajetória: para ser um bom executivo, é preciso primeiro se colocar no lugar do outro.

A recomendação parece simples, mas, segundo ela, ganha outra dimensão quando alguém ocupa uma posição de poder.

“Você tem o poder da caneta. Muitas vezes tem o poder do título, tem o poder da decisão. Mas, na hora que você se coloca no lugar do outro, muda muito a sua perspectiva e o seu ângulo”, afirma. “Eu pratico isso. Foi um conselho que parece óbvio, mas mudou minha vida.”

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