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SXSW 2026: o festival que perdeu o prédio e reinventou o futuro da inovação

Alguns dias de SXSW 2026 já foram suficientes para entender que o festival está passando pela mesma reinvenção que você

Pela primeira vez em sua história de 40 anos, o SXSW se espalhou pela cidade como um organismo que trocou o esqueleto fixo por algo mais fluido e tomou a cidade inteira como corpo (Julia Beverly/WireImage/Getty Images)

Pela primeira vez em sua história de 40 anos, o SXSW se espalhou pela cidade como um organismo que trocou o esqueleto fixo por algo mais fluido e tomou a cidade inteira como corpo (Julia Beverly/WireImage/Getty Images)

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Publicado em 24 de março de 2026 às 11h27.

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Por Simone Sancho, CEO da Belong Be | Austin, Texas

Tem uma coisa estranha em chegar ao SXSW este ano e não saber para onde ir.

Não metaforicamente. Literalmente. O Austin Convention Center, o prédio que foi o coração físico do festival por três décadas, foi demolido. No lugar, uma obra que entregará as chaves em 2029. Então, pela primeira vez em sua história de 40 anos, o SXSW se espalhou pela cidade como um organismo que trocou o esqueleto fixo por algo mais fluido e tomou a cidade inteira como corpo. O credenciamento ficou aqui. A conferência de inovação foi para lá. A música para acolá. E milhares de pessoas com badges no pescoço circulando pela Congress Avenue com aquela mistura característica de propósito e descoberta.

Alanis Morissette ficou famosa por catalogar situações que não são tecnicamente irônicas, mas doem exatamente como se fossem. Esse Austin sem Convention Center é precisamente isso. Isn't it ironic?

O que se reinventa primeiro

Na manhã do segundo dia, Steven Spielberg ocupou um palco e disse uma frase que eu não consegui parar de pensar: "Eu não sou a favor de uma IA que substitui um indivíduo criativo." Simples. Direto. Mas dito por quem raramente usa o SXSW para distribuir declarações, a frase pesou diferente. Ele falou de intuição, de "sussurros" que guiam sua câmera mais do que qualquer storyboard, de como Schindler's List e Os Fabelmans foram filmados sem uma única decupagem previamente desenhada. Não porque ele fosse descuidado. Porque ele entende que a melhor verdade de uma cena não existe antes do momento em que ela acontece.

Na manhã seguinte, foi a vez de Amy Webb subir ao palco para fazer algo que ninguém esperava: enterrar o próprio relatório de tendências. Quase duas décadas produzindo o documento mais influente do mercado sobre o futuro da tecnologia, e ela resolveu matar o filho com as próprias mãos. Não porque o relatório fosse ruim. Porque, segundo ela, tendências se tornaram insuficientes. A ideia de listar o que está mudando, por si só, nos condicionou a ver o futuro como uma sequência de eventos separados, quando o que realmente importa são as convergências. Os pontos onde forças aparentemente distintas se encontram e criam algo que nenhum mapa de tendências conseguiu prever.

Dois dias. Dois dos pensadores mais respeitados de suas áreas. Transcendendo, cada um à sua maneira, as ferramentas que usaram para se tornar quem são.

Há algo acontecendo aqui que vai além de Austin.

O espelho que o festival virou

O SXSW 2026 chegou aos 40 anos no meio de uma metamorfose. A própria organização usa a expressão "prove it year" para descrever está edição, e há algo muito honesto nisso: poucos eventos do mundo teriam coragem de nomear publicamente o próprio momento de reinvenção. O número de credenciados da conferência foi de 76 mil em 2023 para menos de 38 mil em 2025, um movimento que pode ser lido como enxugamento ou como curadoria, dependendo de quem voce encontra nos corredores. Quando os encontros são melhores, os números importam menos. O convention center se foi para dar lugar a uma reforma de 1,6 bilhão de dólares prevista para 2029, e o festival se libertou de sua ancora geográfica e tomou a cidade inteira. Hugh Forrest, que passou mais de três décadas construindo a trilha de tecnologia e transformando Austin no epicentro cultural global que ela e hoje, abriu espaço para um novo capítulo em 2025. A Penske Media Corporation, que entrou no capital em 2021 e assumiu o controle total em 2023, trouxe novos recursos e uma visão de longo prazo para um festival que nunca precisou de permissão para existir. O resultado de tudo isso está nas ruas de Austin esta semana: um evento mais espalhado, mais diverso e, de um jeito que so o tempo vai confirmar, mais pronto para os próximos 40 anos.

E assim, o festival continua pulsante.

Eu vi isso na quinta-feira, quando a SP House abriu suas portas na Congress Avenue e uma fila de brasileiros ocupou a calçada antes mesmo do café esfriar. Somos, pelo terceiro ano consecutivo, a maior delegação estrangeira do SXSW: 2.500 pessoas, mais de 40 palestrantes no palco oficial, uma casa de 2.200 metros quadrados que mistura negócios com samba e baião numa velocidade que apenas nós sabemos executar. Tracy Mann, responsável pelo desenvolvimento internacional do festival para o Brasil há quase três décadas, disse com admiração: "Os brasileiros entendem como a cultura e a tecnologia se misturam para melhorar a sociedade." Ela disse isso como quem descobre algo novo. Para nós, é como respirar.

Vi também naquela mesma sexta, já à noite, quando a Fuerza Regida headlineou o Rolling Stone Future of Music Showcase e transformou o ACL Live num acontecimento que se pareceu com uma declaração de soberania cultural. A banda de música mexicana não chegou ao SXSW pedindo espaço. Construiu sua própria infraestrutura, alcançou centenas de milhões de streams sem precisar da bênção do mainstream americano, e apareceu em Austin como protagonista. Exatamente como o Twitter apareceu em 2007. Exatamente como o podcast apareceu em 2015. Exatamente como a IA generativa apareceu em 2023.

E então veio o sábado, quando Alanis Morissette subiu ao palco do Stubb's para o show do Spotify e fez uma plateia inteira cantar Ironic em uníssono sob o céu de Austin. Há algo de perfeitamente calibrado nisso: a mulher que nos ensinou a encontrar poesia no que não sai como planejado, tocando num festival que está aprendendo a mesma lição em tempo real.

O SXSW sempre foi assim: não inventa o futuro, mas é o lugar onde ele aparece em público pela primeira vez.

O que sobrevive quando o prédio se vai

Tem um detalhe que eu não consigo tirar da cabeça desde que cheguei.

Num corredor do JW Marriott, no segundo dia do festival, ouvi uma conversa entre um fundador de startup de Lagos e um produtor de cinema de Lisboa sobre o futuro da narrativa com IA. Nenhum dos dois se conhecia antes. Os dois perderam a palestra seguinte porque não conseguiram parar de conversar. Esse tipo de coisa não acontece em Davos. Não acontece na CES. Acontece aqui, às 11 da manhã, num corredor de hotel, entre desconhecidos que decidiram que a conversa era mais importante que o próximo painel.

É isso que resiste quando o prédio se vai. Não o mapa. Não o relatório. A conversa.

Spielberg falou dos "sussurros da intuição". Amy Webb falou das "convergências que nenhuma tendência captura". Jamie Lee Curtis, num painel que poucos esperavam que emocionasse tanto, falou sobre a necessidade urgente de conexão humana num mundo que delega cada vez mais para algoritmos a tarefa de intermediar nossas relações. Três pessoas. Três linguagens. Três gerações. O mesmo argumento.

O que veio depois

Na segunda-feira, Nancy Pelosi gravou um podcast ao vivo para uma sala que fez fila antes do amanhecer, e Noah Kahan apareceu sem aviso num bar da Sixth Street para trinta minutos que ninguém esquece. Na terça, os Los Lobos tocaram cinquenta anos de carreira como se estivessem começando, e Lainey Wilson caiu de joelhos no palco do Stubb's durante Dreamcatcher, para uma plateia rarefeita que ela encheu só com a voz. Um guaxinim atravessou o gramado sem pressa. Ninguém parou o show. Na quarta-feira, as equipes já desmontavam as tendas enquanto Christina Aguilera ainda cantava no Auditorium Shores. Austin foi sendo devolvida a si mesma, como acontece todo ano, como se a cidade soubesse exatamente quanto tempo precisa esperar para retomar sua rotina de ser o lugar mais generoso do Texas.

Por Simone Sancho, CEO da Belong Be: "O SXSW 2026 enxugou os credenciados, liberou seu prédio histórico para uma reinvenção de 1,6 bilhão de dólares e abriu espaço para uma nova liderança" (Belong Be/Divulgação)

O festival no espelho

Há algo de profundamente elegante no que o SXSW está vivendo em seu 40 aniversario.

O festival enxugou os credenciados, liberou seu prédio histórico para uma reinvenção de 1,6 bilhão de dólares e abriu espaço para uma nova liderança. Ficou menor, mais concentrado, mais urbano e, paradoxalmente, mais próximo do espírito que o fundou em 1987 com pouco mais de 170 bandas nos bares da Sixth Street. O dono do Mohawk, James Moody, disse sem romantismo: "O festival menor voltou a ser sobre descoberta. Era exatamente isso que sempre deveria ter sido."

Reinvenção, quando feita com coragem, não é o recomeço de nada. E o momento em que uma instituição, uma empresa ou uma pessoa para de repetir quem foi e começa, finalmente, a escolher quem quer ser.

O SXSW está nesse momento.

E, se eu for honesta, o Brasil também. A IA também. Você provavelmente também.

E tudo que foi visto e vivido no festival bastou para deixar isso muito claro.

Jack Jones tinha uma música chamada The Impossible Dream. Eu costumava achar que era sobre heroísmo. Agora acho que é sobre isso: continuar em frente quando o mapa antigo não faz mais sentido e o novo ainda não tem nome. O SXSW conhece essa música de cor. E eu, por ora, vou parar de buscar tendencias e ficar de olhos abertos para identificar as convergências.

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