Mais da metade das empresas afirma manter no começo do ano o mesmo ritmo de admissões do período anterior, aponta o estudo (Photo by Mike Kline (notkalvin)/Getty Images)
Repórter
Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 08h01.
“Ei, você aí, me dá dinheiro aí...” O clássico das marchinhas de Carnaval brinca com a busca por dinheiro fácil, mas a realidade do mercado hoje é outra: trabalhadores querem emprego, estabilidade e renda, e as empresas, por sua vez, estão cada vez mais dispostas a contratar, mesmo em período festivo. É o que mostra uma pesquisa do Pandapé, software de recrutamento da América Latina, que ouviu profissionais de RH de 205 empresas.
Segundo o levantamento, 43,9% das empresas consideram o pré-Carnaval um momento estratégico para contratações, enquanto 40% aproveitam o período para organizar processos internos e preparar admissões futuras. O resultado sugere uma mudança na forma como as empresas encaram o início do ano: em vez de suspender decisões, o foco está na previsibilidade e na eficiência dos processos de recrutamento.
Para Daniel Consani, CEO do Grupo TopRH, essa transformação reflete o amadurecimento da gestão de pessoas no país.
“A decisão de contratar deixou de ser pautada por marcos culturais e passou a ser guiada por planejamento orçamentário, metas trimestrais e indicadores de desempenho. O Carnaval já não interrompe processos porque as empresas operam com cronogramas definidos e metas claras desde janeiro”, afirma.
A percepção sobre o impacto da própria festa também mudou. Para 48,3% dos respondentes, o Carnaval é neutro em relação às contratações. Outros 32,7% veem a data como etapa preparatória para admissões mais qualificadas na sequência. Apenas 19% ainda associam diretamente o período à desaceleração das contratações.
Na prática, o comportamento predominante é de estabilidade. Mais da metade das empresas (53,7%) afirma manter no começo do ano o mesmo ritmo de admissões do período anterior. Já 24,9% planejam acelerar contratações antes do Carnaval, enquanto 21,5% preferem concentrar processos após a data.
Os dados, segundo Consani, não significam necessariamente um aumento no número de vagas, mas sim maior continuidade nos processos seletivos.
“Não necessariamente há mais vagas por causa do Carnaval. O que há é mais estabilidade no ritmo de contratação. Se a empresa precisa contratar, ela segue o fluxo. A lógica hoje é de continuidade, não de pausa”, diz.
O cenário reforça a ideia de que o calendário cultural vem perdendo peso nas decisões corporativas. Para 45,8% das empresas, o volume de contratações tende a crescer depois do Carnaval, enquanto 45,5% projetam estabilidade. Apenas 6,3% indicam redução significativa, um número que ajuda a explicar por que a festa deixou de ser considerada um divisor rígido na gestão de talentos.
Quando questionadas sobre o impacto direto do Carnaval no ritmo de admissões, 43,4% das empresas classificam a influência como pequena e 35,1% afirmam que ela simplesmente não existe. Ou seja, só uma minoria ainda percebe o período como fator relevante na definição das contratações.
A composição da amostra ajuda a contextualizar a mudança. A pesquisa reúne principalmente empresas dos setores de varejo (28,3%), serviços (19%) e indústria (16,5%), segmentos historicamente sensíveis a oscilações de demanda e sazonalidade de mão de obra. Ainda assim, os dados indicam um amadurecimento das práticas de RH, com decisões cada vez mais baseadas em indicadores internos, histórico de contratações e planejamento de demanda.
Essa evolução ganhou força nos últimos anos, especialmente após a pandemia, conta Consani.
“A digitalização dos processos seletivos, o uso de dados e plataformas de recrutamento e a pressão por eficiência fizeram o RH amadurecer. O que antes era uma decisão quase automática (esperar passar o Carnaval) passou a ser substituído por análise de demanda, orçamento e estratégia de negócio”, afirma.
Para o professor Fernando Eduardo Cardoso, coordenador do curso de Gestão de Recursos Humanos da Uniasselvi, a mudança está ligada a uma transformação estrutural na gestão das empresas.
“Historicamente, o Carnaval funcionava como um marco simbólico de início efetivo do ano corporativo. Hoje, as decisões de contratação estão menos subordinadas ao calendário cultural e mais orientadas por planejamento estratégico, orçamento definido, análise de dados e modelos preditivos de demanda”, afirma.
A mudança não significa necessariamente mais vagas, segundo Cardoso, mas decisões mais previsíveis e estratégicas.
“Não se trata de ter mais vagas, mas de ter mais previsibilidade. O ritmo de contratação passou a ser guiado por dados e pela necessidade real do negócio, e não pelo calendário social”, afirma.
Hoje, antes de abrir uma vaga, as empresas avaliam critérios cada vez mais objetivos, diz Consani. “A vaga precisa estar conectada à geração de receita, ganho de eficiência ou mitigação de risco. Também se analisa se há possibilidade de redistribuição interna e se o perfil agrega competências estratégicas, especialmente digitais e comportamentais”.
A qualidade da contratação, segundo Consani, passou a pesar mais que a velocidade, já que erros têm impacto direto na produtividade, no clima organizacional e na rotatividade.
Para 2026, a tendência é de um mercado mais seletivo e técnico, independente se há festa na rua ou não.
“As empresas devem priorizar profissionais com competências digitais, capacidade analítica, adaptabilidade, inteligência emocional e visão sistêmica. Não é um cenário de explosão de vagas, mas de contratações mais qualificadas e alinhadas ao negócio”, diz.
Mesmo assim, o início do ano continua sendo um momento favorável para quem busca recolocação.
“As empresas começam o ano com orçamento aprovado, planejamento fechado e metas definidas, o que gera movimentação, mas o fator decisivo não é o calendário, é o preparo do profissional. Quem começa o ano com posicionamento claro, currículo estruturado e foco estratégico aumenta muito as chances de aproveitar as oportunidades”, afirma Consani.
Para muitos profissionais, o momento, mesmo com o Carnaval, é de 'seguir em frente', como dizia a marchinha “Ó abre alas, que eu quero passar”. Hoje, as empresas parecem cada vez mais dispostas a abrir esse caminho, mesmo em plena folia.