Quando o verbo ser é intransitivo? Veja exemplos

Na coluna desta semana, o professor Diogo Arrais explica como, embora seja um verbo de ligação, há ocasiões em que ser também é intransitivo
 (Khosrork/Thinkstock)
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Diogo Arrais, professor de português (@diogoarrais)

Publicado em 16/08/2022 às 15:18.

Última atualização em 16/08/2022 às 15:23.

"É defeso ao advogado expor os fatos em Juízo falseando deliberadamente a verdade ou estribando-se na má-fé.”

O trecho está no Código de Ética, da Ordem dos Advogados. Pergunta-se: qual o sentido do termo defeso?

VEJA TAMBÉM:

O adjetivo “defeso” provém da forma latina “defensus” e significa “impedido”, “proibido”.

Um detalhe normativo chama a atenção: caso existisse o verbo ser (classificado como de ligação) e do determinante (artigo), o termo defeso deveria estar no feminino.

“É defesa a acusação no Tribunal, não havendo...”

Nesse caso, o verbo ser – por ligar atributo ao sujeito – é de ligação. Porém, precisamos percebê-lo além.

Ser - intransitivo

Vejamos este trecho:

"Respondeu-lhe Jesus: Em verdade vos digo que antes que Abraão fosse feito, eu sou.”

 Por anos a fio, simplesmente memorizamos que “ser” é um verbo de ligação, que denota o predicativo, o atributo ao sujeito. Nem sempre.

Tão forte é o hábito de tal processo mnemônico que muitos, de antemão, questionariam:  “É o quê?”, “Sou o quê”, “Ele é o quê?”, “Que ele é?”.

Em uma de suas ocorrências, o verbo “ser” – como intransitivo – significa “ter existência real”, “existir”, “haver”.

Em termos gramaticais, na frase inicial, o mestre e líder Jesus – com simplicidade e elegância – destaca sua existência no presente do indicativo, ou seja, ubíqua, onipresente, infinita, universal.

Ademais, no próprio Aurélio, há uma belíssima citação do poeta Alberto de Serpa:

“É melhor ficar / Calmo, sem procela / No quieto mar / Que é nos olhos dela.”

Ao poeta, é preciso usar a palavra para ir além; por isso, optou pelo registrar um quieto mar que existe, infinitamente, dentro dos olhos de sua amada. Bonito o trecho? Uma verdadeira sinfonia entre o processo figurativo do par “mar-olhos” e a palavra que se conjuga, na universalidade do presente do indicativo.

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DIOGO ARRAIS

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