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Olimpíada 2024 terá a maior participação feminina em 100 anos; veja o que esperam essas atletas

Dos 10,5 mil atletas participantes dos Jogos Olímpicos deste ano, serão 5,25 mil homens e 5,25 mil mulheres. Em entrevista exclusiva à EXAME, veja a história e o que esperam essas três atletas brasileiras que irão disputar o pódio em Paris

Rebeca Andrade, ginasta olímpica: “Seja tendo a Olimpíada como objetivo, seja mirando algum outro sonho pessoal ou profissional, dê o seu máximo, se dedique e não deixe que nada ou ninguém te faça desistir. Faça sempre o seu melhor.” (Redes sociais/Reprodução)

Rebeca Andrade, ginasta olímpica: “Seja tendo a Olimpíada como objetivo, seja mirando algum outro sonho pessoal ou profissional, dê o seu máximo, se dedique e não deixe que nada ou ninguém te faça desistir. Faça sempre o seu melhor.” (Redes sociais/Reprodução)

Publicado em 28 de junho de 2024 às 11h39.

Última atualização em 28 de junho de 2024 às 14h16.

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Os Jogos Olímpicos de Paris trazem uma grande lição para o mercado de trabalho. Pela primeira vez, o maior evento esportivo do mundo será realizado com total igualdade de gênero nas competições. Dos 10,5 mil atletas participantes da Olimpíada de Paris 2024, serão 5,25 mil homens e 5,25 mil mulheres, maior participação feminina em 100 anos.

Para a head de operações e planejamento da Trilha Carreira Interativa, Roberta Paim, essa iniciativa é um exemplo para o mercado de trabalho sobre como priorizar ações que garantam a representatividade feminina.

“O movimento olímpico deu um grande passo em relação à igualdade de gênero. Foi importante trazer essa questão para o esporte, que é uma das paixões globais e para um evento de visibilidade mundial, e mostrar quanto isso é benéfico para todos. É a hora de os líderes empresariais pararem e verem quanto é fundamental trazer essa iniciativa para dentro das organizações”, afirma Paim.

A diversidade é intencional

A igualdade de gênero na Olimpíada de Paris 2024 aconteceu em razão de inúmeras iniciativas lideradas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), em parceria com o Movimento Olímpico, Federações Internacionais e Comitês Olímpicos Nacionais.

Mais do que esporte, segundo Paim, o evento está trazendo para debate questões urgentes como igualdade e equidade já que as mulheres ocupam menos de 40% dos cargos de liderança no Brasil.

“Ainda há muitos desafios como a equiparação salarial e a dificuldade de ascensão a cargos de liderança e barreiras de natureza legal, social, cultural, educacional, entre outras. Além disso, as vantagens da liderança feminina impactam positivamente a produtividade e performance, resultados em práticas de ESG, redução de risco operacionais das empresas e até a distribuição de renda no país”, afirma.

A força do time feminino: a transição de Gabriela Lima, do rugby feminino

O time brasileiro chega nestes Jogos Olímpicos mais diverso do que nunca: serão 101 vagas femininas e 47 masculinas e outras 15 sem gênero.

Uma delas é a carioca Gabriela Lima, que fará parte do time de rugby feminino que buscará a primeira medalha olímpica de sua história este ano.

“A diversidade é importante não apenas nos Jogos Olímpicos. Mas, neste evento, significa que todos devem se sentir parte, pertencentes a este ambiente esportivo, independentemente de sexo, raça, religião, entre outros fatores”.

O esporte entrou na vida de Lima por meio do atletismo e não do rugby. Aos 11 anos, ela já competia provas de salto em altura e corridas com barreiras. Após um tempo, Lima passou a dedicar exclusivamente aos 100m com barreiras, onde conseguiu se destacar a nível sul-americano. Foram 15 anos de dedicação ao atletismo e, em 2019, iniciei a transição para o rugby.

“Nasci no Rio de Janeiro, mas já morava em São Paulo desde o fim de 2016. Treinava no Esporte Clube Pinheiros quando soube que um técnico de rugby estava precisando de meninas rápidas para um teste. Fiquei na dúvida inicialmente, até porque não conhecia nada do esporte, mas depois aceitei encarar um período de testes durante três meses. Acabei me encaixando muito bem, fui aprovada e, a partir dali, comecei a treinar e jogar pela seleção brasileira.”

Essa transição esportiva foi o maior desafio da carreira de Lima que explica que enquanto o atletismo é um esporte individual, o rugby é um esporte coletivo, de muito contato, que exige diversas tomadas de decisão e muito conhecimento técnico-tático. “No início, posso dizer que foi desafiador e até um pouco frustrante, porque não conseguia executar tudo da forma correta, além disso, tive uma lesão séria que me deixou afastada três meses do esporte”.

Paris 2024 será a estreia da jogadora de rugby em Jogos Olímpicos, que já defendeu a seleção brasileira de rugby em outros grandes campeonatos, como a Copa do Mundo de 2022, na Cidade do Cabo (África do Sul), e os Jogos Pan-americanos Santiago 2023, em que conquistou uma medalha de bronze.

O rugby que ainda hoje é visto como um esporte mais bruto e masculino está ganhando destaque no Brasil. O time conhecido por “Yaras” conquistou a medalha de bronze nos Jogos Pan-americanos Santiago 2023 e acabaram de alcançar a melhor colocação no Circuito Mundial em todos os tempos: 10º lugar ao fim da temporada 2023/2024.

“Conseguimos ainda grandes resultados no Circuito Mundial, tendo vencido seleções tradicionais, como Irlanda e Fiji, então nos sentimos muito preparadas para esses Jogos Olímpicos.”

Entre as mensagems de apoio que ela deixa para as mulheres, estão fé e trabalho duro.

“Não deixe ninguém te dizer que esporte não é para mulher. Nós, mulheres, podemos ter um corpo forte, rápido e potente. Se este for o teu sonho, se tornar uma atleta olímpica, trabalhe duro diariamente. Nunca desista, porque a jornada não será fácil, mas quando conseguimos, é muito gratificante”.

O alvo dela é o pódio e as pessoas: a história da Ana Luiza Caetano, tiro com arco

Ana Luiza Caetano, de 21 anos, também passou por uma transição esportiva. Ela já foi velejadora, mas foi no tiro com arco que se encontrou. “Pratico o tiro com arco há dez anos, mas o meu início no esporte foi por meio da vela. Desde os 7 anos já sonhava em participar dos jogos olímpicos. Foram no mínimo 14 anos construindo esse sonho.”

Para ela, participar da Olimpíada neste ano é mais do que um sonho. Quando ela começou no esporte, não era comum ter meninas praticando esse esporte.

“Fui a única menina da minha turma por muito tempo e sempre foi inspirador demais ver mulheres profissionais no alto rendimento. Hoje, ser uma delas e ver quanto a gente representa no esporte profissional é com certeza a sensação de um sonho.”

A atleta começou o tiro com arco em 2014, por meio de um projeto de incentivo ao esporte na cidade de Maricá, Rio de Janeiro, onde treina até hoje. “Foi o meu irmão mais velho que quis praticar e quando eu o trouxe para o treino foi amor à primeira vista”.

Um dos maiores desafios para Caetano foi ouvir por muito tempo familiares falando sobre quanto o “esporte masculiniza”. “Falavam que eu não deveria levar esse esporte tão a sério, porque não era coisa de menina. É sempre um prazer mostrar para eles que isso não é verdade”.

Outro grande desafio para a atiradora foi a falta de voz, não apenas por ser mulher, mas também por ser muito jovem. “Foi apenas com muito trabalho com a minha psicóloga e companheiros de equipe, um tanto quanto compreensivos, que aos poucos eu fui entendendo que minhas demandas são tão válidas quanto a de todos e elas não devem ser menosprezadas”.

Caetano já foi campeã brasileira por meio de grandes campeonatos mundiais, como a Sul-Americana, Pan-América, além de ser ouro no mundial militar. O ano de participar da Olimpíada chegou, e em Paris ela espera mostrar que lugar de mulher também é no campo.

“O esporte é um mundo à parte onde é possível transformar sonhos em realidade por meio do seu esforço e dedicação. E as mulheres também podem e devem participar desse mundo”, diz. “Eu espero que por meio dessa visibilidade e dos resultados dos Jogos Olímpicos eu possa levar o meu esporte ao máximo de pessoas possível e mostrar aos meninos e às meninas que sonham em se tornar olímpicos quão fantástico o tiro com arco é. Talvez alguém se apaixone assim como eu.”

O salto que ela deu na carreira: com a palavra, a ginasta olímpica Rebeca Andrade

A ginasta Rebeca Andrade irá para a segunda Olimpíada de sua carreira. Nos jogos de Tóquio, em 2020, ela mostrou para o mundo o talento que tem com a ginástica artística ao subir no pódio e trazer a medalha de ouro para o Brasil. O talento, segundo ela, foi descoberto ainda quando criança, em um projeto social que é realizado ainda hoje em Guarulhos, São Paulo, sua cidade natal.

“Eu era bem pequena, tinha uns 5 anos, e minha tia me levou para conhecer um projeto social de ginástica que tinha em Guarulhos. Na época ela achava que eu tinha jeito, que ia gostar, conversou com a minha mãe e me levou para experimentar. E de lá para cá, acho que todo mundo sabe a história [rs]”.

Para a atleta, que se tornou no Japão a primeira mulher do país a ganhar duas medalhas em uma edição olímpica e em 2021 a primeira brasileira a conquistar duas medalhas em uma única edição do Campeonato Mundial, a família sempre foi e continua sendo o seu maior apoio.

“Desde que eu era pequena até os dias de hoje, minha família é o meu maior apoio. Apesar da distância, sinto que estão sempre perto de mim.”

Felicidade e orgulho são as palavras que definem os sentimentos de Rebeca que será uma das mulheres que irão representar o Brasil em Paris, que terá após 100 anos igualdade de gênero entre os atletas.

“Fico feliz e orgulhosa de ver a força do esporte feminino, em ver as atletas mulheres cada vez mais ocupando espaços e mostrando seu valor. A presença feminina na delegação brasileira tem aumentado a cada ciclo, não apenas entre atletas, mas também em outras áreas, com profissionais de vários setores e isso é uma conquista importante.”

O maior desafio da atleta foram as lesões que teve no meio do caminho. Para Rebeca, passar por cirurgias é o pior momento da carreira de um atleta.

“Tive três cirurgias de joelho, entre outras lesões. Foram momentos difíceis, de muita incerteza, onde a minha família, meu time, minha rede de apoio e minha equipe foram fundamentais para que eu não desistisse e pudesse chegar aqui hoje.”

A campeã olímpica saiu de Guarulhos ainda criança e desde os 11 anos mora no Rio de Janeiro. Sobre os planos para o pós-Olimpíada, Rebeca não sabe dizer. “Meu foco e minha cabeça estão 100% em Paris.”

Para mulheres que buscam um dia realizar seus sonhos, no esporte ou em outra área, Rebeca deixa uma mensagem: não desistam.

“Desejo que vocês sonhem, que lutem, que corram atrás. Seja pensando ou tendo a Olimpíada como objetivo, seja mirando algum outro sonho pessoal ou profissional, dê o seu máximo, se dedique e não deixe que nada ou ninguém te faça desistir. Faça sempre o seu melhor.”

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