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Redatora
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 13h54.
Santa Catarina, estado onde fica localizada a cidade de Joinville é hoje o estado com menor índice de desemprego do país: 2%, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Na prática, isso significa que a mão de obra disponível na cidade não dá conta da quantidade de vagas abertas, um cenário de pleno emprego que tem obrigado as empresas locais a competir diretamente por trabalhadores.
Foi nesse contexto que a Britânia, fabricante de eletrodomésticos com unidade fabril em Pirabeiraba, distrito de Joinville, decidiu atacar o problema pela raiz.
A empresa reformulou o plano de carreira dos operadores de produção, criando uma estrutura de aceleração por níveis, e passou a pagar o maior salário base inicial para a função entre as empresas da cidade. O resultado veio rápido: uma redução de quase três pontos percentuais no indicador de rotatividade da fábrica, que hoje reúne 6 mil dos 10 mil colaboradores da companhia.
Quem conduz essa frente é Tais, diretora de recursos humanos da Britânia há um ano, com mais de 25 anos de carreira em RH e passagens por redes varejistas de Santa Catarina antes de assumir o cargo.
"Nós olhamos pro plano de carreira e promovemos algumas mudanças da estrutura com aceleração de crescimento", diz Tais.
A companhia criou uma progressão em níveis para o operador de produção (nível um, dois e três), pensada para acelerar a evolução salarial de quem já está na fábrica, em vez de depender só da contratação de gente nova em um mercado sem candidatos disponíveis.
A estratégia não parou no salário. A fábrica também passou por mudanças no ambiente físico: espaços de convivência foram criados dentro do galpão para que os operadores, de acordo com a escala de cada turno, tenham pausas de dez minutos entre os processos. O refeitório também foi reformulado. "Isso tudo influenciou diretamente na rotatividade da fábrica", afirma a diretora.
Tais Ramlow da Silva Garcia - Diretora de RH da Britânia Eletrodomésticos (Divulgação)
Dois programas internos sustentam a retenção a médio prazo. O Ciclo de Gente organiza avaliação de competências, desenvolvimento e treinamentos dos colaboradores. Já o Britânia Carreiras tem foco específico na trajetória profissional dentro da empresa.
Segundo Tais, os dois programas são o que "automaticamente também garante o futuro da empresa", ao formar hoje quem vai ocupar as posições de amanhã.
A empresa também está com uma pesquisa de clima em campo, usada para mapear as principais dores dos colaboradores antes de priorizar novas ações.
Entre as frentes já em andamento está o desenvolvimento de liderança: os gestores de operação passam por treinamentos mensais de conscientização, voltados a lidar com equipes que reúnem várias gerações diferentes.
Em maio, a Britânia rodou a campanha "Cuidando de quem cuida", direcionada às mães que trabalham na empresa, com produtos e palestras. É uma ação relevante porque a maior parte da força de trabalho da fábrica é formada por mulheres. Vale um esclarecimento importante: o programa não inclui licença maternidade estendida nem jornada flexível para mães. Segundo Tais, o tema está "em cima da mesa", em discussão interna, mas ainda não foi implementado.
A inovação é um dos valores institucionais da empresa, e isso já aparece na rotina do RH. A Britânia usa inteligência artificial no processo seletivo e promoveu, no início deste ano, uma imersão com todos os executivos voltada a aplicar IA em problemas reais do negócio. Há ainda um programa interno, o Innova BRI, que reúne colaboradores para discutir inovações ligadas à operação.
"Você acorda de manhã e aquilo que você aprendeu já não serve mais", diz Tais sobre o ritmo de mudança no mundo do trabalho. Para ela, o desafio do RH não é acompanhar todos os modismos, mas identificar o que é, de fato, mudança estrutural.
O escritório administrativo e a fábrica seguem a mesma lógica de escala, cinco dias de trabalho por dois de descanso, com os turnos da fábrica organizados para cobrir a operação sem alterar essa proporção.
Reduzir turnover na cidade com menor desemprego do país não é sorte. É o que sobra quando uma empresa decide competir por salário e por ambiente, ao mesmo tempo, num mercado onde a mão de obra não é páreo para a demanda.