Redatora
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 14h22.
Última atualização em 25 de setembro de 2026 às 13h34.
RESUMO | Sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos não atingiram o nível básico de matemática no Pisa 2025. Na Saint Paul Escola de Negócios, em São Paulo, o diretor de pesquisa do Youcubed, centro da Universidade Stanford, apresentou a educadores a abordagem Mentalidades Matemáticas. Ela parte da premissa de que qualquer aluno pode aprender matemática em alto nível. A matéria mostra o que a abordagem propõe, que resultados já apareceram no Brasil e o que a pesquisa ainda questiona.
Sete em cada dez estudantes brasileiros de 15 anos não conseguem reconhecer como uma situação simples do dia a dia pode ser representada matematicamente.
O dado é do Pisa 2025, divulgado pela OCDE em 8 de setembro. Só 28% dos alunos do país chegaram ao nível 2 de proficiência em matemática, contra 65% na média dos países da organização. Com 377 pontos, o Brasil ficou em 71º lugar entre 89 países.
Para o americano Jack Dieckmann, diretor de pesquisa do Youcubed, centro da Universidade Stanford, parte do problema está na forma como a disciplina chega ao aluno. "Muitos alunos acham a matemática chata, mas, com esta abordagem, eles ficam muito empolgados, porque trazemos uma matemática aberta, criativa e equitativa", diz.
Dieckmann esteve nesta quarta-feira, 23, na Saint Paul Escola de Negócios, na Consolação, em São Paulo, para uma manhã com diretores, coordenadores pedagógicos, mantenedores e professores de escolas particulares da capital e de cidades vizinhas. O encontro foi organizado pelo programa Mentalidades Matemáticas, do Instituto Sidarta, parceiro do Youcubed há dez anos.
A abordagem foi criada por Jo Boaler, professora de educação matemática em Stanford e cofundadora do Youcubed. Segundo Dieckmann, ela reúne o que há de mais recente em neurociência, psicologia e pesquisa sobre o ensino da matemática, e chega às escolas pela formação de professores.
Na prática, saem as listas de exercícios repetidos e as provas cronometradas. Entram problemas abertos, resolvidos em grupo, que admitem mais de um caminho. O erro passa a fazer parte do aprendizado, e a velocidade deixa de medir quem é bom em matemática.
Os participantes do evento passaram por isso na pele. Numa dinâmica conduzida por Maira Costa, gerente pedagógica do programa, gestores e professores resolveram uma atividade voltada a fluência, senso e flexibilidade numérica, ou seja, a capacidade de lidar com os números de mais de uma forma.
A ideia, segundo ela, é mostrar "como a resolução de problemas pode entrar numa atividade mais dinâmica e investigativa dentro da sala de aula", com espaço para exploração desde os primeiros anos do ensino fundamental até o ensino médio.
Para os professores presentes, o que mais pesou foi a mudança de postura diante do erro. Amanda Niceto, que dá aula para o 1º ano do fundamental na Camino School, saiu da manhã com a sensação de ter revisitado por que ensina. "A metodologia é diferente do que a gente está acostumado e faz a gente sair da caixinha", diz.
O colega Thiago Adabo destaca o peso de um hábito antigo das aulas de matemática. "Me pegou muito a questão de desmistificar esse fantasma da matemática, essa coisa que a gente tem há muito tempo de querer ter sempre um jeito só de fazer, uma resposta pronta, ser rápido", diz.
A professora Maria Carolina Olim, do 2º ano, conta que o ponto mais marcante foi ouvir Dieckmann associar a ansiedade ao medo da matemática. "Quando você constrói um ambiente seguro para a criança errar, ela aprende muito mais e desmistifica essa ideia de que a matemática é um grande bicho-papão", diz.
Ricardo Rolim, professor do 6º e do 8º ano na mesma escola, vê na abordagem um reforço do que a Camino já tenta fazer: deixar o aluno formular as próprias conjecturas antes de o professor formalizar o conteúdo. "Uma das coisas muito fortes é o medo de errar. A gente tenta encorajar os alunos ao erro, para que experimentem, formulem as próprias ideias e se apropriem dos conteúdos", diz.
A programação também reuniu Adriana Santos, coordenadora pedagógica do ciclo 1 do Colégio Sidarta, e Patrícia Cândido, da Rede Pentágono, para contar como as duas instituições aplicam a abordagem.
O Instituto Sidarta aplica a abordagem no Brasil desde 2016. Ela começou no Colégio Sidarta e na Escola Estadual Henrique Dumont Villares, em São Paulo, e tem parceria com o Itaú Social desde 2018.
"Já fizemos pesquisas no Brasil, com professores e alunos brasileiros, e vimos que os resultados deram certo", diz Dieckmann. Segundo ele, os estudantes melhoraram o desempenho e passaram a participar de forma mais ativa e animada das aulas.
O resultado mais citado pelo instituto veio de um curso de férias com alunos da rede municipal de Cotia, na Grande São Paulo, em janeiro de 2020, conduzido sob a liderança de Dieckmann. Em dez dias, os estudantes avaliados antes e depois avançaram o equivalente a um ano e três meses de escolaridade em matemática, com base na avaliação americana MARS. O curso depois virou uma tecnologia educacional oferecida gratuitamente pelo Itaú Social a secretarias de educação.
Segundo o instituto, o programa já formou mais de 11 mil professores e chegou a mais de 1 milhão de estudantes, em cidades como São Paulo, Cotia (SP), Altamira (PA), Santana do Ipanema (AL) e Vespasiano (MG).
A ideia de "mentalidade de crescimento", na base da abordagem, tem críticos. Em 2018, duas meta-análises publicadas na revista Psychological Science reuniram estudos com mais de 365 mil estudantes. Elas concluíram que intervenções centradas só na mentalidade têm efeito pequeno sobre o desempenho escolar. Os mesmos autores encontraram sinais de benefício maior entre alunos de baixa renda ou com histórico de dificuldade.
O Mentalidades Matemáticas se apresenta como algo mais amplo que uma mensagem motivacional. A proposta mexe no tipo de tarefa, na forma de avaliar e na formação do professor, e é nesse conjunto que o instituto aposta.
No Pisa, o Brasil está 86 pontos abaixo da média da OCDE. Na sala da Consolação, os professores saíram com uma hipótese para parte dessa distância: o medo de errar.
É uma forma de ensinar matemática criada por Jo Boaler, da Universidade Stanford, que combina pesquisas de neurociência, psicologia e educação matemática. Ela usa problemas abertos, trabalho em grupo e o erro como parte do aprendizado.
O Instituto Sidarta, organização sem fins lucrativos fundada em 1998, aplica o programa no país desde 2016, em parceria com o centro Youcubed, de Stanford. O Itaú Social é parceiro desde 2018.
O país fez 377 pontos e ficou em 71º lugar entre 89 países. Só 28% dos estudantes de 15 anos chegaram ao nível 2, considerado o básico pela OCDE, contra 65% na média dos países da organização.
O instituto cita um curso de férias em Cotia (SP), em 2020, em que os alunos avançaram o equivalente a um ano e três meses em dez dias. Estudos mais amplos sobre mentalidade de crescimento encontram efeitos pequenos quando a intervenção se resume à mensagem motivacional.