Redação Exame
Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 10h07.
Última atualização em 27 de fevereiro de 2026 às 19h39.
Poucos espaços no mundo corporativo são tão fechados quanto os conselhos de administração. É ali que os executivos são cobrados por resultados, balanços são examinados linha por linha, riscos são expostos sem filtro e decisões que afetam milhares de funcionários passam por poucas mãos.
Não é um ambiente fácil. Mas Jandaraci Araújo está acostumada. São quase sete anos ocupando a cadeira de conselheira, além das quase três décadas em posições executivas. Para ela, o segredo para crescer na carreira está em uma regra de ouro que a acompanha: não adianta almejar o topo sem estar pronto.
Foi por isso que, ao longo da carreira, ela apostou em cursos, experiências internacionais e no estudo contínuo para ocupar espaços que muitos desejam, mas poucos se preparam para assumir. Em entrevista exclusiva à EXAME, a executiva compartilhou as principais lições que aprendeu sobre crescimento profissional, liderança e permanência em ambientes de alta pressão.
A entrada de Jandaraci nos conselhos não foi resultado de um convite inesperado. Ela começou a se preparar anos antes, buscando formações específicas em governança, finanças e estratégia. “Não adianta só querer estar no lugar. Precisa estar pronto para estar nesse lugar”, diz.
Na prática, isso significou estudar temas que não faziam parte de sua rotina anterior, entender o funcionamento dos conselhos e se familiarizar com indicadores, relatórios e modelos de decisão. Para ela, esperar a vaga surgir para só então correr atrás do preparo é um erro recorrente.

A conselheira passou por programas de longa duração, cursos no Brasil e no exterior e formações voltadas exclusivamente para atuação em conselhos. Um deles foi o ABP-W, um programa avançado da Saint Paul para diretoras, c-levels e CEOs que sonham em ocupar a posição de conselheiras.
Ela defende que a qualificação não pode ser tratada como algo pontual, ligado apenas a promoções. No ambiente corporativo atual, mudanças regulatórias, novas tecnologias e transformações setoriais exigem atualização permanente.
Nos conselhos, dominar números é obrigatório. Mas não garante permanência. Jandaraci afirma que muitos profissionais tecnicamente preparados perdem espaço por não saber conduzir conversas difíceis.
“Você precisa saber se posicionar sem transformar tudo em confronto.”
A habilidade de argumentar, ouvir, negociar e recuar quando necessário faz parte do jogo. Em reuniões tensas, a forma como alguém apresenta um ponto costuma pesar tanto quanto o conteúdo.
Ambientes de poder são, por definição, competitivos. No caso de mulheres negras, a pressão tende a ser maior. “Eu me preparei psicologicamente para estar nesses lugares”, conta.
Esse preparo envolve autoconhecimento, redes de apoio e construção de limites. Ela não defende tolerar abusos, mas entende que é preciso desenvolver recursos para não carregar tudo para a vida pessoal. “Se você não aguenta emocionalmente, isso te quebra”, reforça.
Durante sua formação, ela criou vínculos que se mantêm ativos até hoje. A troca com profissionais de diferentes setores ampliou sua visão sobre negócios e gestão. “O melhor do ABP-W foram as pessoas.”
Para Jandaraci, networking não é coleção de cartões, mas convivência, confiança e disponibilidade mútua. Relações sólidas costumam abrir portas que currículos sozinhos não abrem.
Uma das mensagens que ela repete às filhas é não esquecer a própria história. Honrar quem veio antes, afirma, ajuda a manter coerência ao longo do tempo. Ter clareza de propósito permite recusar atalhos incompatíveis com os próprios valores e sustentar escolhas impopulares quando necessário.
“Eu não vou mudar o mundo. Mas posso mudar o que está ao meu alcance”, defende.