Híbrido não é mais só sobre onde trabalhamos, mas também sobre com quem (ou com o quê) trabalhamos (Curly_photo/Getty Images)
Fundadora e Presidente do Conselho Cia de Talentos/Bettha.com
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 19h07.
Última atualização em 7 de setembro de 2026 às 19h35.
Desde o fim da pandemia, perdi a conta de quantas entrevistas dei sobre o novo modelo de trabalho. Se as pessoas continuariam trabalhando de casa, se voltariam 100% para o regime presencial ou se seria híbrido. Também participei de vários painéis sobre o assunto, escrevi artigos, conversei com empresas e profissionais, enfim, discutimos o tema até cansar.
Apesar dessa conversa estar longe do fim, tenho a impressão de que, aos poucos, essa dupla de palavras está ganhando outro significado. Se, antes, trabalho híbrido se referia principalmente à combinação entre o presencial e o remoto, mais recentemente o termo também tem sido usado para definir a parceria entre humanos e a inteligência artificial.
Híbrido, portanto, não é mais só sobre onde trabalhamos, mas também sobre com quem (ou com o quê) trabalhamos. E isso traz um novo desafio para as empresas.
Para além de ensinarem profissionais a usarem a tecnologia da melhor maneira, com responsabilidade, segurança e potencializando as competências humanas, as organizações precisam pensar em como essa nova dinâmica afeta as relações entre as próprias pessoas.
Aqui, existe uma semelhança curiosa com a discussão que tivemos (e, na verdade, continuamos tendo) sobre trabalho remoto e presencial.
É que, uma das críticas ao trabalho 100% remoto, era sobre o risco de perdermos parte das trocas que acontecem quando estamos próximos. Aquela conversa que começa sem estar na agenda, a ideia que surge enquanto duas pessoas discutem um problema, a oportunidade de observar como alguém reage a uma situação ou mesmo o aprendizado de lidar com quem pensa e trabalha de um jeito muito diferente do nosso.
Com a inteligência artificial, acredito que precisaremos desenvolver um raciocínio parecido.
Ter agentes de IA disponíveis para trocar ideias, organizar informações, revisar um raciocínio ou executar determinadas tarefas pode tornar nosso trabalho muito mais eficiente.
O cuidado está em não transformar essa facilidade em isolamento e impaciência.
Uma IA pode estar disponível a qualquer hora, responder rapidamente e acompanhar nossa linha de raciocínio sem a complexidade que existe em uma relação humana, mas essa conveniência se torna um problema quando passamos a operar única e exclusivamente através dessa lógica. Me refiro ao risco de nos acostumarmos tanto com um interlocutor que responde no nosso tempo e se adapta à nossa forma de pensar que começamos a perder a disposição para aquilo que faz parte de qualquer relação entre pessoas: explicar melhor uma ideia, ouvir algo com que não concordamos, negociar caminhos e lidar com ritmos diferentes.
Existe, ainda, um risco adicional: sistemas de inteligência artificial não são neutros. O que significa que, dependendo da forma como conduzimos a conversa, podemos acabar usando a ferramenta mais para reforçar uma ideia que já tínhamos do que para realmente colocá-la à prova.
Por isso, acredito que aprender a trabalhar de maneira híbrida nesta nova acepção também passa por aprender quando recorrer à máquina e quando recorrer a outra pessoa.
Tendo isso em mente, listei três cuidados que considero importantes para aproveitarmos o melhor dessa nova forma de trabalho sem empobrecer as relações e os aprendizados que acontecem entre pessoas:
É tentador recorrer à tecnologia para praticamente tudo e parar por aí. Só que incluir outras pessoas nas nossas reflexões continua sendo importante, principalmente quando estamos diante de decisões mais complexas ou de assuntos que não dominamos.
Ter contato com opiniões diferentes das nossas, construir nosso raciocínio através de diversas perspectivas e análises, ouvir contrapontos e considerar experiências variadas ajudam a expandir a nossa esfera de conhecimento. Por isso, não deixe de colocar suas ideias à prova com seus agentes e também na conversa com colegas.
Nem toda conversa precisa começar com um problema a resolver. Uma das coisas que mais valorizamos no contato presencial é justamente aquilo que não conseguimos planejar: encontros, trocas e ideias que surgem espontaneamente.
Nós somos seres relacionais, então é importante cultivarmos contatos, ainda mais no contexto da epidemia da solidão.
Portanto, tome cuidado para que boa parte das suas interações não se restrinja à máquinas nem sejam intermediadas apenas por telas. É no convívio com outras pessoas que ampliamos nosso repertório, entendemos melhor quem é diferente de nós, entramos em contato com ideias que jamais teríamos procurado por conta própria e, por consequência, desenvolvemos empatia. Valorize esses momentos!
Uma coisa é pedir ajuda para realizar melhor uma atividade, outra muito diferente é deixar de desenvolver uma competência porque existe uma ferramenta capaz de executar aquela tarefa por você. Principalmente para quem está começando a carreira, esse limite merece atenção.
Há conhecimentos, experiências e até dificuldades que fazem parte da formação profissional. Se pulamos todas essas etapas, podemos até chegar mais rápido a uma entrega, mas sem necessariamente construir o repertório adequado para avaliar se aquilo que recebemos da tecnologia faz sentido ou não.