Franciele Salvador, diretora jurídica e de compliance da Carbonext, fala sobre o mercado de carbono e a formação em finanças pelo FECC
Redatora
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 05h45.
Última atualização em 8 de setembro de 2026 às 10h36.
Franciele Salvador começou a trabalhar aos 15 anos. Estudou em escola pública e, desde cedo, entendeu que precisaria de capacitação para concorrer a cargos em empresas mais exigentes. Essa constatação atravessou toda a trajetória que a levou à direção jurídica e de compliance da Carbonext, empresa do mercado de carbono.
Há mais de quatro anos no cargo, Salvador lidera hoje as áreas jurídica e de compliance da companhia, que é investida da Shell. Para acompanhar discussões estratégicas em reuniões de conselho, ela buscou o FECC, o Finanças Estratégicas para C-Level e Conselheiros, programa da Saint Paul. "Foi uma das decisões mais acertadas que eu tomei. Isso me ajuda diariamente na tomada de decisão", diz.
A carreira jurídica de Salvador começou em 2015, como advogada corporativa em uma investida da gestora Pátria Investimentos. Passou pela Secretaria de Desenvolvimento Regional de Joinville, pela DânicaZipco Sistemas Construtivos, pela Orbenk Administração e Serviços e pela Vogel Telecom, onde atuou como advogada sênior.
Pouco mais de cinco anos atrás, foi chamada para estruturar o jurídico da Carbonext do zero. "Esse com certeza foi o maior desafio da minha carreira", diz. Durante essa estruturação, percebeu que precisaria entender melhor o negócio e os demais setores da empresa.
Franciele Salvador, diretora jurídica e de compliance da Carbonext, fala sobre o mercado de carbono e a formação em finanças pelo FECC
Foi então que decidiu fazer o MBA em Gestão e Liderança na Saint Paul, com um módulo internacional em Berlim voltado a tomada de decisão e negócios.
Já como diretora jurídica e de compliance, ao participar de reuniões de conselho, Salvador diz ter percebido que precisaria entender mais de finanças para se posicionar e recomendar decisões com mais fundamento. "Eu fui percebendo cada vez mais que precisava conhecer profundamente o negócio, que a minha base jurídica e de compliance não seria suficiente", diz.
No FECC, recebeu o prêmio Destaque. O módulo mais desafiador, segundo ela, foi o de contabilidade e análise de balanço, fora de sua vivência prática. Já as discussões sobre finanças sustentáveis, ESG e gestão de riscos financeiros trouxeram contato com profissionais de outras áreas.
O mercado de carbono ainda está em regulamentação no Brasil, o que muda a rotina jurídica da Carbonext. "Todas as empresas em que trabalhei anteriormente já tinham regulamentação e jurisprudência, então você tinha um manual a ser aplicado. Na Carbonext o setor ainda está em regulamentação, então você tinha que ajudar a construir, inclusive com relação à própria regulamentação", diz.
Franciele também escreveu sobre o caso Master e os riscos de apresentar um ativo ambiental como crédito de carbono sem os critérios técnicos adequados.
Para ela, o episódio reforça os cuidados na classificação: o crédito de carbono passa por um processo de auditoria e certificação público e transparente, diferente da simples quantificação de um ativo financeiro sem esse processo. "É que ocorre esse equívoco de conceito técnico", diz.
Hoje, a alienação de créditos de carbono no mercado voluntário é desonerada de tributos sobre o consumo. Sem um regime tributário específico na reforma, essa carga pode subir de 0% para até 28%.
"Nós teremos um prejuízo, um impacto como o Brasil, porque as empresas, os donos de área e os investidores vão repensar antes de fazer qualquer negócio. Isso pode vir a atrapalhar o impacto e o próprio desenvolvimento do mercado", diz.
No comparativo internacional, Salvador cita mais de 170 tipos de crédito de carbono no mundo, com mercados já regulados que funcionam bem. O Brasil tem um mercado voluntário consolidado, mas ainda não tem um mercado regulado.
"Essa regulamentação, e até que tipo de créditos serão aceitos, vão impactar o futuro do Brasil, que hoje tem potencial para ser o número um. É um momento muito relevante de construção de mercado e que a gente precisa se posicionar de forma assertiva para não perder a oportunidade", diz.
O FECC também aborda valuation, M&A e estratégias de funding, do modelo clássico às startups. A Carbonext passou por uma rodada de investimento série A e, depois, recebeu a Shell como investidora. Salvador diz que interpretar números mudou sua leitura da estruturação de projetos e operações que passam por sua mesa.
"Hoje eu vejo que era muito necessário para complementar o conhecimento técnico, jurídico e a visão de riscos", finaliza.