High angle shot of a man assisting his colleagues in a call center (PeopleImages/Getty Images)
Redatora
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 14h55.
A palavra "eficiência" virou onipresente nas teleconferências de resultados. Um levantamento do Banco da Reserva Federal de St. Louis, que analisou quase 500 mil transcrições de earnings calls entre 2000 e 2025, mostra que a fatia de frases sobre produtividade associadas à Inteligência Artificial saltou de 1,5% no quarto trimestre de 2022, ano de lançamento do ChatGPT, para 15,6% no mesmo período de 2025. Em três anos, o tema passou de nota de rodapé a assunto central nas conversas entre executivos e investidores.
O detalhe que muda a leitura do dado está no verbo. Segundo a mesma análise, cerca de 95% das frases sobre produtividade ligada à IA foram construídas no tempo futuro, contra 74% das frases sobre produtividade em geral. Executivos falam de ganho, mas majoritariamente como promessa a entregar, não como resultado já contabilizado no balanço.
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O próprio relatório do Fed de St. Louis reconhece o padrão: empresas estão investindo, testando e reorganizando processos em torno da IA, enquanto o efeito mensurável sobre produtividade segue, em boa parte, por vir.
Mesmo assim, mais de 9 em cada 10 frases relacionadas a IA nas teleconferências indicavam produtividade em alta, um otimismo verbal que ainda não encontrou correspondência equivalente nos números de eficiência operacional divulgados pelas próprias companhias.
Enquanto CEOs discursam sobre IA em calls trimestrais, quem está à frente da implementação técnica descreve um cenário mais cauteloso. Um relatório de março da Logicalis, provedora global de serviços de tecnologia, mostrou que 94% dos CIOs afirmaram que o interesse por adoção de IA cresceu na própria organização no último ano.
Ao mesmo tempo, 51% disseram acreditar que a implementação está avançando rápido demais, e 55% admitiram não ter clareza sobre o roteiro de IA da empresa para os próximos dois ou três anos.
O contraste é revelador: entusiasmo institucional em alta, governança e planejamento ainda em construção.
A distância entre discurso e resultado também apareceu em estudos técnicos citados pelo levantamento. Uma pesquisa da METR sobre ferramentas de IA voltadas a desenvolvimento de software identificou que elas chegaram a reduzir o ritmo de trabalho de programadores mais experientes, um efeito oposto ao ganho de produtividade normalmente anunciado.
Outro estudo mencionado no relatório apontou que ferramentas de IA para codificação ajudam a produzir mais linhas de código, mas isso não se traduz automaticamente em mais software efetivamente lançado.
Para quem ocupa cadeira de decisão, o conjunto de dados aponta para um problema conhecido de qualquer ciclo de tecnologia: a distância entre o discurso público sobre uma ferramenta e a maturidade real de adoção dentro da própria empresa. Comunicar otimismo a investidores é papel do executivo.
Decidir onde a IA realmente move a agulha da operação, com que prioridade e com que risco, é outra tarefa, e exige repertório que não vem pronto no calendário de lançamentos da tecnologia.
É esse o problema de negócio que o Pós-MBA em Inteligência Artificial da Saint Paul foi desenhado para endereçar: não formar especialista técnico, mas dar a executivos e diretores o critério para separar promessa de resultado e decidir com informação, não com hype, onde a IA cria valor real na própria área de atuação.
Números de teleconferência refletem expectativa de mercado. A produtividade de verdade se mede depois, no processo, na equipe e na decisão de onde investir primeiro. Entre o discurso do trimestre e o resultado que aparece no balanço seguinte, o que separa uma empresa da outra é quem, na liderança, sabe fazer essa leitura antes de todo mundo.