Lílian Peixoto, diretora jurídica e regulatória da Aegea Saneamento
Redatora
Publicado em 25 de maio de 2026 às 19h00.
Lílian Peixoto construiu sua trajetória em um dos setores mais intensivos em capital e complexidade regulatória do país: a infraestrutura. Mineira, formada em Direito, começou a carreira ainda na faculdade, na área de direito público e regulação, temas que a levariam, poucos anos depois, a deixar Belo Horizonte rumo a São Paulo.
A mudança não veio de forma simples. O objetivo de Lílian, desde o início, era cursar o mestrado em São Paulo, e a especialização na PUC foi pensada como o primeiro passo para isso. Durante um semestre, Lílian trabalhava em Belo Horizonte no início da semana, pegava um ônibus à noite para São Paulo, assistia às aulas da especialização na PUC e voltava para trabalhar na sexta-feira. Depois, decidiu se mudar de vez, sem emprego garantido, e foi aprovada no mestrado dando início a uma nova etapa profissional.
Foi em São Paulo que entrou no mundo corporativo, primeiro na Andrade Gutierrez, depois na Odebrecht Ambiental, depois em uma startup de saneamento e, hoje, na Aegea Saneamento, onde atua como diretora jurídica e regulatória.
Ao longo desse caminho, percebeu que o domínio jurídico era apenas o ponto de partida. Para liderar em infraestrutura, era preciso entender também finanças, estrutura de capital, alocação de riscos e criação de valor. Foi essa necessidade que a levou ao FECC, Finanças Estratégicas para C-Level e Conselheiros, da Saint Paul.
Lílian chegou ao setor de saneamento em 2008, pouco depois da criação do primeiro marco regulatório do setor, aprovado no fim de 2007. Naquele momento, segundo ela, o saneamento ainda era um mercado incipiente, com baixa presença de investimento privado, regulação em desenvolvimento e pouca institucionalização.
A oportunidade surgiu na Odebrecht Ambiental, onde participou da estruturação de projetos, da concepção de modelos de negócio, e da estratégia de crescimento da companhia.
“Minha carreira se confunde um pouco com o próprio desenvolvimento e transformação do setor de saneamento. Ao longo desses mais de 15 anos, tive a oportunidade de participar da implementação prática tanto do marco de 2007 quanto do novo marco de 2020”, afirma.
Contratos de concessão, PPPs, processos licitatórios, financiamentos e grandes projetos de infraestrutura demandam uma visão ampla do negócio, exigindo mais do que apenas conhecimento jurídico.
A formação em finanças corporativas surgiu como extensão natural de uma trajetória cada vez mais estratégica em infraestrutura. Lílian não buscava se tornar uma profissional de finanças, o objetivo era ganhar mais segurança para interpretar números, participar de discussões estratégicas e contribuir em reuniões que envolvem investimento, risco, retorno e geração de valor.
Para ela, essa formação faz sentido especialmente em setores de infraestrutura, nos quais contratos são de longo prazo e exigem atenção constante à sustentabilidade econômico-financeira.
Entre os módulos mais importantes, Lílian destaca Finanças Corporativas Estratégicas. A aula ajudou a consolidar conceitos sobre demonstração de resultados e fatores que impactam a performance de uma companhia. “Foi uma aula muito importante. Uso muito até hoje”, diz.
Outro módulo relevante foi o de Cenário Econômico. Para uma executiva que atua com contratos de longuíssimo prazo, compreender variáveis como juros, inflação, câmbio, política fiscal, política monetária e cenário macroeconômico é essencial.
Lílian Peixoto, diretora jurídica e regulatória da Aegea Saneamento
“Em contratos de infraestrutura, de longo prazo, várias coisas não previstas vão acontecer. Essa é a única certeza que a gente tem”, afirma.
Na prática, isso significa que fatores dentro e fora do contrato podem afetar a performance do projeto. Juros, inflação, mudanças regulatórias, financiamento e cenário fiscal podem interferir diretamente na execução de obras, investimentos e serviços.
A experiência de Lílian mostra como a infraestrutura exige líderes capazes de sustentar decisões em horizontes longos. Projetos de saneamento, concessões e PPPs não se resolvem em ciclos curtos. São contratos que atravessam governos, crises, mudanças econômicas e transformações regulatórias.
Por isso, a formação financeira se torna uma ferramenta estratégica também para quem vem do Direito.
Na visão da executiva, preservar a sustentabilidade econômico-financeira dos contratos é parte central da atuação no setor. Sem essa leitura, o risco é tratar problemas complexos de forma fragmentada.
Lílian também destaca que construiu sua carreira em um setor historicamente masculino. Entrar em salas de reunião formadas quase exclusivamente por homens exigiu posicionamento, resiliência e capacidade de conquistar espaço. Esse ambiente, segundo ela, contribuiu para seu desenvolvimento como liderança.
Embora reconheça avanços, ela afirma que infraestrutura ainda é uma área com predominância masculina.
Ao longo da trajetória, Lilian conta também que teve líderes comprometidos com seu desenvolvimento, o que influenciou diretamente seu próprio estilo de gestão.
“Meu estilo de liderança decorre muito desse processo de aprendizagem que eu tive, de uma liderança focada em pessoas, na criação de senso de pertencimento e construção de relações de confiança”, afirma.
Hoje, na Aegea, Lílian busca transmitir ao seu time a importância de três pilares: base técnica, dedicação constante e autoresponsabilidade pelo desenvolvimento da própria carreira.
Ela associa essa visão às escolhas que fez ao longo da trajetória: mudar para São Paulo sem emprego, buscar formação acadêmica, aceitar o desafio de trabalhar nos Estados Unidos sem dominar plenamente a língua, atuar em uma startup e sair de uma carreira estritamente jurídica para uma atuação mais executiva.
Para ela, assumir riscos faz parte do desenvolvimento profissional. O conhecimento técnico é indispensável, mas precisa ser ampliado por repertório de negócio, coragem e capacidade de aprender continuamente.