Carreira

Influência não é carreira, mas é o que toda carreira precisa ter

Se antes a influência era consequência de uma carreira de sucesso, agora ela também pode ser uma ferramenta para construí-la, dentro e fora das redes sociais

Influência não é sinônimo de rede social. Um executivo influencia quando mobiliza seu time (courtneyk/Getty Images)

Influência não é sinônimo de rede social. Um executivo influencia quando mobiliza seu time (courtneyk/Getty Images)

Renata Vegha
Renata Vegha

Colunista

Publicado em 17 de setembro de 2026 às 19h13.

Última atualização em 17 de setembro de 2026 às 19h14.

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Imagine a vaga aberta: formação necessária, nenhuma. Experiência prévia, nenhuma. Jornada de trabalho, indefinida. Salário: de zero a alguns milhões. Nome da oportunidade: influenciador digital.

Cá entre nós, a descrição é sedutora, e ajuda a explicar o porquê de 75% dos jovens brasileiros quererem ser influenciadores. No outro lado da moeda, porém, só 9% dos criadores de conteúdo vivem de fato da renda vinda dessa fonte. O contraste é mais interessante do que aparenta num primeiro olhar, pois não significa que ser influencer não dê dinheiro, mas que exercer e construir uma carreira a partir da influência é algo diferente.

A influência virou profissão antes de aprender a ser carreira

Hoje, o Brasil é o segundo maior mercado de influência no mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Tem tanto influenciador que já tentaram até criar um sindicato, porém, em março deste ano, a Justiça suspendeu a sua fundação por não existir uma delimitação de uma categoria profissional. A categoria existe. O dinheiro existe. A audiência existe. Mas quem representaria esse mercado? Por enquanto, ninguém sabe.

Chegamos neste posto sem antes nos perguntarmos: como se constrói uma carreira na influência? Quem responde pelo que um influenciador publica e influencia? Quais competências devem ser acumuladas além de seguidores? O que acontece quando o algoritmo muda, a audiência envelhece ou a relevância diminui? Afinal, transformar a atenção do público em dinheiro é um negócio, mas transformar influência em uma trajetória sustentável é outra história.

Vale aqui lembrar que, enquanto profissão é o seu ofício, o que você escolheu e aprendeu a fazer, carreira é a trajetória percorrida ao longo do tempo dentro de uma ou de várias profissões. E o emprego é o vínculo com o contratante, é algo com prazo, com fim.

A nova moeda da carreira é a influência

Influenciar não é novo. Se você parar para pensar, vai lembrar de alguém na faculdade que liderava a turma, ou de um colega de trabalho que move o grupo, tanto para o bem quanto para o mal, ou daquela pessoa que todo mundo procurava antes de tomar uma decisão. Formadores de opinião, líderes comunitários, figuras públicas, socialites: a influência sempre existiu.

O que mudou, com a internet, é a escala. Antes, dependíamos de TV, jornal, gravadora e outras estruturas tradicionais para disseminar ideias. Hoje, cabe no bolso o veículo para influenciar o consumo, o pensamento e o comportamento de centenas de milhares de pessoas.

O mercado percebeu essa mudança. E, a partir daí, uma coisa passou a levar à outra. Quem tinha influência percebeu que poderia transformá-la em negócio; quem tinha um negócio percebeu que poderia potencializá-lo por meio da influência. É o que vemos em trajetórias como as de Silvia Braz, João Adibe, Mari Saadi e Boca Rosa, pessoas que não apenas influenciam, mas usam essa habilidade como uma camada estratégica de seus negócios.

Se não estivessem na internet, essas pessoas provavelmente seriam ótimas vendedoras. A influência não criou essas competências, apenas encontrou um meio capaz de potencializá-las. Elas já tinham poder de conversão, leitura de público e capacidade de entender o contexto para transformar atenção em venda.

Talvez seja esse o zeitgeist em um mundo multimídia: a influência deixou de ser apenas consequência de uma carreira e passou a ser também uma ferramenta para construí-la.

Você não precisa de s

Enquanto o influenciador aprende a monetizar sua influência, o executivo vem aprendendo a transformar carreira em influência. Nomes como Luiza Helena Trajano, Flávio Augusto e Guilherme Benchimol são alguns dos exemplos de pessoas que já tinham uma consolidada carreira, e passaram a incorporar a influência a ela. Porque perceberam que a sua persona pode ser um canal de reputação, employer branding, atração de talentos e vendas.

No fundo, o médico continua sendo médico. O vendedor continua sendo vendedor. O empreendedor continua sendo empreendedor. A internet não apagou as profissões, ela mudou a distância entre aquilo que alguém sabe fazer e as pessoas que podem perceber, desejar e comprar esse valor.

É por isso que eu não vejo “influenciador” como uma nova carreira, mas como uma competência que ganhou uma potência antes não vista. Influenciar sempre fez parte de uma carreira, o que mudou foi a quantidade de gente que podemos influenciar, a velocidade com que podemos fazer isso e, principalmente, a possibilidade de transformar essa influência em reputação, relacionamento e negócio.

E influência não é sinônimo de rede social. Um executivo influencia quando mobiliza seu time. Um vendedor, quando converte. Um empreendedor, quando faz alguém acreditar no que está construindo. Um especialista, quando se torna referência em seu mercado.

A substância continua sendo o que você sabe, faz e constrói. Influência é a capacidade de fazer esse valor circular. Sua carreira não precisa virar conteúdo, mas toda carreira, em algum momento, precisa fazer seu valor ser percebido, afinal, competência que ninguém percebe tem alcance limitado. Sua carreira merece o seu empenho e, hoje, mais do que nunca, ela tem meios para ir além, ser percebida e influenciar quem você quiser.

Influência não é carreira, mas é o que toda carreira precisa ter.

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