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Executivos solitários marcam encontros às escuras

A história de executivos que recorrem a uma agência de encontros sentimentais para encontrar um par mostra o preço que o sucesso pode cobrar de quem se descuida da vida pessoal

São Paulo - São 9 horas da noite de um sábado quando uma executiva de um grande banco de investimentos brasileiro chega ao La Tambouille, sofisticado restaurante paulistano. Três meses depois de fazer sua inscrição na Table For Six, agência que promove encontros de relacionamento entre executivos, a carioca que mora em São Paulo e tem por volta de 40 anos conseguira comparecer a um jantar às cegas. Nas oportunidades anteriores, ela precisou declinar.

Compromissos de trabalho impediram a realização do encontro. A executiva tinha se preparado para aquele momento. Passou a tarde em um spa. Seu cabelo anelado, com corte na altura das orelhas, estava impecavelmente arrumado. Seria a oportunidade de conhecer alguém.

Quem recebeu a executiva no restaurante foi a bela hostess, uma morena que durante o dia também trabalha em um banco. A mesa dos participantes, escolhida pelo restaurante, não ficava em um lugar reservado. De fora, parecia um jantar entre amigos. Mas, na verdade, poucos ali tinham se visto antes.

Os outros seis participantes, executivos e profissionais liberais bem- sucedidos em suas carreiras, foram razoavelmente pontuais. As quatro mulheres, todas muito bem-vestidas e sorridentes, chegaram antes. Dois homens completariam o encontro. O primeiro, na casa dos 50 anos, alto, barrigudo e careca, iniciaria três vezes durante a noite uma conversa sobre suas experiências a bordo de uma Harley-Davidson.

O motoqueiro, ao chegar, não hesitou em cumprimentar todas as moças com um beijo no rosto. O segundo, pouco mais de 40 anos, esbelto e cabelo milimetricamente penteado para a direita, chegou logo na sequência. O simpático e bom partido foi o responsável por sugerir os vinhos que seriam degustados naquela noite.

Assim que a mesa ficou completa, a hostess foi embora. “Eles precisam se sentir à vontade”, disse ela à reportagem. Naquela noite, nove pessoas haviam confirmado a participação, mas duas não puderam ir. O que não é raro de acontecer. O culpado pela ausência é o trabalho, que prende os executivos, principalmente nos encontros marcados em noites de dias úteis. Assim como a executiva estreante, essas pessoas trabalham até tarde. E ficam sem tempo para a vida pessoal.

O preço do sucesso

O perfil do participante desses encontros às escuras é de um profissional que tem, em média, 40 anos e um salário mensal de 20 000 reais. Em geral, são pessoas que dedicaram muito tempo ao sucesso na carreira. Mais do que deveriam, talvez. Para a maioria, o preço do sucesso profissional foi o fracasso na vida pessoal. “São bem-sucedidos, mas muito solitários”, afirma Ricardo Caldas, presidente da Table for Six e do Grupo Encore, empresa de gestão de investimentos.


Ex-vice-presidente do Citibank no Brasil e ex-presidente da antiga operadora de telefonia Tess, Ricardo conhece de perto o conflito que aflige seus clientes. “A maior parte dos que nos procuram já terminou um relacionamento e foi em busca de alguma alternativa para não ficar sozinho, como sites de relacionamento, mas não tiveram sucesso”, diz Ricardo.

A solução para o problema sentimental não poderia ser mais corporativa: contratar uma consultoria especializada. Anualmente, os clientes da Table for Six pagam uma média de 7 000 reais para participar dos encontros. O valor não inclui os jantares.

Nos encontros presenciados pela reportagem, embora nenhum participante soubesse quem encontraria quando chegasse ao restaurante, a maioria demonstrou estar à vontade durante o jantar. Com exceção de dois, talvez mais tímidos. Um deles era a executiva estreante, que parece ter saído do encontro da maneira que entrou — sem ninguém.

Qualquer um ali poderia ser seu chefe ou colega de trabalho. Os assuntos comentados durante as duas horas e meia de encontro foram os mesmos de uma roda de amigos: família, viagens, filmes e muita discussão sobre política — estávamos no período de eleições municipais. As estrelas da noite foram uma arquiteta, que tem por volta de 40 anos e viajara de uma cidade do litoral paulista onde mora para o encontro, e os dois únicos homens.

“Eles às vezes ficam um pouco constrangidos”, comentou uma executiva, por volta de 35 anos, antes de os dois chegarem. Não era o caso daquele encontro. A arquiteta falou por um bom tempo sobre suas viagens a trabalho. O executivo esbelto transitou entre gastronomia, vinhos e viagens. O motoqueiro barrigudo aumentava a voz para chamar atenção sobre suas façanhas montado no seu sonho de metal.

Apenas o esbelto pediu salada. Todos os outros escolheram alguma das opções do menu do chefe: macarrão, risoto ou carne. Depois, cada um pediu uma sobremesa e, em seguida, o café. O gasto médio por pessoa, no La Tambouille, é de 200 reais, sem incluir o vinho na conta. Durante toda aquela noite, um pianista do restaurante preencheu o ambiente com músicas perfeitas para um romance. Mas aquele sábado acabou sem grandes novidades: todos foram embora sozinhos. No dia seguinte, porém, alguns deles se adicionaram no Facebook. 

Solidão compartilhada

“Eu vim ao encontro porque senão estaria em casa, vendo televisão, como faço todos os dias”, disse uma bela executiva da área de tecnologia da informação, em uma quinta-feira, no final de setembro, durante outro encontro presenciado pela reportagem. Ela tem por volta de 45 anos e, além da jornada de oito horas diárias na empresa, comanda uma clínica de estética que abriu há um ano.


“Quero ganhar dinheiro, encontrar alguém e me casar”, afirmou. “Quem sabe sobra tempo?” Nesse segundo encontro, a proposta era diferente: reunir dez mulheres para um jantar em um clube de charuto na Avenida Europa, endereço famoso pelas lojas de carros importados, em São Paulo. No início, elas teriam na mesa a presença de um famoso sommelier, que comentaria um pouco sobre vinhos. Depois, em uma sala menor, seria servido um prosecco. Nessa hora, os associados do clube poderiam interagir com as convidadas. 

Dos 350 clientes da Table For Six, 65% são mulheres. Por isso, são feitos alguns esforços para atrair homens, como preço mais baixo e eventos em locais masculinos como o clube de charuto. Assim, aumenta a possibilidade de uma associada conhecer alguém. “Algumas vêm à procura de um relacionamento sério, outras acabaram de se separar, não têm mais ninguém”, diz a executiva, dona da clínica de estética. 

Sem a presença de uma consultoria, existem outros lugares que têm profissionais solitários como clientes. O Memphis, na zona sul de São Paulo, é um exemplo. Os frequentadores, em geral, são profissionais com uma boa remuneração, solteiros, acima de 35 anos. Em algumas noites, a relação de mulheres para homens é de três para um. “Muitos clientes vêm a casa há uma década”, diz Marco Marotti, diretor-geral do bar. “Alguns frequentam, conhecem alguém, casam, separam e voltam a frequentar a casa.”

De volta à charutaria, naquela noite de setembro o investimento não se pagou. As mulheres não tiveram contato nenhum com os homens do clube e foram embora antes mesmo de as garrafas de prosecco serem servidas. “Estava me sentindo em uma vitrine”, disse uma loira alta, ao ir embora. Aquela era a primeira vez que acontecia algo do tipo no clube de charuto. Os homens pareciam tímidos ou talvez apenas não tivessem interesse por elas. 

As mulheres ficaram bravas com a situação e questionaram Ricardo Caldas, dono da Table for Six. “Eu realmente acho que não está mais encaixando dentro do que quero, estou bem insatisfeita, então amanhã quero cancelar o meu contrato”, disse uma delas, uma advogada com não mais que 35 anos.

Profissionais competentes, os executivos solitários levam para os encontros o grau de exigência com que provavelmente operam em suas profissões. Na vida, contudo, isso nem sempre funciona. “Não é fácil se relacionar com eles, são pessoas difíceis”, disse Ricardo naquela noite. “Talvez por isso estejam sozinhos”. 

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