Ana Laura Sivieri
Redatora
Publicado em 25 de agosto de 2026 às 14h14.
Quando completou 50 anos, Ana Laura Sivieri fez a si mesma uma pergunta simples. "O que eu quero mais da minha carreira? Para onde eu quero ir?" O pai dela havia se aposentado nessa idade, mas ela decidiu o oposto: “Eu quero viver e produzir muita coisa ainda", diz.
Executiva de marketing e comunicação com mais de 30 anos de experiência, Sivieri está em transição entre uma empresa e outra, processo que descreve como bem planejado. Depois de 24 anos na mesma companhia, ela negociou uma saída lenta, permaneceu seis meses como consultora sob acordo de não competição e usou o período livre para estudar.
Nesse intervalo, concluiu o SEER, Programa Avançado para CEOs, Conselheiros e Acionistas da Saint Paul Escola de Negócios, e agora se prepara para anunciar um novo capítulo profissional.
A trajetória de Sivieri começou no setor de cartões de crédito. De lá, migrou para a petroquímica, um mercado B2B em que permaneceu a maior parte da carreira, com uma passagem pelo setor de telecomunicações e outra dedicada a marketing e branding internacional, antes de retornar ao mercado B2B.
"Meu destino era realmente o B2B e é um segmento que eu sou bastante apaixonada", diz.
Para ela, a diferença em relação ao varejo está no tempo. "No B2B você faz isso de uma maneira com bastante intensidade, porque são geralmente projetos de longo prazo, relações duradouras. É diferente do consumo, do varejo, que é tudo muito rápido", conta.
Ao longo da carreira, a executiva liderou equipes formadas por diferentes regiões, formações, gêneros, raças e faixas etárias. "Diversidade na amplitude maior dessa palavra", diz. Ela cita a combinação entre profissionais jovens e experientes como um diferencial. "Pessoas bem jovens misturadas com as suas experiências é uma combinação incrível", fala.
A discussão sobre etarismo e lideranças femininas acima dos 50 anos é um tema recorrente para Sivieri, motivado pela própria transição de carreira. Segundo ela, o mercado de trabalho ainda não se adaptou ao aumento da longevidade produtiva.
"O que eu vejo é exatamente o contrário: são pessoas, tanto mulheres quanto homens, que estão no auge da produção. E eu vejo pessoas com 65, 70 anos que estão assim, e cada vez a gente vai ver mais isso", diz.
Sobre os 24 anos na mesma companhia, período marcado por cinco fusões e pela internacionalização da operação, ela resume: "Eu casei várias vezes com a mesma empresa. Na verdade, você vive várias vidas dentro de uma mesma empresa", comenta.
A escolha pelo SEER não veio de um curso técnico de liderança. "As habilidades técnicas de liderança, todos os cursos que eu já fiz até hoje, tudo que eu desenvolvi tecnicamente, já estão bastante avançados", diz.
O que buscava era outra coisa: repertório para a tomada de decisão, especialmente em cargos de topo. "Quanto mais alto o seu cargo de liderança, mais solitário ele é. Os presidentes das empresas são bastante solitários, porque ele é a última palavra", fala.
O programa combina neurociência, filosofia e arte. Na neurociência, Sivieri destaca a distinção entre Sistema 1, de reação rápida e mais suscetível a vieses, e Sistema 2, de análise mais profunda. Na filosofia, o curso percorre eras da humanidade, da natureza até o mundo contemporâneo, cada uma associada a uma forma distinta de relação e de poder.
"Não é que quando uma era começa, a outra acaba. Se você olha para o mundo, várias eras estão acontecendo ao mesmo tempo", diz, citando o Irã, ainda na era do divino, a China, com um modo de operar próximo ao da era da razão e a Europa já no vivendo o contemporâneo.
Um módulo do SEER foi realizado em Ouro Preto, dedicado à brasilidade. Para Sivieri, o Brasil desenvolveu uma habilidade rara em lidar com instabilidade.
Segundo ela, países de longa estabilidade econômica tendem a ter mais dificuldade de decisão diante da incerteza, justamente o cenário que domina o mundo contemporâneo.
Entre os colegas de turma, Sivieri cita Valdeci Ferreira, líder das APACs, associações que administram prisões autogeridas pelos próprios detentos, sem policiamento armado. "Ele conhece a essência dos seres", diz.
Segundo ela, o trabalho de Valdeci nas APACs resume o que também considera essencial na liderança corporativa: a capacidade de reconhecer potencial onde nem sempre ele é visto. "Todo mundo tem seu lado luz e seu lado sombra. E eu entendo que as APACs tentam resgatar todo o lado luz dessas pessoas."
É essa mesma lente, a de perceber o que não está na superfície, que Sivieri diz levar para a próxima etapa da carreira.